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  Bem Vindo ao Portal da Sabedoria.
 
       
     
 
 

Personalidade

Evaristo Dias da Silva
Poeta Escritor Advogado Artista Plástico

 
 

 

As encostas do alto Douro produzem os melhores vinhos do mundo. Quem já degustou um vinho do Porto guardará o paladar e a fragrância daquele néctar dos deuses para sempre.
As belas encostas de xisto acariciadas pelo sol a abnegação dos agricultores são os culpados desse pecado que tornou a região famosa.
Dessa terra abençoada veio nosso colunista Evaristo Dias da Silva.
Formado na fina arte da cinzelaria pela Escola industrial Faria Guimarães na cidade do Porto, Portugal, trabalhou nessa arte até a época do serviço militar e logo depois veio para o Brasil.
É correspondente do jornal português “O Arrais” da Régua, cidade onde nasceu, que dista do Porto 90 quilômetros.
No Brasil exerceu a sua arte de esculpir e gravar em metais nobres por algum tempo. Foi comerciante e dono de restaurante na Urca, onde recebeu a nata da televisão brasileira.
Formou-se em Direito.
Brasileiro, como poucos, escritor e poeta de mão-cheia, Evaristo Dias da Silva é um estudioso erudito da língua portuguesa e um perfeccionista.
Seu livro mais recente “A Invenção da Mulata” é um primor, um acepipe agradável de ser saboreado pelos que entendem e amam as belezas do nosso idioma. É para ser degustado como um “porto”.
Dono de um admirável senso de humor e perspicácia, nosso satírico colunista, assim se auto qualifica: cinco personagens num só cidadão:

Evaristo Dias Silva - brasileiro, advogado, pequeno empresário. Como empresário é razoável; mas falta-lhe a ambição para ganhar dinheiro.
Iavetros Sadi Lavis – judeu-grego, seu nome é um misto de Iavéh do hebraico e trois do francês. É dedicado às artes plásticas, conhece toda a teoria e quase todas as obras dos grandes mestres da pintura.
Taveiros Said Vilas - português de ascendência mourisca. É um gozador, tem talento, mas tem receio de mostrar o que escreve. Não faz questão de ser conhecido
Atorisev Siad Lasif – russo, músico, toca violão, balalaica e harmônica. Faltou-lhe tempo para levar a música a sério e agora que tem tempo já não quer saber prefere ouvir um CD.
Gosta de musica clássica e de todos os grandes mestres, mas Mozart é o seu preferido.
Vitoresa Disa Sival – inglesa, autoritária filha bastarda da rainha Vitória com um aventureiro. Gosta das artes culinárias. Reina com mão-de-ferro na cozinha. Sua culinária é simples, caseira, gostosa, cheirosa e possui alma, mais do que muito livro santo. Digna do paladar de Platão. Há quem afirme que no mundo não há nada mais saboroso.
Amigo leal e modesto e bom ouvinte, coisa difícil hoje. Sua modéstia só pode ser comparada ao seu imenso amor que sente pela família e pelo Brasil, país de sua escolha.
Evaristo Dias da Silva estará em sua coluna interativa respondendo ao questionamento dos leitores, comentando lançamentos de livros e curiosidades da Língua Portuguesa.
Flavio P. Ramos é Professor Universitário e Editor desse jornal

 
 


Os brasileiros que sustentam a gastança

vão acabar mandando Lula para Tuvalu
Da Coluna de Augusto Nunes Direto ao Ponto de 17 07 2010

Se alguém perguntar se sabe o que é Funafuti, Lula vai imediatamente exigir, com uma expressão maliciosa, um punhado de detalhes picantes. Se alguém sugerir que vá para Tuvalu, estará exposto a um acesso de cólera do presidente perplexo com o insulto. Ele acabou de autorizar a instalação em Funafuti, capital do país, da embaixada do Brasil em Tuvalu. Como não lê o que assina, nem conferiu na diagonal o texto do decreto 7.1297 de 2 de junho de 2010, que acrescentou mais uma extravagância à procissão de representações diplomáticas ampliada irresponsavelmente pelo Itamaraty de Celso Amorim. É compreensível que pense que Funafuti é alguma coisa proibida para menores e que Tuvalu é um palavrão em língua estranha.A agenda de 2 de junho informa que Lula assinou a certidão de nascimento do filhote caçula do Itamaraty às 11 da manhã de uma quarta-feira mansa. Despachou com Gilberto Carvalho, foi entrevistado pela TV Esporte Interativo, depois pela TV Bandeirantes e, antes da audiência com o ministro da Educação, Fernando Haddad, subscreveu o papelório que Amorim lhe entregou. Teve tempo de sobra para leituras. Faltaram ânimo e interesse. Há mais de sete anos empenhado na obtenção de uma vaga no Conselho de Segurança da ONU, o presidente não cria embaixadas: espalha comitês de campanha. Deve haver ao menos um em qualquer país com direito a voto. Pode ser a Bélgica. E pode ser Tuvalu.Encarregado de “chefiar cumulativamente” o exotismo, o embaixador na Nova Zelândia recebeu a missão de garantir o endosso de Tuvalu aos devaneios megalomaníacos da potência emergente. É tudo. Não há outros interesses a defender, muito menos negócios a fazer, nesse agrupamento de nove atóis coralinos perto da Polinésia, nas lonjuras do Pacífico, habitado por menos de 13 mil tuvaluanos, 4.500 dos quais alojados na capital, Funafuti. Todos são súditos da rainha da Inglaterra desde que foi instituída a monarquia constitucional associada à Commonwealth. Elizabeth II é a chefe de Estado e nomeia o governador-geral. Mas quem manda mesmo é o primeiro-ministro, escolhido pelos 15 integrantes do Parlamento. Por falta de emissoras de rádio e televisão, quem deseja informar-se tem de comprar as edições quinzenais do único jornal do lugar. A tiragem segue estacionada em 500 exemplares.A economia é baseada na exportação de copra, a polpa seca do coco, e pandano, planta comestivel também usada em artesanato. Complementadas pelo arrendamento da bandeira nacional a navios de origem tão suspeita quanto as atividades dos tripulantes, essas fontes de renda mantêm o PIB na faixa dos US$ 15 milhões.Enquanto perde eleições sucessivas na sede da ONU em Nova York, o governo Lula estreita relações com aberrações longínquas, cobre de favores os vizinhos cucarachas, fecha acordos com ditaduras repulsivas, perdoa dívidas de larápios africanos e planta embaixadas compulsivamente nos grotões do planeta, como atesta o caso de Funafuti. Para quê? Para nada.A seis meses do fim do mandato, Lula continua torrando o dinheiro dos pagadores de impostos com a placidez do inquilino que prorrogou unilateralmente o contrato de aluguel. Alguém precisa avisá-lo de que o prazo para a saída não mudou. Se não quiser voltar para casa, os brasileiros que sustentam a gastança vão acabar mandando Lula para Tuvalu


Opinião do leitor

A palmada

*Milton Larentis


Lula é o presidente dos imbecis. Eles precisavam de um. Lula é o presidente dos ladrões. Dos mentirosos, dos corruptos e dos canalhas. É o presidente da corja dos invasores e assassinos. O presidente dos incompetentes, dos fracassados e perdedores. Dos utópicos e dos jornalistas sem imaginação. Afinal, todos estes estavam na hora de ter o seu representante.

Não, Lula não é o meu presidente. Pode mandar e desmandar. Pode fazer pose e ampliar sua inesgotável vaidade, mas não consegue me dizer absolutamente mais do que qualquer vigaristazinha metido a bacana. Eu não sou ingênuo, não sou idealista, não sou jovem ecológico, não sou educado e politicamente correto. Não sou a favor de ditadores e comunistas. Não entro em orgasmo ao ouvir a "internacional" ou o Chico Buarque, não fico grávido das aventuras falsificadas do Veríssimo e não entro em trabalho de parto pelos filmes patrocinados pela esquerda. Não, o Lula não me agrada e não me comove. Ele não é o meu presidente. E se alguns acreditam que o Lula tem algum tipo de sensibilidade ao se meter na educacão de filhos - vejam como os seus próprios filhos precisavam de palmadas. Inclusive o próprio Lula precisava de algumas. Mas não será sua mãe, seu pai ou o governo militar que irá dar palmadinhas na criança socialista que mora no coracão do Lula. Será sua própria cria. O primeiro coice virá da Dilma. Produto de uma mentalidade que acredita que o Estado, que o Governo é uma entidade abstrata que sempre acerta é só lhe dar poder.

Lula colocou a palmada no nível do aborto e da pena de morte. Não importa a intenção, importa quem irá tentar. Os criminosos julgarão os pais e a delação ganhará os filhos. Mais uma pá de cal sobre a família. Mais uma boa idéia para processos de separação e divórcio. A palmada de Lula é falha de um dedo, mas sobra-lhe casco.

*Milton Larentis, professor universitário, filósofo e colaborador deste Portal.

 


Opinião da Marília Gabriela sobre a Dilma

Quem tem medo da "doutora" Dilma?

“VOU CONFESSAR: Morro de medo de Dilma Rousseff.”

Esse governo que tem muitos acertos, mas a roubalheira do governo do PT e o cinismo descarado de LULA em dizer que não sabia de nada nos mete medo.

Não tenho muitos medos na vida, além dos clássicos: de barata, rato, cobra.

Desses bichos tenho mais medo do que de um leão, um tigre ou um urso, mas de gente não costumo ter medo.

Tomara que nunca me aconteça, mas se um dia for assaltada, acho que vai dar para levar um lero com os assaltantes (espero). Não me apavora andar de noite sozinha na rua e, não tenho medo algum das chamadas "autoridades", só um pouquinho da polícia, mas não muito.

Mas de Dilma não tenho medo; tenho pavor.

Antes de ser candidata, nunca se viu a ministra dar um só sorriso, em nenhuma circunstância. Depois que começou a correr o Brasil com o presidente, apesar do seu grave problema de saúde, Dilma não para de rir, como se a vida tivesse se tornado um paraíso.

Mas essa simpatia tardia não convenceu. Ela é dura mesmo.

Dilma personifica, para mim, aquele pai autoritário de quem os filhos morrem de medo, aquela diretora de escola que, quando se era chamada em seu gabinete, se ia quase fazendo pipi nas calças, de tanto medo.

Não existe em Dilma um só traço de meiguice, doçura, ternura.

Ela tem filhos, deve ter gasto todo o seu estoque com eles e não sobrou nem um pingo para o resto da humanidade. Não estou dizendo que ela seja uma pessoa má, pois não a conheço; mas quando ela levanta a sobrancelha, aponta o dedo e fala, com aquela voz de general da ditadura no quartel, é assustador. E acho muito corajosa a ex-secretária da Receita Federal Lina Vieira, que enfrentou a ministra afirmando que as duas tiveram o famoso encontro. Uma diz que sim, a outra diz que não, e não vamos esperar que os funcionários do Palácio do Planalto contrariem o que seus superiores disseram que eles deveriam dizer. Sempre poderá surgir do nada um motorista ou um caseiro, mas não queria estar na pele da suave Lina Vieira. A voz, o olhar e o dedo de Dilma, e a segurança com que ela vocifera "suas verdades", são quase tão apavorantes quanto a voz e o olhar de Collor, quando ele é possuído. Quando se está dizendo a verdade, ministra, não é preciso gritar; nem gritar nem apontar o dedo para ninguém. Isso só faz quem não está com a razão, é elementar. Lembro de quando Regina Duarte foi para a televisão dizer que tinha medo de Lula; Regina foi criticada, sofreu com o PT encarnando em cima dela - e quando o PT resolve encarnar, sai de baixo. Não lembro exatamente de quê Regina disse que tinha medo nem se explicitou, mas de uma maneira geral era medo de um possível governo Lula.. Demorei um pouco para entender o quanto Regina tinha razão. Hoje estamos numa situação pior, e da qual vai ser difícil sair, pois o PT ocupou toda a máquina, como as tropas de um país que invade outro. Com Dilma seria igual ou pior, mas Deus é grande.

Eles não falaram em 20 anos? Então ainda faltam quase 13, ninguém merece.

Seja bem-vinda, Marina Silva. Tem muito petista arrependido que vai votar em você e impedir que a mestra sem mestrado, Dilma Rousseff, passe para o segundo turno.

Outra boa opção é o atual governador José Serra que já mostrou seriedade e competência. Só não pode PT, Dilma e alguém da "turma do Lula".

 

 

 

Arte imita a vida ou a vida imita a arte?
Considerações sobre a vilania instalada no Brasil

*Flavio P. Ramos, editor

A atriz Giovanna Antonelli defende na internet sua personagem Dora Vilela, uma vilã na novela “Viver a vida”.

Qualquer artista deseja interpretar um vilão (1), conhece o resultado. Os autores de novelas também conhecem a importância dos vilões.

Observar e perseverar na observação dos fatos, ouvindo todos os lados envolvidos e confirmar os fatos para só então noticiar. Esse tem sido o escopo dos jornalistas que trabalham com seriedade. É isso que está acontecendo?

Muitos questionarão se a preferência pelos vilões nas novelas é o espelho da realidade brasileira. Outros tantos se as novelas não desencadeiam um comportamento de vilania na sociedade brasileira.

Há trabalhos científicos, antigos até, que mostram que ambos os casos acontecem. Quando os representantes da imprensa questionam se a televisão é responsável pelo comportamento agressivo, vejo claramente como falta a eles a cultura acadêmica imprescindível a qualquer pessoa culta, e principalmente para quem lida com a notícia.

Embora os veículos da comunicação sejam apenas instrumentos, o que se mostra de fato pode influenciar os que desconhecem filosofia e não sabem o que é falácia, aplicando o conceito “democracia” de forma incorreta. Ser maioria não necessariamente faz com que um comportamento seja correto ou que ter comportamento de bandido seja correto.

É fato, e de domínio público, que diversos atores, representando vilões nas novelas, já foram agredidos com palavras e até fisicamente. Isso evidencia que alguns não sabem onde começa a personagem e onde começa o ator que a interpreta. Isso pode representar “a glória” para o artista que sente como sua personagem impactou o público chegando ao ponto da agressão. Por outro lado demonstra, lamentavelmente, o pouco discernimento entre verdade e ficção.

Atualmente, acontece que o vilão está tendo larga aceitação do público, nas novelas e nos “reality shows”. É a hora de o mau caráter ficar famoso ou do famoso revelar seu real mau caráter e ainda sair premiado.

O processo de identidade está fortemente ligado ao “comportamento do modelo”, na realidade e na ficção.

O Governo como representante do Poder constituído pelo voto, acaba sendo um agente modificador e multiplicador de comportamentos.

A expressão cada povo tem o governo que merece está certíssima. Ou melhor, estaria se não fossem os canalhas eleitos por outros do mesmo naipe.

Perguntamos porque os políticos vilões são tão admirados. As respostas variam em torno de: “Deram mole e ele que é esperto e se deu bem”. “O pessoal intelectual não gosta dele porque é do povo como eu”.

“É o que se preocupa com os pobres os sem terra e os índios”. “É igualmente a mim, nordestino que conseguiu ser rico, não importa nem interessa como os que tem estudo e são ricos perderam”. É o cara e todos no mundo inteiro batem palma e se curvam p’ra ele”.

Conseqüência do voto do analfabeto e do comportamento bandido que a política da impunidade trouxe. Para os que, por incapacidade instrucional, ganham salário mínimo e vivem de bolsas do governo, pouco importa, querem ver o circo pegar fogo, odeiam quem vive melhor, não importa como adquiriram seus bens, querem “a fazenda do rico invadida e destruída”, querem ver os “iguais” no poder.

Com o domínio imposto aos meios de comunicação, principalmente as emissoras de televisão, cujos canais são concedidos a título precário. As emissoras acabam sendo dominadas pelos interesses do governo e sendo, portanto multiplicadoras dos comportamentos deste.

Os atos criminosos: lesa-pátria, corrupção, prevaricação, nepotismo e impunidade dos políticos que os praticaram ou praticam crimes, impunemente, são fortes sinais para que comportamentos criminosos se instalem na sociedade. O povo aprende por imitação e aprende mais facilmente o que não depende de limites.

Combater esses comportamentos e punir seus agentes não é um ato de desrespeito à autoridade constituída, mas significa a obrigação em manter a ordem interna, respeitando a Constituição que a todos rege.

Até agora os crimes continuam acontecendo e os homens e mulheres dignas deste País, pasmos vêem a maldade e o crime sendo enaltecidos.

É a arte imitando a vida.

Os fenômenos que podem ocorrer em 2012 poderão ser a limpeza da sujeira kármica que os vilões do mundo fizeram vibrar no campo espiritual.

Acredito que haverá uma mudança na interação das pessoas com o planeta, que é vivo e faz parte do universo humano. A tomada de consciência dará lugar aos interesses materiais e a predominância do espírito sobre a matéria far-se-á presente. Queira D’us.


N.R.: o autor, de 66 anos, é professor universitário, jornalista e editor deste Portal.

(1) tanto quanto mais carismáticos forem os artistas que interpretam vilões, maior será a influência negativa nas populações com pouca instrução formal.

 

 

Falando de Fernando Pessoa
“Um poeta múltiplo, como o universo”.


Taveiros


Fernando Pessoa foi um poeta múltiplo, como o universo. Assumiu a Arte como uma missão, ao viver para a criação mito-poética dos seus personagens, podendo ser comparado a Shakespeare, Van Gogh ou Artaud, que viveram para a Arte ao assumir a existência como um ritus, onde a Arte tinha que ser o centro de tudo, ter um caráter duplo de vida e de morte.

Fernando Pessoa despersonaliza-se no labirinto da linguagem e nela cria o seu palco como um autêntico Dionísios, fazendo emergir os outros eus tão distantes e próximos do seu olhar. Tece esse fio criador e percorre como Dédalo o labirinto da criação. Ou da liberdade do artista. E nele ri... chora... canta... morre...e expande-se, através das máscaras Chevaller de Pas, Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos, Bernardo Soares, Alexander Search, Fausto, as veladoras do marinheiro e tantas outras que nascem do seu Ser.

Construindo esse universo ficcional e tão real, já que fingir é conhecer-se, Pessoa pasma-se e, num êxtase dionisiano, percorre as trevas inebriando e encantando as almas como Orfeu. Na ágora do imaginário povoa o mundo com os seus versos, que falam da humanidade. Ele já não sabe, sabendo que não é, sendo o Guardador de Rebanhos, o poeta da Natureza, o mestre de Si e dos Outros, já que seu criador o quis. A persona Caeiro, negando a especulação das subjetividades metafísicas, interpreta o mundo a partir dos sentidos: “penso com os olhos e com os ouvidos/ E com as mãos e os pés/ E com o nariz e a boca”.

A fragmentação faz-se, e eis que se instala a tragicomédia na criança de outrora, que brincava de ser outros, um certo Chevallier de Pas, que fazia da existência de Pessoa uma festa, possibilitando-lhe o vôo da dissimulação: “Desde criança tive a tendência para criar em torno de mim um mundo fictício, de me cercar de amigos e conhecidos que nunca existiram. Esse mundo tão diverso, onde várias são as vontades e as procuras, gera inquietude num sujeito, cujas máscaras insistem em fazer-se vida e a vida é gerada palavra a palavra num outro”

O sensacionalismo de Álvaro de Campos ultrapassa limites e numa vertigem insaciável, procura na passagem das horas. A encenação é o Nada, o Nada é a vida, e a vida é também a possibilidade do sonho: “Não sou nada/ Nunca serei nada/ Não posso querer ser nada/ À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo”. A aventura de Campos, pelo seu labirinto interior, procura atingir múltiplas paisagens e o seu olhar lança-se para uma paisagem típica presente na noite, a grande deusa dos mistérios. Torna-se filho dessa divindade lunar e já não sabe se retorna do útero originário.

As máscaras da noite cedem às do dia e Apolo sorri ao receber a taça de Dionisios. Ricardo Reis surge de Pessoa e passa a caminhar por um tempo de ninfas, musas e sábios. O nada em excesso, a medida de todas as coisas manifesta-se na disciplina desse epicurista, cujo prazer está nos limites do homem diante da potência trágica do destino e do tempo: “Sofro, Lídia, do medo do destino/ Meu coração. É necessário sentir a vida pensando-a, para não cometer a falha trágica, querer ser Deus ou mais que ele: Tudo é tudo, e mais alto estão os deuses,/Não pertence à ciência conhecê-los/ mas adorar, devemos seus vultos como às flores”.

O visionário Pessoa almeja um outro vôo, um vôo pelos caminhos do sonho e do mistério da morte em embate com a vida. O marinheiro Pessoa é o navegante construtor de um mundo todo seu, onde possa manifestar seus vislumbres, configurado na sua voz: “Ao princípio ele criou as paisagens; depois criou as cidades; criou depois as ruas e as travessas, uma a uma, cinzelando-as na matéria da sua alma.

Como nos diz Augusto Seabra, a poesia de Pessoa é vista, fundamentalmente como um jogo do “vivido” imaginário como um “poetodrama”, mais do que como o drama do imaginário vivido. O labirinto se amplia em curvas e Pessoa é, na verdade, um grande e misterioso baú, donde podem infinitas personas emergir para povoar o grande palco da Arte. Ele ainda brinca de ser Bernardo Soares, o guardador de livros, de Alexandre Search, o fidalgo Barão de Teive, o periodista satírico francês Jean Seul, Vicente Guedes, Mr. Cross, Antonio Mora, Fausto, e percorrendo o Universo do Eu do Outro como um irreverente Hermes, deixa vir a lume a possibilidade da multiplicidade, do artista aprender o mundo em várias perspectivas e cosmovisões e assim poder se encontrar no desconhecido labirinto da vida, plena de palavras, desviando emoções, sentimentos e paixões, fazendo-nos sentir plural como o universo



O Símbolo Perdido


O livro de Dan Brown é um escrito em que o autor usa técnica perigosa.
Falácias que são misturadas ou apoiadas em verdades, repete a fórmula que usou em “O Código Da Vinci”. FPR

No “Código Da Vinci”, a falácia principal é a tela do pintor que retrataria uma figura de mulher à direta (lugar tradicional de honra) de Jesus. Essa figura seria Maria de Magdala. Leonardo Da Vinci nunca conheceu Jesus, e não há nenhuma representação da mesa da “Santa Ceia” o quadro é apenas uma visão artística. A trama acontece a partir dessa falácia.

Em “O Símbolo Perdido, o autor só é capaz de convencer os que desconhecem a Maçonaria: a discrição macabra da cerimônia em que o iniciado bebe vinho tinto em um crânio humano é falsa. Depõe contra a instituição Maçonaria e seus elevados propósitos.

O grande perigo está no fato de que a narrativa dessa parte falsa da iniciação se soma a outras já existentes, em outros livros, inclusive envolvendo satanismo, publicadas também na INTERNET e em diversos sites igualmente maledicentes e fantasiosos.

Muitos confundem ficção com realidade, personagem com atores, principalmente em se tratando de assuntos desconhecidos, quando a polêmica envolve religião e ordens esotéricas.

Líderes religiosos há longa data vêm instigando pessoas que desconhecem a Maçonaria, com falsas declarações, como se eles, clérigos, fossem os donos da verdade absoluta. Essa técnica falaciosa foi a mesma usada pelo famigerado Göebels, Ministro da Propaganda de Adolf Hitler repetir mentiras tantas vezes que segundo ele, se transformariam em verdades.

Quando Dan Brown descreve o iniciado bebendo em um crânio humano, dá asas à imaginação dos que se unem aos fieis das igrejas que dizem que os maçons cultuam o anjo do mal e seus ritos satânicos.

O uso do latim e do grego pelos maçons em seus rituais se deve ao fato de que a Real Academia de Londres só aceitar teses escritas em latim, grego e aramaico, e outras por serem línguas em que escreveram os sábios antigos pitagóricos e cabalistas. Quase a totalidade dos membros da Real Academia eram Maçons e Rosacruzes.

Homens de “mente aberta” e “sabedoria científica” em discordância com a ignorância e o ranço dogmático têm acento entre os maçons no mundo inteiro e entre eles estão membros e religiosos da alta administração católica, protestante, judaica, muçulmana e de outros credos, que sempre ocuparam cargos de grande poder da Maçonaria. No Brasil e no exterior, seus retratos a óleo e modernamente fotografias estão expostas em lugares de destaque abertos ao público.

Mentiras institucionalizadas. As igrejas as impuseram a seus crentes sob os rótulos de “Dogmas de Fé” e de “Tradição” perigosas inverdades. Eis algumas, pasmem:

O Natal no dia 25 de dezembro (nascimento de Cristo). Essa era a data das festas em homenagem ao deus sol, do qual o Imperador Constantino era devoto. Com a sua conversão o dia 25 de dezembro, dia das festas em honra ao sol, passou a ser escolhido para ser o falso dia do nascimento de Jesus. O concílio de Nicéia resolveu fixar nessa data o pseudo-nascimento de Jesus.

Jesus veio para modificar a Lei - outra falsidade, isso não está escrito em nenhuma das traduções nem no texto original do N.T. (1) . Jesus é o Salvador, Jesus, Ieoshua, em hebraico significa Salvador, um nome próprio.

Domingo é o dia consagrado ao Senhor – outra mentira. É o sábado o dia consagrado. O Santo Sábado tem início ao entardecer da sexta-feira, quando aparece a primeira estrela no céu e termina ao pôr do sol de sábado. Para confirmar, é só ler os dez mandamentos. Vale para qualquer tradução da Bíblia.

Reis Magos - não há menção em nenhum texto bíblico a “reis magos”, que seriam em número de três e nem dos nomes. As escrituras falam de “uns magos” não mencionando número; os presentes sim, teriam sido três, segundo o N.T., ouro incenso e mirra, todavia por propósitos diferentes dos divulgados. Como a data do nascimento de Jesus é falsa, o pseudo dia de reis decorrente também.

A cerimônia de iniciação é apenas uma, ocorre após ampla e longa investigação sobre a vida e o currículo do candidato desde o nascimento.

O candidato precisa, obrigatoriamente, ser apresentado por um maçom. Há ainda outros procedimentos, exames médicos e outros exames rigorosos. Jamais um corpo inteiramente tatuado, maquiado ou não, passaria por esses exames. Castrados não são recebidos, já que a Ordem entende que o corpo físico é o duplo do espiritual e se o corpo físico não é perfeito, o espírito também não o é (uma das leis de Hermes).

Doações de grandes somas não são a forma de ingressar no grau 33 como narra o autor; outra falácia.

A Maçonaria estimula a filantropia, e mantém várias obras beneficentes ao redor do mundo, incluindo colégios, orfanatos e hospitais, todavia abomina o suborno e a corrupção ativa ou passiva.

O sistema de graus maçônicos é uma forma de transferir conhecimento passo a passo, uma prática pedagógica tão nova quanto antiga. Ao chegar ao Grau 33, o maçom alcança um conhecimento acumulado equivalente a um “Doutor em Filosofia”.

Durante as Cruzadas, a “Santa Inquisição” e épocas de perseguição e conflito, livros e pessoas inocentes foram queimadas vivas. Nessa época todos os cargos da Igreja Católica eram vendidos a peso de ouro, inclusive o de cardeal, condição para aspirar ao Papado.

Ordens esotéricas têm sido guardiãs da Sabedoria: quadros, livros científicos e documentos também protegeram pessoas, iniciados ou não, da fúria dos que matavam em nome do Criador. Grande parte desses documentos, obras raras, estão ainda hoje custodiados, guardados em condições ambientais controladas para preservação, mas podem ser vistos em cópias autênticas e em microfilmes e por pesquisadores em seus originais.

Nunca houve uma “Conspiração Maçônica” ou Judaica para dominar o mundo.
A pirâmide é um símbolo das virtudes e da sabedoria construídas pedra sobre pedra. O Topo da pirâmide incompleta mostra que a obra não está completa. O topo ou cume da pirâmide, como do obelisco, representam a Divina Sabedoria que segundo os ensinamentos da Cabala está na região da Kheter em Aziluth, de onde o Grande Arquiteto do Universo contempla a sua obra.

Grandes sábios e Notáveis da humanidade são Maçons e ou Rosacruzes ou pertencem a outras ordens esotéricas coirmãs com elevados propósitos semelhantes. Isso é uma verdade até hoje, seus nomes serão revelados no futuro, e só então serão conhecidos os grandes de hoje para que sejam mantidos e protegidos, hoje, do ódio das forças do mal travestidas de religiões.

Embora o texto de “O Símbolo Perdido” seja loquaz, inteligente, laborioso e prenda o leitor, a leitura evidencia Dan Brown como mais um apedeuta, desde a primeira página, que escreve sobre maçonaria.
(o leitor esquece que se trata de uma ficção pela técnica que mistura fatos e ficção). De fato, como escreveu o autor Dan Brown, as pessoa acreditam no que querem.

“A aceitação de uma idéia não é prova de sua validade ou verdade”D. B..

Prof. Flavio Pinto Ramos, 66 maçom escritor e jornalista.
flaviopramos@uol.com.br
N.R

N.T. (1)- Novo Testamento.
Para maiores informações os sites da Maçonaria e da Amorc têm link de acesso direto a partir do portal www.mensageiro.com.br


Saramago

Desde muito cedo contraí a doença da leitura, da qual nunca me curei. Peregrinei por várias literaturas: inglesa, francesa, americana, portuguesa, brasileira, etc. Até aos 20 anos lia tudo o que me passava por perto sem nenhum critério de escolha. Depois o gosto foi-se lapidando e hoje o escritor ou poeta para me convencer a lê-lo tem que ter elegância, arte, forma e, sobretudo, conhecimento profundo do idioma em que escreve.

Não consegui ler mais que l00 páginas dum livro do Sr. Saramago, apesar do Seu prêmio Nobel. Então Portugal, que teve escritores e poetas do mais alto firmamento literário, tem agora de prestar vassalagem a um Saramago desses sob a ameaça da desistência da nacionalidade portuguesa! O prêmio Nobel de literatura está muito vulgarizado, e o Sr. Saramago só o ganhou por ser esquerdista dos mais retrógrados. Agora deu para vociferar contra Deus, insultar religiões etc.

Tenho medo de chegar à idade dele assim, sem senso do ridículo.

Taveiros

 

Prostitutas de luxo

Taveiros

Diferentes das prostitutas de rua que destroem a sua vida e o seu corpo em função de algum dinheiro para se sustentarem, que são exploradas por redes de tráfico humano, que se entregam ao mundo das drogas entregando o corpo em troca de uma dose.

A precariedade e a vulnerabilidade da mulher que faz sexo em motéis ou num banco traseiro do carro do cliente e a mulher que tudo arrisca, até ser vítima de violência, dão lugar a um mundo onde o “sexo fraco” se pode dar ao luxo de escolher quem atende.

Estas “acompanhantes de luxo” primam pelo gosto em vestir bem. Mulheres bonitas, de silhuetas esculturais e que se movem no mundo da alta sociedade com um à vontade característico.

De fato, não é o dinheiro pela sobrevivência que as move, mas sim o destino que lhe podem dar. Uma vida de glamour e de luxo, de viagens a lugares exóticos, tratamentos de beleza, carros top.

Para além destes bens materiais, estas mulheres sentem prazer com esta atividade, uma vez que “erotizam a própria prática da prostituição”. Usam o seu poder de sedução em função das suas fantasias e sentem-se confortáveis nesse papel.

Uma vida dupla porque se reveste de anonimato na medida em que nem as pessoas e familiares mais próximos conhecem a sua “profissão”.

Um certo sociólogo investigador, reconhece que esta é uma prostituição “ultra secreta” uma vez que a “rede é completamente fechada, ninguém sabe que esta ou aquela mulher é uma prostituta nem quem são os homens que recorrem aos seus serviços”. Defende que só os homens com algum poder econômico e com estatuto social conseguem ter a companhia destas prostitutas acompanhantes.

O investigador explica que este é um “mundo social restrito” onde circulam discretamente mulheres entre os 18 e os 35 anos.

Lembro-me que quando frequentava o ensino superior, corria o rumor das estudantes acompanhantes de luxo. Frequentavam uma universidade pública, com o esforço dos pais de classe média baixa, mas deslocavam-se em carros de luxo. Falava-se delas, mas de fato ninguém as identificava com a convicção da certeza.

Os homens escolhem-nas para terem relações sexuais descomprometidas, para romper com relações rotineiras e poder simular a conquista sexual, mas muitos ficam dependentes delas. Chegam a pagar-lhes o aluguel da casa ou a fazer avultadas transferências bancárias. Temem descobrir que afinal aquela mulher não é uma conquista, que a afirmação que procuravam conduz sim a uma desvalorização da sua masculinidade.

Muitos se lembrarão da bonita Julia Roberts, que representava o papel de uma jovem prostituta nas ruas de Los Angeles. “Salva” pelo não menos charmoso Richard Gere, que a transformou numa discreta e sofisticada “acompanhante de luxo”, que apaixonou os telespectadores pelo mundo inteiro.

Ainda que inconscientemente, gostamos de imaginar esta realidade revestindo-a sempre da magia do conto de fadas onde os protagonistas se apaixonam no final e vivem felizes para sempre.

Bem mais fácil manipular a realidade do jeito que nos faça sentir mais confortáveis.



POBRES ALUNOS, BRANCOS E POBRES...

*Sandra Cavalcanti

Entre as lembranças de minha vida, destaco a alegria de lecionar Português e Literatura no Instituto de Educação, no Rio.

Começávamos nossa lida, pontualmente, às 7h15. Sala cheia, as alunas de blusa branca engomada, saia azul, cabelos arrumados.

Eram jovens de todas as camadas. Filhas de profissionais liberais, de militares, de professores, de empresários, de modestíssimos comerciários e bancários.
Elas compunham um quadro muito equilibrado.

Negras, mulatas, bem escuras ou claras, judias, filhas de libaneses e turcos, algumas com ascendência japonesa e várias nortistas com a inconfundível mistura de sangue indígena.
As brancas também eram diferentes.
Umas tinham ares lusos, outras pareciam italianas.
Enfim, um pequeno Brasil em cada sala.Todas estavam ali por mérito!O concurso para entrar no Instituto de Educação era famoso pelo rigor e pelo alto nível de exigências.
Na verdade, era um concurso para a carreira de magistério do primeiro grau, com nomeação garantida ao fim dos sete anos.
Nunca, jamais, em qualquer tempo, alguma delas teve esse direito, conseguido por mérito, contestado por conta da cor de sua pele!
Essa estapafúrdia discriminação nunca passou pela cabeça de nenhum político, nem mesmo quando o País viveu os difíceis tempos do governo autoritário.
Estes dias compareci aos festejos de uma de minhas turmas, numa linda missa na antiga Sé, já completamente restaurada e deslumbrante.
Eram os 50 anos da formatura delas!
Lá estavam as minhas normalistas, agora alegres senhoras, muitas vovós, algumas aposentadas, outras ainda não.
Lá estavam elas, muito felizes. Lindas mulatas de olhos verdes.
Brancas de cabelos pintados de louro. Negras elegantérrimas, esguias e belas. Judias com aquele ruivo típico.
E as nortistas, com seu jeito de índias.
Na minha opinião, as mais bem conservadas.
Lá pelas tantas, a conversa recaiu sobre essa escandalosa mania de cotas raciais. Todas contra!
Como experimentadas professoras, fizeram a análise certa. Estabelecer igualdade com base na cor da pele? A raiz do problema é bem outra. Onde é que já se viu isso?
Se melhorassem de fato as condições de trabalho do ensino de primeiro e segundo graus na rede pública, ninguém estaria pleiteando esse absurdo. Uma das minhas alunas hoje é titular na UERJ.
Outra é desembargadora. Várias são ainda diretoras de escola. Duas promotoras.
As cores, muitas. As brancas não parecem arianas. Nem se pode dizer que todas as mulatas são negras.
Afinal, o Brasil é assim. A nossa mestiçagem aconteceu. O País não tem dialetos, falamos todos a mesma língua. Não há repressão religiosa.
A Constituição determina que todos são iguais perante a lei, sem distinção de nenhuma natureza!
Portanto, é inconstitucional querer separar brasileiros pela cor da pele. Isso é racismo!
E racismo é crime inafiançável e imprescritível. Perguntei: qual é o problema, então? É simples, mas é difícil. A população pobre do País não está tendo governos capazes de diminuir a distância econômica entre ela e os mais ricos. Com isso se instala a desigualdade na hora da largada. Os mais ricos estudam em colégios particulares caros.
Fazem cursinhos caros.
Passam nos vestibulares para as universidades públicas e estudam de graça, isto é, à custa dos impostos pagos pelos brasileiros, ricos e pobres.
Os mais pobres estudam em escolas públicas, sempre tratadas como investimentos secundários, mal instaladas, mal equipadas, malcuidadas, com magistério mal pago e sem estímulos.
Quem viveu no governo Carlos Lacerda se lembra ainda de como o magistério público do ensino básico era bem considerado, respeitado e remunerado.
Hoje, com a cidade do Rio de Janeiro devastada após a administração de Leonel Brizola, com suas favelas e seus moradores entregues ao tráfico e à corrupção, e com a visão equivocada de que um sistema de ensino depende de prédios e de arquitetos, nunca a educação dos mais pobres caiu a um nível tão baixo.
Achar que os únicos prejudicados por esta visão populista do processo educativo são os negros é uma farsa.
Não é verdade. Todos os pobres são prejudicados: os brancos pobres, os negros pobres, os mulatos pobres, os judeus pobres, os índios pobres!Quem quiser sanar esta injustiça deve pensar na população pobre do País, não na cor da pele dos alunos. Tratem de investir de verdade no ensino público básico. Melhorar o nível do magistério.
Retornar aos cursos normais.
Acabar com essa história de exigir diploma de curso de Pedagogia para ensinar no primeiro grau.
Pagar de forma justa aos professores, de acordo com o grau de dificuldades reais que eles têm de enfrentar para dar as suas aulas.
Nada pode ser sovieticamente uniformizado. Não dá. Para aflição nossa, o projeto que o Senado vai discutir é um barbaridade do ponto de vista constitucional, além de errar o alvo.
Se desejam que os alunos pobres, de todos os matizes, disputem em condições de igualdade com os ricos, melhorem a qualidade do ensino público.
Economizem os gastos em propaganda.
Cortem as mordomias federais, as estaduais e as municipais. Impeçam a corrupção.
Invistam nos professores e nas escolas públicas de ensino básico. O exemplo do esporte está aí: já viram algum jovem atleta, corredor, negro ou não, bem alimentado, bem treinado e bem qualificado, precisar que lhe dêem distâncias menores e coloquem a fita de chegada mais perto?É claro que não. É na largada que se consagra a igualdade. Os pobres precisam de igualdade de condições na largada.
Foi isso o que as minhas normalistas me disseram na festa dos seus 50 anos de magistério!
Com elas, foi assim.

*Sandra Cavalcanti, professora, jornalista, foi deputada federal constituinte, secretária de Serviços Sociais no governo Carlos Lacerda, fundou e presidiu o BNH no governo Castello Branco.

 

 


Reaprendendo a viver

Taveiros

Há vários momentos na vida que nos conduzem a reaprendizagens. São vários ciclos que se fecham e outros que se iniciam. O sair de casa dos pais e moldar um percurso de autonomia, o primeiro emprego, o casamento ou a decisão de partilharmos a vida com outro alguém, o nascimento do primeiro filho. O reaprender a viver novamente a dois quando os filhos saem de casa, o momento da aposentadoria, a velhice.

Vivemos em constante reaprendizagem no compasso natural que a vida nos impõe.

Há depois outros momentos que quebram este ciclo natural das coisas e que nos obrigam a testar a capacidade de adaptação, que caracteriza o ser humano.

O Rui tinha 34 anos quando sofreu um AVC (Acidente Vascular Cerebral). As sequelas manifestaram-se ao nível da mobilidade, impedindo-o de usar os padrões normais de postura e de movimento, essenciais para a realização de atividades funcionais tais como o sentar, o manter a posição de pé, o andar e a realização de atividades da vida diária. A perda de autonomia foi o obstáculo mais rigoroso que teve que enfrentar e não o conseguiria sem a ajuda da família.

O Rui era casado e tinha um filho de cinco anos de idade. Não foi apenas o Rui que foi obrigado a reaprender a viver, mas também os que dele eram próximos.

As primeiras semanas foram pautadas pela revolta que sentia e que refletia na mulher e no filho como se de escudos protetores se tratassem. E assim o revelaram ser de fato. Foram vários os momentos de inconformismo amenizadas por um gesto de carinho da mulher e por um sorriso do pequeno filho. Surgiram depois os momentos em que a revolta deu lugar a uma força e capacidade de luta extraordinárias.

O Rui era acompanhado por um fisioterapeuta, que foi também ensinando à sua mulher alguns exercícios que ajudaram à recuperação das funções motoras necessárias à marcha, como o equilíbrio e coordenação, com o objetivo de voltar a ensiná-lo.

Atividades motoras simples como andar, sentar, estar de pé, deitar. Um recomeço! O filho repetia cada movimento investindo toda a sua dedicação neste processo de ensino e reaprendizagem. Cada pequeno sucesso não era apenas do Rui, mas de toda a família.

Passaram a reconhecer em cada dia novas realidades, novos ritmos a que se vão adaptando numa sincronia única e que os faz sentir especiais.

Aceitar o que nos acontece de negativo não é refúgio, não é conformismo, é saber viver, quando daí se aprende a construir algo.

Se o caminho se afigura ainda longo e pleno de obstáculos, saibamos que ao juntar cada pedra de obstáculo que vai surgindo, se vislumbra a possibilidade de vir a construir um castelo.


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Essência Consciencial Materializada

Amigos, já é hora de acordar!

Taveiros

O nosso corpo físico corresponde, perfeita e tacitamente, ao estado em que a nossa consciência ou o nosso consciente se encontra.

É mais do que um espelho, é a própria essência consciencial materializada. O espelho secreto(1) de cada um de nós.

Um bom observador poderá vê-lo como um mapa preciso, onde o externo, o exterior mostra mundos internos e espirituais profundos, ou seja, mostra afinal o nosso verdadeiro interior.(2)

As nossas histórias de vida, em nossos corpos, a evidência dessas histórias.

Alquimicamente, membrana após membrana, célula após célula, alteram-nos numa atitude seqüencial, contínua e visível. Altera-se, portanto, o nosso todo, promovendo mudanças conscienciais e paradigmáticas, que criam as novas realidades (3) pelas quais passamos a transitar e a transmitir enquanto circulamos socialmente no nosso universo diário.
Do corpo à consciência, da consciência ao corpo.

Em várias ações e realizações promovemos mudanças nos nossos aspectos físicos, psíquicos e parapsíquicos, palpáveis.

Somos imensa e profundamente sensíveis a qualquer processo que estejamos vivendo, sendo que o nosso corpo físico responde na mesma intensidade como um plasma, com novas nuances, refletindo sempre o nosso estado multiexistencial e, este moldado, ininterruptamente, à nossa realidade.

Temos em nossos rostos e corpos toda a nossa passagem e toda a nossa existência profundamente marcadas. Basta mergulharmos nesta visão e permitirmos acesso ao que está aí para todos vermos bem o que realmente somos. Podemos fazer esta experiência olhando atentamente em frente a um espelho(4). A partir deste modo de conhecimento, pode-se transformar e recriar o que antes parecia ser inalterável. Um plasma ou uma grande visão de nós mesmos, e se, tivermos um pouco que seja, de consciência e lucidez sobre estes processos, poderemos efetivamente ser os governadores ou governantes da nossa existência.

Difícil... talvez!

Transitar dentro destas possibilidades coloca-nos em contacto com profundas realidades não usuais. Coloca-nos na posição de potenciais criadores... Difícil... Termos como objetivo remodelarmos a nossa imagem e sermos expectadores ativos da nossa experiência existencial. Aí está uma oportunidade de começarmos a criar realidades efetivas e aventureiras nesta proposta de expansão, extensão e evolução humana. Está na hora de ampliarmos a nossa verdadeira consciência. Está na hora de acordarmos.

É mais que hora de recebermos o conteúdo das nossas informações interiores e multiexistenciais através de um movimento direto e altamente sério focado em uma percepção ampliada, captando inclusive o local ou a onda onde pode estar sendo emitido.
Evitemos armar defesas lineares tão comuns neste ciclo planetário, defesas essas que dificultam o livre acesso ao conhecimento imediato da verdadeira realidade, ou seja, daquilo que verdadeiramente somos.

O verbo, tanto escrito como falado, é a organização dada pelo aparelho intelectual, para propiciar a sua exteriorização.

Portanto, caros amigos, façamos uso deste aparato, com inteligência e como uma ferramenta de trabalho, nunca como uma arma contra o acesso a nós mesmos.

N.R.
(1) Princípio de Hermes: o que está em cima é igual ao que está em baixo; o macrocosmo é igual ao microcosmo. O espírito precede a matéria.

(2)-Mostra o ID igual ao EGO, o ser verdadeiro sincero em palavras (verbo) atitudes e propósitos.

(3)-Dinâmica da evolução, do amadurecimento e da multiplicação e disseminação do conhecimento no meio social.

(4)-Um processo de imersão no eu interior (usado por iniciados).


 

 

A JOÃO DE ARAÚJO CORREIA

Taveiros


Num regionalismo de excelente expressão,
Tiveste pari passu dois grandes prazeres:
O lavor literário com os afazeres
Clínicos, sempre com a mesma paixão.

Preferiste os temas da tua região,
Os tropos e concisão - mas ao elegeres
A pureza do conto - sem o pretenderes,
Foste um exemplo de grande retidão.

Os teus contos têm todas as condições,
Para resistirem à ação corrosiva
Do tempo, nas mais seguras tradições.

Soubeste traduzir na mais expressiva
Paisagem humana, as suas condições,
Com estilo próprio, e uma alma viva.

João Araújo Correia Cento e dez anos de um grande escritor ainda esquecido
Nascido em Canelas do Douro, Régua, em 1 de janeiro de 1899, João de Araújo Correia foi desde os Contos Bárbaros (1939), reconhecido pela crítica como um dos maiores contistas portugueses, na esteira de uma declarada herança camiliana, mas ainda hoje, apesar da vastidão da sua obra literária, sobretudo no domínio do conto, o autor de Montes Pintados talvez continue a merecer uma injustificada indiferença dos leitores. E, mesmo no ano em que passa os cento e dez anos do seu nascimento, tal efeméride, que deveria ser pretexto para avivar a memória e a importância da obra de João de Araújo Correia, não teve o reconhecimento público que se impunha.

No entanto, justifica-se sempre reabilitar perante o público leitor, que se mostra alheado de uma verdadeira perspectiva crítica que o faça entender e ler com outros olhos certos autores que pelos anos fora, sem se saber as razões disso, continuam a ser mal-quistos ou esquecidos, enquanto outros autores, tantas vezes sem a grandeza literária de João de Araújo Correia, recebem os louros e prebendas nem sempre de todo justificadas. E, tendo sido tão vasta a obra literária do autor de Contos Durienses como longa e vivida foi a sua própria vida em mais de oitenta anos bem contados como escritor e médico (e, de passagem, assinale-se que foi sepultado em Canelas do Douro em 1 de Janeiro de 1986, quando completava nesse dia 87 anos de idade), nem por isso a sua criação literária, repartida pela crônica, novela, conto, temas linguísticos, notas camilianas e colaboração regular em jornais e revistas, tem sido alvo de atenção e de estudo, com as exceções que ainda hoje constituem alguns ensaios mais profundos ou biográficos de Amorim de Carvalho, Cruz Malpique, Guedes de Amorim, João Pedro de Andrade.

Enfileirando, pois, nessa galeria de "escritores do silêncio", o autor de Folhas de Xisto foi desde sempre considerado como um dos escritores mais puros e classicistas na arte de escrever e de contar. Narrador de excepcional virtuosismo literário, João de Araújo Correia modela em pequenos pedaços de prosa as pessoas, os lugares e as coisas à sua imagem e semelhança. Homem que sempre se manteve ligado ao seu povo duriense, existem na sua obra páginas e páginas de excelente prosa, barroca por vezes, mas por onde perpassa de modo fulgurante laivos de profundo humanismo, porque as suas histórias, folhas caídas de uma árvore que não envelhecera, mantêm essa inconfundível característica de vida vivida em todos os planos: de ambiência pequeno-burguesa, retratando as gentes de uma região que conheceu palmo a palmo nos alargados anos da sua experiência, dela soube desvendar as raízes mais fundas e os seus contos e crônicas falam irremediavelmente do que se passa nos meios de província, mas sem evidenciar em tudo o que narra uma visão provinciana. Na verdade, poucos escritores existem na nossa atual literatura que, com tão largo fôlego estilístico e excepcional poder de criação, tenham construído com uma fidelidade quase obsessiva a obra que João de Araújo Correia nos deixou em mais de trinta títulos de bibliografia ativa.

Longe das especulações sem sentido de que certos autores apenas exploram esse mundo rural e de província numa perspectiva etnográfica ou regionalista, a sua obra fala e impõe-se por si mesma na dimensão e força de ser um "bloco" literário há muito reconhecido, para lá de se querer rotulá-la como neo-realista, regionalista ou documentalista. Mas qualquer título serve para definir a obra de João de Araújo Correia e deve ter-se em conta a importância de livros como Contos Durienses ou Folhas de Xisto, sobretudo este último em que, sem dúvida, se demonstra a capacidade de narrar de um escritor que sabe chegar à cidade sem abandonar a terra de origem. E assim a Régua, como toda a região duriense, lhe ficou devendo ter sabido, com engenho e arte à boa maneira classicizante portuguesa, glorificar numa prosa forte e exemplar toda a vida pacata e monótona de uma região fustigada pelas próprias condições naturais, num retrato que nos deu há mais de quarenta anos e por isso poder dizer: «Parece-me que foi sobre folhas de xisto, lâminas de alvenaria da minha região, que escrevi estes contos».

Por isso, ler os livros de João de Araújo Correia é, na verdade, sentir a pulsação vibrátil de um povo que faz do seu dia a dia, dos instantes mais desocupados ou preocupados, a "canção da terra" que a terra ensinou a cantar. Médico de província, homem culto e muito ligado às suas gentes, o autor de Contos Bárbaros soube, como poucos escritores, erguer, em forma de homenagem, o que a própria vida lhe consentiu pudesse realizar. Prosador exemplar e grande contista, no ano em que passa cento e dez anos do seu nascimento e praticamente quase não comemorado, João de Araújo Correia bem merece que se evoque a sua memória e se enalteça a grandeza de escritor, e assim dar razão a estas palavras que Aquilino Ribeiro pôde pronunciar em 1960, numa homenagem nacional, então prestada ao hoje tão esquecido autor de Terra Ingrata. Mas é sempre tempo de se elogiar e reconhecer os nossos grandes escritores, de ontem e de hoje, e por isso repetimos que esta efeméride dos 110 anos de nascimento de João de Araújo Correia (1899-1999) poderá ser de fato um bom pretexto para enaltecer junto do público leitor o valor e a importância da sua admirável obra literária realizada em cinquenta anos de ofício e vocação de escritor e quase toda ela reeditada nas suas "Obras Completas" pela Editorial Estampa.

 

 

Um mundo de vícios


Análise histórica dos aspectos éticos, legais e religiosos do comportamento dos drogados, na sociedade atual”. FPR

*Taveiros

Vício, dicotomia entre prazer e dependência. Esta palavra está intimamente relacionada com a individualidade, a ética e a moral e tem vindo a ser interpretada ao longo da história, com nuances próprias das sociedades que vamos construindo. Uma vez relacionada com interpretações religiosas, assume o seu teor negativo, reprimível e proibido.

Tal como tudo o que é proibido, ganha uma dimensão protecionista de comportamentos repetitivos, desafiadores da moral e da ordem.

A construção histórica deste conceito orienta-nos para a idéia indissociável da degradação do ser humano, morte, destruição.

Enumeramos facilmente os vícios rotulados, como o vício do jogo, do álcool, do cigarro, das demais drogas, do sexo, da internet, das compras, do trabalho.

Pecados mortais, portanto.

Algumas teorias sugerem o sentimento do vazio, como motivo para procurar no vício a compensação de algo.

Conheci uma jovem de 20 anos de idade. Muito bonita, educada, socialmente aceita, por pertencer a um estrato social privilegiado da sociedade. Estava noiva de alguém que, certamente, lhe iria proporcionar uma vida muito boa. Invejada pelas amigas que dariam tudo para estarem no “seu lugar”.

Dizia que se sentia pressionada e começou a procurar no mundo das drogas o seu lugar. Encontrou momentos de prazer, porque de escape e acreditou que, talvez, anestesiada poderia continuar a viver. Esse prazer momentâneo deu lugar à dor. Dor física, porque dependia das doses diárias de droga para se sentir bem. Dor psicológica quando acordava para a realidade. Perdeu a única coisa que poderia tê-la salvo: o respeito por si própria. Roubou, fugiu, agrediu de todas as formas quem mais amava.

Quando faleceu, devido a uma overdose, os familiares perguntavam-se: por quê?
Por que é que uma bela jovem, com um futuro tão promissor, tão admirada por quem com ela privava, poderia ter escolhido um caminho tão doloroso, de autodestruição?
Ouvimos diariamente histórias de vidas perdidas, outras de sucesso, de quem conseguiu vencer o vício.

O momento de “anestesia” tal como descrevia, acontece com muitos de nós.
Vivemos num mundo quase “autista”, pela indiferença com que olhamos uns para os outros. É este um vício difícil de ser assumido e aceite.

Quando falamos de “viciados” em recuperação, enumeramos uma série de passos até à reabilitação, sendo que o primeiro é o assumir que se é viciado.

Tentamos agir de acordo com todas as regras e ética que nos é imposta pela sociedade. Aceitamos o que nos é apresentado, numa atitude conformista e aparentemente cômoda. Perdemos o nosso senso crítico, a coragem para contrariar o que reconhecemos como errado, perdemos a nossa individualidade quando nos deixamos arrastar pelo senso comum. O vício de não saber viver. Vício de viver em solidão no meio da multidão.

*Advogado, empresário, escritor, poeta, artista plástico.

FARC. 40 ANOS

Ernesto Caruso, 27/02/2009

Acorrentando, explodindo, fuzilando.
Desafeto não tá no programa marxista,
Pensamento diferente, libertário, independente
Tem que morrer, sofrer ou se valer,
Trocar por gente da guerrilha ou grana.

FARC. 40 ANOS

Exemplo de lição mal feita
Pelos governos colombianos.

Che não é ternura;
Não é exemplo, não tem nada de bom,
Ele e Fidel mataram a democracia no paredon.
Fuzilaram muita gente,
Oponente, descontente.
Cuba não tem oposição.
Jornal deles é o Granma,
Oficial, ditador.

Fugitivo de balsa, bóia, pugilista.

Heroi das FARC. É Fidel

Aqui é homenagem do Lula, Dilma.
Acredita quem crê em papai Noel.
Fazem festa, imagem, plástica e a TV filma.
Fiéis a terrorista, Battisti, Batista.

Nas nações vizinhas das FARC,
Tentaram, não fizeram nada.
Também mataram,
Roubaram, explodiram e se ferraram.
Na luta, frouxos, se entregaram.

Dedo duro houve; se borraram.
Fugiram da mata, da serra, se venderam.
Dinheiro no bolso e vinho na mesa.
Gravata, paletó, cobram sem dó.
Ideologia do sifrão, dão uma de bão.

Lá, sim, a luta continua,
Errada, carnificina,
Aliada da pregação bolivariana.

Aqui vasilina, camaleão e propina.
Mensalão, cuecão, gavetão
Cuidado brasileiro, gente do povo,
2010 não quer Lula de novo,
Nem PT e Dilma.

Ernesto Caruso

egcaruso@gmail.com


 

Miguel Torga, Deus e o Natal


Taveiros


Miguel Torga teve uma formação religiosa desde a infância e dela temos conhecimento através da leitura da sua obra.

No Diário XVI, escreve em 1 de setembro de 1992:

“Criei-me a pedir a Deus no seio da família que nos livrasse dos maus vizinhos à porta, e nunca deixei de acudir aos que fui tendo pela vida fora quando os vi necessitados dos meus préstimos.”


Numa outra citação do mesmo volume do Diário, revela hábitos da sua infância e refere uma peça preciosa que herdou da Mãe, “um livro” (a Bíblia) que era lido ao serão:

Coimbra, 14 de Setembro de 1992 – Saudosos tempos em que minha Mãe acendia uma vela ao Santíssimo pelo êxito dos meus exames e eu, sem de todo acreditar na intercessão divina, sentia, mesmo assim, supersticiosamente, as costas quentes diante dos mestres. (…)

«Nos já longínquos tempos da meninice, (…) à noite, (…) minha Mãe, à luz da candeia, lia incansavelmente um livro que depois herdei, e foi a maior fortuna que me podia legar. Nesse surrado voluminho, que comecei a soletrar também e acabei por devorar, havia histórias estranhas. (…)

Num desses relatos espantosos, um general mandava parar o sol para que os seus soldados pudessem ganhar uma guerra. O homem chamava-se Josué, e o seu nome passou a fazer parte da lista dos meus heróis.”

Como vimos, sua formação religiosa começou na infância, no seio da família, mas também se processou na Igreja e no Seminário de Lamego, para onde foi já com o quarto ano primário feito.

Sem vocação, desistiu e embarcou para o Brasil aos 13 anos, carregando muitos sacos de café nas costas em fazenda de Minas Gerais, regressando cinco anos depois. Acabou por se formar em Medicina na Universidade de Coimbra.

Pelos textos anteriores, poderíamos ser levados a pensar que a relação poética de Torga com Deus é pacífica e de bom entendimento, contudo não é assim. Em diversos poemas manifesta a sua rebeldia, irreverência, a sua descrença, mas noutros também reconhece a existência de Deus, ainda que prefira seguir o seu percurso isolado, como aliás fez na atividade de escritor, preferindo cantar as virtudes dos homens.

O poema “Cântico de Humanidade” da obra Nihil Sibi, cuja 1ª edição é de 1948, revela-nos a preocupação torguiana de engrandecer o Homem em relação à divindade.

“Hinos aos deuses, não.
Os homens é que merecem
Que se lhes cante a virtude. (...)
Apenas se os deuses querem
Ser homens, nós os cantemos. (…)
Nós também lhes demonstremos
Que são mortais e de barro.”

A propósito da valorização dos homens, recordemos uma anotação do Diário, em que Torga fala de uma noite de Consoada e alude a duas passagens dos Evangelhos que sempre o perturbaram:

“S. Martinho de Anta, 24 de Dezembro de 1968 — As rabanadas comidas, a família recolhida, a árvore de Natal apagada, e eu aqui à lareira, debruçado sobre as brasas da murra sacramental, a passar mais uma vez as velhas contas do meu rosário de perplexidades. Como é que o Pai mandou o Filho tão tarde salvar o mundo? Quando já tantos milhões de homens se tinham perdido e a estratificação de alguns pecados mortais era irremediável? Mistérios divinos (…)? Há duas passagens nos Evangelhos que sempre me perturbaram. Numa, Jesus ensina:

«Sede perfeitos como também vosso Pai celeste é perfeito». Na outra, mais preciso ainda, alude ao Salmo que diz: «Sois deuses».”

No poema “Aviso” do Diário VI, datado de 5 de Dezembro de 1952, o sujeito poético previne o próprio Deus da sua atitude de rebeldia, se não for satisfeita a sua condição:

“Um Deus que me queira, um dia,
Depois desta penitência
De viver,
Se me não der a inocência
Que perdi,
Terá o desgosto de ver
Que de novo lhe fugi.”

Em seguida, vamos ver um poema publicado na obra Câmara Ardente (1962), que é dos mais emblemáticos da sua relação de conflito com Deus. Neste texto, intitulado “Desfecho”, ainda que sempre tenha negado a Sua existência, acaba por reconhecer a “divina presença” a seu lado:

“Não tenho mais palavras.
Gastei-as a negar-te…
(Só a negar-te eu pude combater
O terror de te ver
Em toda a parte).
Fosse qual fosse o chão da caminhada,
Era certa a meu lado
A divina presença impertinente
Do teu vulto calado
E paciente…”

E, em seguida, exprime a luta contra quem perturba a sua solidão e acaba por concluir de forma sugestiva, mostrando que afinal Deus existe e é tão obstinado quanto o próprio sujeito poético, pois caminham ambos a
Par na teimosia:

“E lutei, como luta um solitário
Quando alguém lhe perturba a solidão
Fechado num ouriço de recusas,
Soltei a voz, arma que tu não usas,
Sempre silencioso na agressão.
Mas o tempo moeu na sua mó
O joio amargo do que te dizia…
Agora somos dois obstinados,
Mudos e malogrados,
Que apenas vão a par na teimosia.”

Em 1963, numa página do Diário X, revela uma atitude semelhante a esta, de tréguas com Deus, em que cada um existe sem interferir com o outro. Em apenas duas linhas revela claramente a sua dúvida:

“ Tréguas com Deus. Mas ainda não consegui saber se fui eu que deixei de lutar com ele, se foi ele que deixou
de lutar comigo.”
Em 1984, aos 77 anos, faz um registro no Diário XIV, também de duas linhas, no qual patenteia bem a sua relação com Deus, evidenciando a obsessão de negar a sua existência e, simultaneamente, a impossibilidade de
o esquecer:

“Coimbra, 25 de Dezembro de 1984 – Deus. O pesadelo dos meus dias. Tive sempre a coragem de o negar, mas nunca a força de o esquecer.”

Foi essa “força” de querer esquecer Deus, de o afastar da sua vida que levou a que não tivesse um funeral religioso. A sua descrença já tinha sido expressa, uma vez mais, em 1979, a propósito da Páscoa:

“S. Martinho de Anta, 15 de Abril de 1979 – Ser incréu custa muito! É dia de Páscoa. O gosto que eu teria de beijar também o Senhor, se acreditasse! Assim, olho a fé dos outros em aleluia, e fico nesta tristeza agnóstica que faz da vida uma agônica aventura sem esperança de ressurreição.”

E se em relação à Páscoa sucede o que vimos, em relação ao Natal a situação não é muito diferente.Em 1953 Torga considera que o Natal, a natividade, se dá quotidianamente na Natureza, mas os homens não reparam e preferem festejar o que chama “absurdos lógicos, construídos nas Judeias da imaginação”.

E, em 25 de Dezembro de 1983, no poema “Natal” insiste na questão da crença:

“Ninguém o viu nascer.
Mas todos acreditam
Que nasceu.
É um menino e é Deus. (...)
Agora, nos cueiros da imaginação,
Sorri apenas
A quem vem,
Enquanto a Mãe,
Também
Imaginada,
Com ele ao colo,
Se enternece
E enternece
Os corações,
Cúmplice do milagre, que acontece
Todos os anos e em todas as nações.”

Contudo, se em Deus não acredita, relativamente ao Menino Deus já não sucede o mesmo e vejamos porquê:

“S. Martinho de Anta, 24 de Dezembro de 1966.

NATAL
Leio o teu nome
Na página da noite:
Menino Deus...
E fico a meditar
No milagre dobrado
De ser Deus e menino.
Em Deus não acredito.
Mas de ti como posso duvidar?
Todos os dias nascem
Meninos pobres em currais de gado.

Crianças que são ânsias alargadas
De horizontes pequenos.
Humanas alvoradas...
A divindade é o menos.”
E, estabelecendo o contraste entre o Menino e a sua pessoa, escreve em 24 de Dezembro de 1988, no Diário XV:
“Coimbra, 24 de Dezembro de 1988.

NATAL
Menino Jesus feliz
Que não cresceste
Nestes oitenta anos!

Que não tiveste
Os desenganos
Que eu tive
De ser homem,
E continuas criança
Nos meus versos
De saudade
Do presépio
Em que também nasci,
E onde me vejo sempre igual a ti.”

E sobre a Virgem Maria, escreve no poema “Natal”, em 24 de Dezembro de 1973:
“E a lamentar que a mãe, Virgem Maria,
Humana criatura,
Continue a ter filhos no futuro
Condenados à mesma desventura.”
Em 24 de Dezembro de 1990, escreve o poema “Ultimo Natal”, que oferece ao Menino Jesus:
“Menino Jesus, que nasces
Quando eu morro,
E trazes a paz
Que não levo,
O poema que te devo
Desde que te aninhei
No entendimento,
E nunca te paguei
A contento
Da devoção,
Mal entoado,
Aqui te fica mais uma vez
Aos pés,
Como um tição
Apagado,
Sem calor que os aqueça.
Com ele me desobrigo e desengano:

És divino, e eu sou humano,
Não há poesia em mim que te mereça.”
Torga passou muitas vicissitudes para seguir os seus ideais, ele que foi um defensor do Homem e dos direitos humanos, um escritor comprometido com a defesa de valores humanistas, de solidariedade entre os homens, de preservação da liberdade, da identidade, da autenticidade, de fidelidade às origens.

E, 9 de Dezembro de 1993, em balanço final de uma vida, no penúltimo registro do Diário XVI, sintetiza os valores pelos quais lutou:
“De alguma coisa me hão-de valer as cicatrizes de defensor incansável do amor, da verdade e da liberdade, a tríade bendita que justifica a passagem de qualquer homem por este mundo.”

São valores como estes que todo o homem deve defender porque, quando há amor, há solidariedade, altruísmo, verdade, liberdade, respeito pelo outro, entreajuda, enfim, todo um conjunto de valores que qualquer homem deve almejar atingir, seja ou não católico e estejamos ou não na altura do Natal.


Biografia de Miguel Torga

nascido Adolfo Correia Rocha
Filho de Francisco Correia Rocha e Maria da Conceição Barros, gente humilde do campo do Concelho de Sabrosa (Alto Douro). Em 1917, aos dez anos, vai para uma casa apalaçada do Porto, habitada por parentes da família. Fardado de branco servia de porteiro, moço de recados, regava o jardim, limpava o pó e polia os metais da escadaria nobre, atendia campainhas. Foi despedido um ano depois, devido à constante insubmissão. Em 1918 vai para o Seminário de Lamego, onde viveu um dos anos cruciais da sua vida, tendo melhorado os conhecimentos de português, da geografia, da história, aprendido o latim e ganhado familiaridade com os textos sagrados. No fim das férias comunicou ao pai que não seria padre.

Emigrou para o Brasil em 1919, com doze anos, para trabalhar na fazenda do tio, na cultura do café. O tio apercebe-se da sua inteligência e patrocina-lhe os estudos liceais, em Leopoldina. Distingue-se como um aluno dotado. Em 1925, na convicção de que ele havia de vir a ser doutor em Coimbra, o tio propôs-se pagar-lhe os estudos como recompensa dos cinco anos de serviço o que levou ao seu regresso a Portugal.
Em 1928 entra para a Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra e publica o seu primeiro livro, "Ansiedade", de poesia. Em 1929, com 22 anos, deu início à colaboração na revista Presença, folha de arte e crítica, com o poema “Altitudes”. A revista, fundada em 1927 pelo grupo literário avançado de José Régio, Gaspar Simões e Branquinho da Fonseca, era bandeira literária do grupo modernista e era também, bandeira libertária da Revolução Modernista. Em 1930 rompe definitivamente com a revista Presença, por "razões de discordância estética e razões de liberdade humana".
É bastante crítico da praxe e tradições acadêmicas, e chama depreciativamente "farda" à capa e batina, mas ama a cidade de Coimbra, onde viria também a exercer a sua profissão de médico a partir de 1939 e onde escreve a maioria dos seus livros. Em 1933 concluiu a formatura em Medicina, com apoio financeiro do tio do Brasil. Exerceu no início nas agrestes terras transmontanas, de onde era originário e que são pano de fundo da maior parte da sua obra.

Casa com Andrée Crabbé em 1940, estudante de nacionalidade belga aluna de Estudos Portugueses, ministrados por Vitorino Nemésio em Bruxelas que viera a Portugal para frequentar um curso de férias na Universidade de Coimbra. A sua filha, Clara Rocha, nasce a 3 de Outubro de 1955.

A origem do pseudonimo
Em 1934, aos 27 anos, Adolfo Correia Rocha autodefine-se pelo pseudónimo que criou, "Miguel" e "Torga". Miguel, em homenagem a dois grandes vultos da cultura ibérica: Miguel de Cervantes e Miguel de Unamuno. Já Torga é uma planta brava da montanha, que deita raízes fortes sob a aridez da rocha, de flor branca, arroxeada ou cor de vinho, com um caule incrivelmente rectilíneo. A sua campa rasa em São Martinho de Anta tem uma torga plantada a seu lado, em honra ao poeta.

A obra de Torga
A obra de Torga tem um carácter humanista: criado nas serras trasmontanas, entre os trabalhadores rurais, assistindo aos ciclos de perpetuação da Natureza, Torga aprendeu o valor de cada homem, como criador e propagador da vida e da Natureza: sem o homem, não haveria searas, não haveria vinhas, não haveria toda a paisagem duriense, feita de socalcos nas rochas, obra magnífica de muitas gerações de trabalho humano. Ora, estes homens e as suas obras levam Torga a revoltar-se contra a Divindade Transcendente a favor da imanência: para ele, só a humanidade seria digna de louvores, de cânticos, de admiração: (hinos aos deuses, não/os homens é que merecem/que se lhes cante a virtude/bichos que cavam no chão/actuam como parecem/sem um disfarce que os mude).

Para Miguel Torga, nenhum deus é digno de louvor: na sua condição omnisciente é-lhe muito fácil ser virtuoso, e enquanto ser sobrenatural não se lhe opõe qualquer dificuldade para fazer a Natureza - mas o homem, limitado, finito, condicionado, exposto à doença, à miséria, à desgraça e à morte é também capaz de criar, e é sobretudo capaz de se impor à Natureza, como os trabalhadores rurais trasmontanos impuseram a sua vontade de semear a terra aos penedos bravios das serras. E é essa capacidade de moldar o meio, de verdadeiramente fazer a Natureza mau grado todas as limitações de bicho, de ser humano mortal que, ao ver de Torga fazem do homem único ser digno de adoração.

Considerado por muitos como um avarento de trato difícil e carácter duro, foge dos meios das elites pedantes, mas dá consultas médicas gratuitas a gente pobre e é referido pelo povo como um homem de bom coração e de boa conversa.



Dois sonetos - duas jóias - da literatura brasileira do final do século XIX,
quando se conhecia e se amava a nossa língua!
De “O Brasil que os poetas cantam” Taveiros.


G U A N A B A R A
Osvaldo Orico

Depois de olhar os mundos que criara,
Trepidantes de força e de esplendor,
Deus, naquela manhã pródiga e rara,
Deixando de ser Deus, Fez-se pintor.

Quis dar à Natureza outro primor
E, com o mesmo pincel que o Éden pintara,
Gravou no mapa-mundi o traço e a cor
Dos montes e dos céus da Guanabara.

É por isso, ó viajante deslumbrado,
Que vês de longe, sobre o Corcovado,
Unido o Criador à obra tamanha;

E olhas, resplandecente de beleza,
Cristo desabrochar da Natureza
Como um lírio de luz sobre a montanha!...


A B Í B L I A VE R D E
Álvaro Bomilcar

Vive feliz e morre como um santo.
O campônio, o caipira, o sertanejo,
Que, à distância de um pobre lugarejo,
Habita, em paz, bucólico recanto.

Pois quando a noite estende o negro manto,
Dorme sem ambição e sem desejo...
E quando o sol envia louro beijo,
De manhã, se levanta sem quebranto.

Feliz porque nasceu de pais obscuros,
E morrerá na rústica pureza,
Na boa fé dos sentimentos puros!

Sem ciência, nem livros em que estude,
Só saber ler, conforme a Natureza,
A Bíblia Verde da existência rude!

“De O Brasil que os poetas cantam”


DEVERES DO PROFESSOR

Enviado por *Milton Larentis

1. O professor não abusará da inexperiência, da falta de conhecimento ou da imaturidade dos alunos, com o objetivo de cooptá-los para esta ou aquela corrente político-ideológica, nem adotará livros didáticos que tenham esse objetivo.

2. O professor não favorecerá nem prejudicará os alunos em razão de suas convicções políticas, ideológicas, religiosas, ou da falta delas.

3. O professor não fará propaganda político-partidária em sala de aula nem incitará seus alunos a participar de manifestações, atos públicos e passeatas.

4. Ao tratar de questões políticas, sócio-culturais e econômicas, o professor apresentará aos alunos, de forma justa isto é, com a mesma profundidade e seriedade, as principais versões, teorias, opiniões e perspectivas concorrentes a respeito.

5. O professor não criará em sala de aula uma atmosfera de intimidação, ostensiva ou sutil, capaz de desencorajar a manifestação de pontos de vista discordantes dos seus, nem permitirá que tal atmosfera seja criada pela ação de alunos sectários ou de outros professores.

*Filosofo e professor do terceiro grau

 

A conspiração

Taveiros

Apesar de tantas e atuais opções de diversão e lazer, televisão a cabo, Internet, etc., a leitura ainda é uma boa opção! Ler faz bem à alma, dá asas à imaginação, e quando nos mostra o outro lado de instituições e acontecimentos reais, a obra suga-nos e arrasta-nos através de um mundo enigmático. Acontece assim com os livros de Dan Brown.

Dan Brown é um escritor norte–americano. Nasceu no dia 22 de junho de 1964, em Exeter, uma cidade do Estado de New Hampshire. Após a sua graduação na Phillips Academy, no ano de 1982, Dan Brown entrou para o Amherst College e no seu primeiro ano teve que estudar História da Arte na Europa na Universidade de Sevilha onde se debruçou nos trabalhos de Leonardo Da Vinci, que mais tarde teriam um papel importante numa das suas obras. Dan Brown é filho de um eminente matemático, Richard G. Brown e tinha como hobby a música sacra, e de Constance, também formada em música.

Dan Brown cresceu literalmente na escola rodeado de livros de filosofia, história e religião, o que contribuiu significativamente para elaboração das suas obras. Foi professor de Inglês durante alguns anos até conseguir realizar o seu sonho: ser escritor. As suas obras são: O Código da Vinci, Anjos e Demônios, A Conspiração e Fortaleza Digital. Atualmente é um dos escritores mais famosos e conceituados do mundo, tendo os seus livros na lista dos mais vendidos do New York Times. Tal como o escritor brasileiro Paulo Coelho, também Don Brown se inspira no escritor Jean Pierre Santiago, considerado um alquimista moderno, pois a sua visão de transformação vai além das raízes da alquimia primitiva.

Em pleno gelo do Ártico, a NASA descobre um estranho objeto enterrado nas profundezas da Plataforma de Milne. Uma descoberta arrebatadora quer para a agência espacial quer para a futura eleição presidencial, uma vez que o Senador Sexton acreditava afincadamente que a NASA era uma fonte de despesas inútil, o que decorria dos seus fracassos recentes.

Para constatar a veracidade da descoberta são chamados civis, entre eles a filha do Senador, Rachel Sexton, e um erudito e carismático oceanógrafo, Michael Toland. Todos assistem entusiasmados à extração do meteorito, que continha fósseis, contudo, o poço de extração apresenta alguns mistérios: organismos bioflorescentes, indicando um embuste científico. A bomba rebenta e a autenticidade da descoberta é posta em dúvida.

Então, eis que acontece o imprevisível: a equipe de civis cai numa emboscada operada por uma equipe de assassinos.

A luta pela sobrevivência passa a ser o ponto fulcral naquela paisagem inóspita e letal. São vítimas de uma perseguição sem tréguas ao longo do Ártico, resguardando-se num submarino nuclear e indo parar num barco na costa de New Jersey, tudo porque são detentores da verdade mais surpreendente já alguma vez vista. Naquele dia, as pessoas em quem mais confiavam encontravam-se, só e simplesmente, do lado oposto, querendo arrastar o mundo para a mentira. Ninguém, em lugar nenhum, se encontra em segurança. A ambição pelo poder faz com que se esqueça tudo e todos, não olhando a meios para se atingir os fins.

Contudo, a verdade surge e descobre-se que se trata da mais espantosa e audaz conspiração alguma vez vista, levando o mundo para um turbilhão de controvérsia.

Um livro verdadeiramente magnífico. Prende o leitor do início ao fim, não se conseguindo parar de ler. Ao virar de cada página espera-nos uma fabulosa surpresa, recheada de mistério e de magia. Uma obra que apresenta uma escrita de fácil compreensão e acessibilidade; uma história onde existe um turbilhão de emoções, medo, pânico total, surpresa, entusiasmo, amor... mas também muita imaginação envolvendo organizações e tecnologias reais. Uma história comovente e enigmática, uma vez que a súbita mudança de acontecimentos evidencia a mão implacável do destino e a luta incansável pela sobrevivência quando se vê a morte no passo seguinte. Como afirma o autor, “A vida está cheia de decisões difíceis (...) e os vencedores são aqueles que as tomam”, e ainda: “Tentam o impossível, aceitam o fracasso, enquanto nós criticamos e recuamos...” – lições de vida que evidenciam que, quando se encontra um obstáculo, deve-se sempre tentar ultrapassá-lo de cabeça erguida. Lendo o livro tem-se a capacidade de imaginar o cenário e sentir as emoções que percorrem e invadem as personagens. Uma incrível capacidade de suspense que suga o leitor para a história e onde todas as peças do puzzle se encaixam na perfeição.

Quando cheguei à última página, a minha vontade era ir, novamente para a primeira...

O importante papel do tempo

Taveiros

Ao tempo da morte de Luciano Pavarotti eu quis escrever um texto sobre o histórico tenor, mas a verdade é que me vi limitado pela pressão que surgiu no ambiente operístico e cultural, no sentido de que se estava perante o maior tenor de sempre.

Apesar de gostar muito da sua voz, não era essa a minha opinião, desde que há perto de três décadas me comecei a interessar pelo mundo da ópera.

Assim, deixei fluir o tempo, de modo a que se conseguisse a distância essencial a uma apreciação desapaixonada do problema. Até que há umas semanas me foi dado saber que uma sondagem realizada pela BBC Music Magazine, junto de gente internacionalmente conhecedora do mundo da ópera, elegeu Plácido Domingo como o melhor tenor de todos os tempos.

Naturalmente que uma tal decisão não é absoluta, mas tem valia própria de dois fatores, que são a série dos vinte melhores tenores de sempre, na opinião dos sondados, e o fato de se tratar de um conjunto de eleitores especializados no domínio da ópera.

Mas foi com espanto que tomei conhecimento de que José Carreras não veio a figurar naquela lista dos vinte melhores tenores de sempre. Todavia, na opinião do leque vasto de especialistas sondados, está bem claro. Em contrapartida, surgiu em décimo terceiro lugar, Juan Diego Flores, hoje com trinta e cinco anos de idade, e por muitos apontado como o sucessor de Plácido Domingo.

Ora, como se pode estabelecer um critério aceitável para se proceder a uma classificação deste tipo? Bem, não há, está claro, um critério único, mas há os que são mais lógicos que outros. E três fatores essenciais a ter em conta são a extensão do repertório cantado, a do editado e a globalidade do papel desempenhado no domínio em apreço.

Quando se lança mão deste lógico e natural critério, a resposta expectável é a que surgiu agora pela voz da BBC Music Magazine:

Plácido Domingo foi, até hoje, o maior tenor de sempre. No fundo, o critério que justifica que José Carreras não tenha surgido naquela série dos vinte melhores tenores de todos os tempos.

Nas intervenções de Luciano Pavarotti, o grande agrado que o público sempre encontrou foi o derivado do timbre da sua voz. Uma voz napolitana, que se encontra por igual, em Máro Del Mônaco. Gravações existem, como se dá, por exemplo, com Mefistófeles, de Arrigo Boito, onde se torna difícil encontrar diferenças fortes entre os dois napolitanos, mas, enfim, o tempo permitiu algum esclarecimento, ao menos à luz do meu pensamento sobre o tema.

Numa simples tela

Taveiros

Era uma tela em branco até hoje, quando a decidi pintar. Queria pintar um mundo colorido, repleto de mil e uma cores, com pessoas felizes, uma Natureza edílica e acolhedora, um sol resplandecente salientando a beleza natural de um mundo perfeito. Água jorrando, límpida e abundante pelas encostas verdejantes de uma montanha. Contudo, as minhas mãos teimavam em pintar um mundo a preto e branco. Um mundo escuro, sem cor, sem vida... triste. Nada do que tinha planejado estava pintado, tudo tinha saído exatamente o contrário. Senti-me triste, desiludido comigo próprio...

Fiquei triste e já me considerava derrotado, mas, passada uma hora de reflexão em que todas as memórias passam alternadamente como um filme pela cabeça, ganhei forças e retomei o pincel. Em todas as minhas recordações encontrei algo de comum que me ajudou a superar os momentos mais dramáticos. Não sabendo como representar esse sentimento, optei por escrever o seu nome.
Comecei a delineá-lo em preto. Mas a palavra parecia ter vontade própria, pois à medida que a ia pintando ela aparecia representada em mil cores. Cores que transmitiam união, alegria, companheirismo, cumplicidade, força...

A palavra “Amizade” vincada naquela tela deixava transparecer tudo o que esse sentimento significa. Se para uns bastam palavras, para outros as palavras são pouco.

Pequenos gestos..., simples músicas...,banais palavras..., escassos segundos... podem marcar para sempre. Marcar uma pessoa para o resto da vida, provocando lágrimas e choros intensos. Como afirmou Vinícius de Moraes: “Eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos! A alguns deles não procuro, basta saber que eles existem. Esta mera condição me encoraja a seguir em frente pela vida... mas é delicioso que eles saibam e sintam que eu os adoro, embora não o declare e os procure sempre...”.

Sei que os verdadeiros amigos não são aqueles que estão sempre conosco, mas sim aqueles que vêm quando o resto do mundo se foi embora, aqueles que não só partilham alegrias, mas também as tristezas, os momentos bons e maus...

Como é difícil definir a amizade! Talvez porque não tem definição, é apenas sentida. As ações e as palavras existentes em todo o mundo resumem-se a pó quando a amizade é intensa e vivida em toda a sua plenitude e pureza.

Agora sinto-me feliz. Na tela deixei transparecer o sentimento mais lindo, sem sombras de hipocrisia. Ele só e o seu significado. A palavra fala por si.

A tela está simples. Nada como a simplicidade para realçar as coisas escondidas da pureza. Só a palavra marca uma forte presença. As idéias estão lá patentes, fica ao critério de cada um, dependendo da amizade que o rodeia, tirar o seu significado.

Quando terminei, uma lágrima rolou por minha face, não pela tristeza que sentia, mas sim pela força da AMIZADE...

 


Curiosidades da língua portuguesa, como
é rica!

Enviado por Roberto Carrazedo

Este texto é todo ele sem a letra A

É possível sim.
Sem nenhum tropeço posso escrever o que quiser sem ele, pois rico é o português e fértil em recursos diversos, tudo isso permitindo mesmo o que de início, e somente de início, se pode ter como impossível. Pode-se dizer tudo, com sentido completo, mesmo sendo como se isto fosse mero ovo de Colombo.

Desde que se tente sem se pôr inibido pode muito bem o leitor empreender este belo exercício, dentro do nosso fecundo e peregrino dizer português, puríssimo instrumento dos nossos melhores escritores e mestres do verso, instrumento que nos legou monumentos dignos de eterno e honroso reconhecimento.

Trechos difíceis se resolvem com sinônimos. Observe-se bem: é certo que, em se querendo esgrime-se sem limites com este divertimento instrutivo. Brinque-se mesmo com tudo. É um belíssimo esporte do intelecto, pois escrevemos o que quisermos sem o 'E' ou sem o 'I' ou sem o 'O' e, conforme meu exclusivo desejo, escolherei outro, discorrendo livremente, por exemplo sem o 'P', 'R' ou 'F', o que quiser escolher, podemos, em corrente estilo, repetir um som sempre ou mesmo escrever sem verbos.

Com o concurso de termos escolhidos, isso pode ir longe, escrevendo-se todo um discurso, um conto ou um livro inteiro sobre o que o leitor melhor preferir. Porém mesmo sem o uso pernóstico dos termos difíceis, muito e muito se prossegue do mesmo modo, discorrendo sobre o objeto escolhido, sem impedimentos. Deploro sempre ver moços deste século inconscientemente esquecerem e oprimirem nosso português, hoje culto e belo, querendo substituí-lo pelo inglês. Por quê?

Cultivemos nosso polifônico e fecundo verbo, doce e melodioso, porém incisivo e forte, messe de luminosos estilos, voz de muitos povos, escrínio de belos versos e de imenso porte, ninho de cisnes e de condores.

Honremos o que é nosso, ó moços estudiosos, escritores e professores. Honremos o digníssimo modo de dizer que nos legou um povo humilde, porém viril e cheio de sentimentos estéticos, pugilo de heróis e de nobres descobridores de mundos novos.


Autor: Desconhecido.

 

Machado de Assis

Taveiros


No dia 21 de Junho de 1839, nascia numa casa humilde no morro do Livramento (atrás da Central do Brasil) nesta cidade do Rio de Janeiro, Joaquim Maria Machado de Assis, aquele que viria a ser um dos maiores poetas e escritores da nossa língua.

Estilista primoroso, psicólogo delicado, observador dotado de uma ironia indulgente e graciosa, é uma glória da literatura brasileira. Sua mãe, Leopoldina Machado, jovem portuguesa da ilha de S. Miguel, trabalhava duramente como lavadeira sempre com seu filhinho ao lado e cantando dolente: “Dorme meu filhinho/, mamãzinha logo vem/, Foi lavar sua roupinha/ na fontinha de Belém...” O pai, Francisco José de Assis, era filho de pardos, que tinham tido a sorte de serem livres. Era pintor de paredes, mas ganhava o suficiente para uma vida modesta. Sua mãe costumava levá-lo a visitar seus padrinhos que moravam num belo palacete, na quinta do Livramento no mesmo bairro, e que sempre insistiam em ver o afilhado, e creio que foi daí, na casa dos padrinhos, que o futuro escritor observou os hábitos da boa sociedade fluminense, que mais tarde descreveria com inimitável perfeição. Aos domingos, após o almoço, passeava com o pai pela Praia Formosa, que se localizava nas imediações da hoje Rodoviária Novo Rio.

Bem cedo perdeu a mãe e a irmãzinha, e o pai logo se casou de novo com Maria Inês, mulata como ele e de ótimo coração; foram morar em S. Cristóvão. Foi ela quem ensinou as primeiras letras ao menino e admirava-se de como ele aprendia tão rápido. Em seguida morreria o pai, e a madrasta, sem nenhuns recursos, empregou-se num colégio, cujas donas incumbiram o pequeno Joaquim a vender-lhes as quitandas, balas e cocadas pelas ruas do bairro.

Nas horas das aulas o menino esgueirava-se pelos corredores, e conseguia ouvir alguma coisa das explicações da mestra, e os livros que conseguia emprestados supriam-lhe as deficiências das explicações. Freqüentava muito uma padaria da Rua S. Luiz Gonzaga cuja dona era francesa e que lhe dava aulas de francês. O forneiro, também francês, dava-lhe lições suplementares.

Maria Inês era muito piedosa, e levou o enteado à Igreja da Lampadosa para que ele ficasse lá como coroinha. Vinha de barco do Campo de S. Cristóvão ao centro da Cidade, e enquanto os outros passageiros se divertiam, ele se agarrava ao livro de latim. Após as missas, depois de receber a magra espórtula, que era o seu sustento, o rapazinho corria ao Gabinete Português de Leitura, ali ao lado, onde encontrava farta Biblioteca à sua disposição.“ Vou continuar hoje a leitura dos Lusíadas!” dizia.

Foi auxiliar de tipografia e começou a escrever artigos como crítico de teatro em jornais e revistas.

Amigo do português Faustino Xavier Novais, conheceu sua irmã Carolina Augusta Xavier Novais, de quem se apaixonou e com quem casou. Viveram felizes durante muitos anos. Não tiveram filhos, e depois de prolongada doença, Carolina faleceu, e então ele escreve um dos mais belos e sentidos sonetos da nossa língua.


“Querida, ao pé do leito derradeiro
Em que descansas desta longa vida,
Aqui venho e virei, pobre querida,
Trazer-te o coração do companheiro.

Pulsa-me aquele afeto verdadeiro
Que, a despeito de toda a humana lida.
Fez nossa existência apetecida
E num recanto pôs o mundo inteiro.

Trago-te flores – rostos arrancados
Da terra que nos viu passar unidos
E ora mortos nos deixa separados.

Que eu, se tenho nos olhos mal feridos
Pensamentos de vida formulados ,
São pensamentos idos e vividos.”

Há uma velha discussão e comparação entre os admiradores destes dois expoentes da nossa língua. Eça de Queiroz e Machado de Assis. Vivemos numa cultura realmente que compara, que censura, que avalia, que conclui, sem nos darmos ao cuidado de ver. Ver sem idéias preconcebidas, sem condicionamentos. O fato é que os dois são grandes, e seriam grandes em qualquer literatura. Eu gosto dos dois, e já li toda a obra de ambos; Cada um tem o seu estilo, Eça é mais contundente, Machado mais soft, comparando-se por exemplo a Capitu do D. Casmurro, à Luisa do primo Basílio, mas ambos geniais.

A critica que Machado de Assis fez sobre o “Primo Basílio” foi uma das melhores páginas da crítica brasileira já publicadas. O próprio Eça de Queiroz respondeu-lhe de Newcastle, na Inglaterra onde era Cônsul, e mais tarde fê-lo representante no Brasil para defesa de direitos autorais.

Eça teve uma formação acadêmica muito sólida, o liceu na cidade do Porto, e a Universidade em Coimbra, além de ter vivido quase toda a vida em Inglaterra e em Paris e de ser considerado o andador de Continentes. Esteve nos Estados Unidos, Canadá, Oriente Médio etc., numa época em que para atravessar o Atlântico de navio demorava meses.

Machado de Assis, mestiço, de origem humilde, pobre e desvalido, é um exemplo do que pode conseguir a força da vontade, e é como autodidata que alcança o mais alto firmamento das nossas letras e chega à presidência da Academia Brasileira de Letras, e seu fundador.

 

Falando de Balzac

Taveiros

Confesso francamente que desejaria poder dispor agora de mais algum tempo, para “conversar” aqui demoradamente acerca da Vida e da Obra de Balzac.

É que o grande escritor francês foi e é, na verdade, um dos maiores romancistas do mundo (quando não mesmo “o maior”, como o considerou André Wurmser), e a sua vida – a mundana, a íntima e, sobretudo a amorosa – constitui, afinal, o mais extraordinário e o mais empolgante de todos os seus romances.

Parece mesmo ser sina de certos grandes escritores desempenharem na vida real, como homens, um papel bem mais romanesco e dramático do que aquele que fazem viver às personagens de ficção com que constroem e povoam as suas criações literárias.

Para compreender a obra de Balzac é necessário conhecer a sua vida.

Nascido na cidade francesa de Tours, a 20 de maio de 1779, e depois de uma infância profundamente infeliz, sem o amor da mãe (que praticamente o abandonou) e sem o calor e o aconchego de um lar (e, como interno num colégio de Oratorianos cuja disciplina espartana tanto se opunha à sua natureza sensível e fogosa), o jovem Honoré de Balzac, aos 18 anos de idade, instala-se sozinho num quarto de uma velha casa de Paris, na Rua Lesdiguières, perto da Praça da Bastilha, levando aí a vida triste, solitária e difícil, com fome e com frio, que veio depois a descrever no seu romance La Peau de Cagrin.

Entretanto, estuda Direito e, para “conciliar a teoria com a prática” vai estagiando no escritório de um advogado (que ele retratará e imortalizará mais tarde, sob o nome de Derville, em La Comédie Humaine).

Todavia, porque a mensalidade que recebe do pai é muito modesta, mal lhe permitindo sobreviver com ela, Balzac pensa em escrever qualquer coisa para publicar e conseguir obter, assim, mais algum dinheiro com que possa custear os seus gastos pessoais. E é isso, afinal, que o vai lançar no caminho da glória literária.

Os seus primeiros escritos são, porém, medíocres. Mas numa ânsia determinada de aprender e de se cultivar, Balzac estuda e lê ininterruptamente, de dia e de noite, continuando sempre, porém, a congeminar e a escrever os seus romances, as suas novelas, os seus ensaios. Tem agora 20 e poucos anos de idade e, com a “aventura” literária, irmanando-se e entrelaçando-se com ela até ao fim, vai começar também a “aventura” galante e amorosa.

Depois de conhecer na intimidade Zulma Carraud, conhece Laura de Berny, vinte e dois anos mais velha do que ele, e que, pela sua abnegada dedicação ao jovem e fogoso escritor, vai ser, como já alguém escreveu, “sua amante, sua amiga e sua mãe”. E mantém ainda, por essa altura, ligações íntimas com a Duquesa de Abrantes, viúva do General Junot.

Entretanto, ao fazer 30 anos de idade, dá-se em Balzac, até então um escritor medíocre e quase desconhecido, uma autêntica e súbita explosão de gênio: publica nesse ano, assinadas já com o seu verdadeiro nome, duas obras notáveis – Les Chouans e Physiologie du Mariage – que vão conhecer um rápido e imenso sucesso, e que marcarão, de fato, o início duma fulgurante ascensão literária.

Com efeito, é a partir daqui que, durante apenas vinte anos (até à sua morte em 18 de Agosto de 1850), Balzac, numa atividade intelectual e social verdadeiramente incrível, vai escrever cerca de 85 romances, além de inúmeros contos e novelas, de milhares de cartas e de vários ensaios filosóficos e políticos, ao mesmo tempo que colabora assiduamente em diversos jornais e revistas, e se dispersa por uma intensa vida mundana, viajando e freqüentando os salões da ”alta roda” parisiense, como o da Princesa de Bragation e o da célebre Madame Récamier.

Como um rio caudaloso, a vida de Balzac está subjacente a toda a sua obra – a que ele chamou La Comédie Humaine - marcando-a, impregnando-a, fecundando-a com a experiência excepcional de alguém que, de certo modo como nenhum outro escritor, pagou ao mundo e à vida, aos instintos, aos sonhos e ao gênio o tributo mais pesado e mais dramático que se pode conceber e pagar. Mas foi isso mesmo, afinal, que lhe permitiu pôr de pé e legar à humanidade um dos mais gigantescos, geniais e fascinantes monumentos literários de todos os tempos!


Caro Professor Flávio Ramos:

Oportuna, a homenagem que faz ao dia do poeta.
Penso, sinceramente, que dificilmente haverá em outras línguas, tantos e de tamanha envergadura como na nossa! O Brasil então é celeiro abundante de grandes e maravilhosos poetas.
Começando pelo nosso Imperador Pedro II, relembre esta jóia de soneto escrito no exílio com profunda melancolia, sem, todavia, perder a sua grandeza de caráter e sem uma palavra de queixume:

TERRAS DO BRASIL

Espavorida agita-se a criança
De noturnos fantasmas com receio,
Mas, se abrigo lhe dá materno seio,
Fecha os doridos olhos e descansa.

Perdida é para mim toda a esperança
De volver ao Brasil; de lá me veio
Um pugilo de terra; e nesta, creio,
Brando será meu sono, e sem tardança.

Qual o infante a dormir em peito amigo,
Tristes sombras varrendo da memória,
Ó doce pátria, sonharei contigo!

E entre visões de Paz, de Luz, de Glória,
Sereno, aguardarei no meu jazigo,
A justiça de Deus na voz da história.

 


ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE O MUNDO ATUAL

Enviado por Taveiros

Se pudéssemos sintetizar a população do mundo num pequeno vilarejo de 100 habitantes com as características do mundo atual, como seria? Seria assim:

Haveria 57 asiáticos; 21 europeus; 14 americanos (norte, sul e centro) e 8 africanos.
52 seriam mulheres e 48 homens; seriam 30 brancos e 70 não brancos; Trinta seriam cristãos e 70 não cristãos. Seriam 89 heterossexuais e 11 homossexuais. Seis pessoas possuiriam 59% das riquezas da vila, e todas elas seriam norte americanas. Oitenta viveriam em casas sem condições de higiene. Setenta seriam analfabetos. Cinqüenta seriam mal alimentados. Um estaria quase a morrer e outro quase a nascer. Um possuiria um computador. Um teria título ou curso superior (sim, somente um).

Considerando-se o mundo nesta perspectiva, está clara a necessidade de aceitarmos a todos de forma humana, educada e respeitosa.

Consideremos também isto: Se acordamos hoje cheios de saúde, temos mais sorte que milhões de pessoas que não a têm.

Se nunca passamos pelas amarguras da vida; pela solidão, pela agonia da tortura, pelo desespero da fome; pelo enfado de viver, somos mais felizes que 500 milhões de habitantes deste mundo. Se podemos freqüentar quaisquer espetáculos, sem ser ameaçados, presos, torturados ou mortos, temos mais sorte que 3 bilhões de pessoas do mundo. Se temos alimentação em casa, roupas, um teto e um lugar para dormir, somos mais ricos que 75% dos habitantes deste planeta; Se temos algum dinheiro no banco, na carteira, e uns trocados no bolso, estamos no meio dos 8% das pessoas mais bem aquinhoadas do mundo; Se temos os nossos pais ainda casados e vivos, somos pessoas raras.

Se podemos ler esta mensagem, não nos encontramos entre os 2 bilhões de pessoas que não aprenderam a ler.

Alguém já disse:

Trabalhe como quem não precisa de dinheiro.
Ame como ninguém o tivesse feito sofrer.
Dance como se ninguém o estivesse olhando.
Cante como se ninguém o estivesse ouvindo.
Viva como se o paraíso fosse aqui na Terra.

Faça com que o dia de hoje seja um dia maravilhoso!


H O M E N A G E M

Taveiros


Costumo ouvir e ler no aniversário dos grandes artistas um pouco de suas obras: é a minha homenagem. Assim, ouvi a suíte número um em Sol Maior para violoncelo sem acompanhamento de Bach. E nas obras completas de Gonçalves Crespo, (Ed. Afrânio Peixoto), encontro esta jóia de Canção.

Antonio Cândido Gonçalves Crespo nasceu no Rio de Janeiro no dia 11 de Março de 1846, tendo vivido a maior parte da sua existência em Portugal, onde casou, quando ainda cursava o segundo ano de Direito com a escritora portuguesa Maria Amália Vaz de Carvalho. Diplomou-se. Foi Deputado em Goa - Índia. Jornalista e membro de várias Instituições de cultura, entre as quais a Real Academia das Ciências de Lisboa. Faleceu de tuberculose, aos 11 de Junho de 1883.

C A N Ç Ã O
I
Mostraram-me um dia na roça dançando
Mestiça formosa de olhar azougado,
Co’um lenço de cores nos seios cruzado,
Nos lobos da orelha pingentes de prata.
Que viva mulata!
Por ela o feitor
Diziam que andava perdido de amor.

II
De entorno dez léguas da vasta fazenda
A vê-la corriam gentis amadores,
E aos ditos galantes de finos amores.
Abrindo seus lábios de viva escarlata,
Sorria a mulata,
Por quem o feitor
Nutria quimeras e sonhos de amor.

III
Um pobre mascate, que em noites de lua
Cantava modinhas, lunduns magoados,
Amando a faceira dos olhos rasgados,
Ousou confessar-lho com voz timorata...
Amaste-o, mulata!
E o triste feitor
Chorava na sombra perdido de amor.

IV
Um dia encontraram na fria senzala
O catre da bela mucamba vazio:
Embalde a procuram nas sombras da mata.
Fugira a mulata,
Por quem o feitor
Se foi definhando, perdido de amor.


 


Guloso de humor me confesso...


Taveiros


Poetas, prosadores e artistas das mais variadas expressões têm tentado definir o humor. Dirão muitas pessoas que humor é o que faz rir ou sorrir. Não é suficiente. Um político desses falando de ética ou honestidade, fará rir muita gente. Ou se um desses apresentadores de televisão contar uma piada da mais rasteira pornografia também fará rir. E, no entanto, nem uma coisa nem outra passam perto do humor.

O humor é uma espécie de reverberação do espírito vinda das profundidades do pensamento. Sou, desde jovem, um guloso pelo humor. Gosto que ele me percorra o corpo como uma espécie de linfa e se espraie no espírito em ondas infindáveis. Muito cedo peguei a doença da leitura, da qual, nunca me curei. Até aos vinte anos, lia tudo o que me passava por perto, sem qualquer critério de escolha. Da Bíblia até Eça de Queirós e Machado de Assis, para citar apenas uma disparidade literária.

Depois dos vinte, o gosto foi-se lapidando e disciplinando. E logo os humoristas começaram a constituir uma simpática falange contra o meu tédio. Recordo como se fosse hoje o longo sorriso que foi a leitura de Três homens num bote...e O cão de Jerome K. Jerome, esse grande clássico do humor inglês.

Foram muitos os humoristas que me fizeram companhia, mas é a Bernard Shaw e Júlio Camba que devo os mais salutares risos e sorrisos. O genial irlandês, Prêmio Nobel da Literatura em 1925, veio a morrer com mais de noventa anos, conservado, com certeza, em sarcasmo, ironia e humor.

Grande provocador da sociedade do seu tempo, deixou muitos romances, ensaios e peças de teatro.

Poucos desconhecem o espírito de Bernard Shaw, pois todo o mundo viu “My fair Lady”, a belíssima fita que andou muito tempo nos cinemas, inspirada na peça Pigmalião, do genial dramaturgo.

Mas Bernard Shaw não foi só irônico e sarcástico nas suas peças e seus romances. Foi-o também nas suas relações pessoais.

Um desconhecido escritor inglês, querendo vender o seu livro, pediu a Shaw um prefácio que o ajudasse a lançar o livro.

O sarcástico dramaturgo respondeu com esta pergunta cruel: o senhor já viu um burro e um cavalo puxarem a mesma carroça?

O troco veio dias depois numa humilde carta que terminava assim: “esperava tudo do senhor menos que me chamasse de cavalo”...

Era o próprio Bernard Shaw que contava as suas derrotas. Humorista até nisso.

Júlio Camba nasceu em Villanueva de Arosa, Espanha, em l884 e faleceu em l962, depois de ter feito rir o mundo inteiro.

O humorismo de Júlio Camba nunca é superficial como o dos escritores ditos engraçados. Profundo conhecedor dos povos que largamente percorreu, e das pessoas com quem longamente conviveu, Camba não nos dá a ler simplesmente o que escreve. Leva-nos consigo em agradáveis passeios e cativantes relações humanas.

Acabo de reler Aventuras de uma peseta, que adquiri em Salamanca, em 1975.

Neste livro, dei com a Peseta de Júlio Camba, um longo e minucioso passeio pela Alemanha, Inglaterra, Itália e Portugal. Muito aprendi e muito me diverti, de terra em terra, de encontro em encontro, de reflexão em reflexão.

É particularmente interessante a observação que faz de Nápoles e da sua gente. Homens, mulheres e crianças de vida simples, mas de uma vivacidade repassada de simpatia e sentimentalismo.

Vejam como ele descreve os napolitanos: almoçam uma laranja e vestem-se como um raio de sol. Bonito!...


 

TERRA DE SANTA CRUZ

Rendilhada de luar, para a glória da vida,
Num fausto sem igual, abrindo o seio em flor,
De tesouros pejada, ante o descobridor
Uma ignota região jazia adormecida...

E o estrangeiro indagava, em sua alma atrevida,
Que força arrancaria a riqueza e o esplendor
Dessa presa opulenta ao ínclito valor
De sua raça, em mil conquistas aguerrida...

Mas dos mastros heris a rijeza se erguia
Para o espaço, onde, em lácteas luzes de alabastros,
A pompa milenar das estrelas fulgia.

E o olhar do herói seguira a indicação dos mastros:
- Pátria, no alto, abençoando esta terra bravia,
Deus velava, na cruz de Cristo aberta em astros!...

(sic) Rosalina Coelho Lisboa (D’ O Brasil que os poetas cantam)


 

Tragédia nacional

DANUZA LEÃO

A escola não existe só para ensinar a ler e a escrever mas também para formar cidadãos. Dá vergonha


NINGUÉM VAI me dizer que as crianças brasileiras só são mais inteligentes do que as de um país que se chama Quirguistão, do Qatar e da Tunísia. Por que, então, elas não conseguem aprender a ler? Porque quem ensina não sabe ensinar, claro.

Quando houve a tragédia da jovem presa na mesma cela com 20 homens, no Pará, logo veio a notícia de uma verba de R$ 89 milhões para melhorar as prisões do Estado, como se essa fosse a solução do problema.

Quando foram divulgados os resultados do Programa Internacional de Avaliação de Alunos, o ministro da Educação apareceu na televisão dizendo que seu ministério precisava de mais verba para que o ensino melhorasse. Mas o problema não é só de verba, em nenhum dos dois casos; é preciso saber como usar a verba, e até agora não ouvi uma só palavra sobre um projeto para formar novos professores.

Renovar as salas de aula, dar mesas e cadeiras para que os estudantes estudem é necessário, claro; mas sem bons professores, professores que saibam ensinar, nada vai mudar.

Leva tempo, eu sei, mas é preciso começar a investir direito para um dia colher os frutos, mesmo em um próximo governo que não seja do PT. O sistema de educação da França, um dos melhores do mundo, foi implantado por Napoleão Bonaparte ainda no século 19, e é tão bom que continua o mesmo até hoje. O Brasil não precisa criar; basta ir lá, ver e copiar.
Uma criança que passa apenas quatro horas do dia na escola dificilmente vai chegar em casa, pegar o caderno e, por vontade própria, fazer o dever de casa e estudar a lição. E sem essa de dizer que os pais, que antes colaboravam, hoje em dia não colaboram. Nos tempos atuais, na maioria das famílias, pais e mães não têm tempo de estudar com seus filhos porque trabalham, razão a mais para o garoto chegar da escola, ligar a televisão e ficar vendo um filme. O estudo e os deveres têm que ser feitos ainda no colégio, sob a supervisão dos professores, quem não sabe?

Crianças de 15 anos que não sabem ler corretamente, e quando conseguem, não entendem o que leram, é uma lástima. A escola não existe só para ensinar a ler e a escrever mas também para formar cidadãos. Dá vergonha e dá pena; o que será do futuro dessas crianças? O que será do futuro do Brasil? Não seria mais útil ter empregado o dinheiro da mais do que inútil TV Brasil em educação? E o R$ 1 bilhão do BNDES para ajudar na comercialização dos conversores da TV digital? Não seria melhor ser usado na educação?
Outra coisa que me chamou a atenção nessa semana foi a invenção, do ministro da Defesa, de multar as companhias de aviação que atrasarem os vôos. Muito bem, ótimo, quem não quer ter os aviões no horário? Mas até provar a razão do atraso -por necessidade de uma manutenção mais demorada, porém necessária, por exemplo-, vai ser um problema. As companhias não vão querer pagar por isso, e talvez prefiram "economizar" nesse pequeno detalhe, o que em aviação pode significar tragédia. Eu, por mim, prefiro que meu avião atrase a que caia. Será que estou errada?

Não é por nada não, mas este país está um caos, c-a-o-s. O Senado livrou a cara de Renan Calheiros, e eu gostaria de saber de alguma coisa, qualquer uma, da responsabilidade do governo, que funcione bem. Só uma, e eu já fico feliz (a estabilidade monetária não vale, esta Lula já encontrou prontinha). Quem souber que me mande um e-mail.
danuza.leao@uol.com.br

 


A AMIZADE

Taveiros

Despertei esta manhã com devota ação de graças por todos os meus amigos. Não deverei então chamar Belo ao nosso Deus que diariamente se me revela em todos os Seus dons?

Meus amigos vieram a mim sem que eu os procurasse. O grande Deus mos deu. Pelo mais antigo dos direitos, pela divina afinidade da virtude consigo própria, eu os encontro, ou melhor, eu não, mas o Deus que existe em mim e neles, que ridiculariza e suprime os espessos muros de caráter individual, relação, idade, sexo e circunstância, com os quais é usualmente conveniente, fazendo de muitos um só. Profunda gratidão vos devo, queridos amigos, que para mim conduzis o mundo a novas e nobres profundezas e ampliais o significado de todos os meus pensamentos. A sístole e a diástole do coração têm certa analogia com o fluxo e refluxo do amor. A amizade contém a beleza da alma. As leis da amizade são grandes, austeras e eternas. Pertencem à trama das leis da Natureza e da moral. Um amigo é alguém com quem posso ser sincero. Diante dele, posso pensar em voz alta.

Há dois elementos que entram na composição da amizade, cada um deles tão soberano que não percebo superioridade em nenhum, nem razão para nomear primeiramente este ou aquele. Um é a Verdade. Cheguei, por fim, à presença de uma pessoa tão real e equânime, que me é possível despir o traje da dissimulação, cortesia e segunda intenção, que os homens nunca despem, e tratá-la com a simplicidade e inteireza com que um átomo encontra outro. Outro elemento da amizade é a Ternura. Estamos unidos a toda a humanidade por toda a sorte de vínculos: por sangue, orgulho, medo, esperança, lucro, cobiça, ódio, admiração, por toda a classe de circunstâncias, insígnias e ninharia.

Detesto que o nome da amizade seja prostituído para significar alianças mundanas de ocasião. Prefiro a companhia das pessoas simples à sedosa e perfumada amizade que celebra seus encontros com frívola ostentação, e jantares nos melhores restaurantes.

A condição que a profunda amizade exige é a capacidade de passar sem ela. Para desempenhar esse alto oficio são necessárias grandes e sublimes qualidades. Os amigos têm de ser verdadeiramente dois, antes de poderem ser verdadeiramente um. Que haja uma aliança de duas naturezas grandes, formidáveis, que se contemplem mutuamente, que mutuamente divirjam, antes mesmo de reconhecer a profunda identidade que, sob tais disparidades, as une.



Lançamento do livro

“UM COMANDO DE POLÍCIA MILITAR”,


Liderando o grupo Guararapes, que reúne militares da Reserva e intelectuais civis,
o general Francisco Batista Torres de Melo conta em seu livro
“Um Comando de Polícia Militar” “a saga grandiosa de homens que defendem
com amor a sociedade paulista.” Uma honra para o Brasil.

O general Torres de Melo foi o comandante da PM paulista por três anos e meio.
O livro deve ser lido por militares e civis, interessados em como atua uma polícia
altamente treinada, e também o lado humano do cidadão fardado, pai de família que cumpre um dever com risco de vida.

Dia 30 de novembro de 2007 (Fortaleza)
Hora: 10.00 horas
Local: Associação dos Oficiais Militares da Reserva e Reformados do Estado do Ceará: AORECE
Endereço: Rua J.da Penha, 650


Dia 7 de dezembro De 2007 (São Paulo SP)
Hora: 21.00 horas
Local: Associação dos Oficiais da Polícia Militar (Salão Social do Barro Branco.)
Endereço: Rua Tenente Júlio Prado Neves. Bairro Tremenbé.


Dia 12 de Dezembro de 2007 (São Paulo SP)
Hora:11.00 horas
Local: Associação dos Sub-Tenentes E Sargentos da PMSP
Endereço: Avenida Cruzeiro do Sul, 248. Bairro Pari São Paulo - SP

N.R. Recomendamos este livro a sociólogos, jornalistas, psicólogos e inelectuais estudantes do comportamento humano, sob pressão.
A importância do comando firme e capaz e do relacionamento familiar estável como suporte emocional do policial militar.


DO BEBÊ DE PROVETA À CLONAGEM

Com grande barulho na comunicação
Social e com popular agitação,
A ciência médica anuncia a fecundação
In vitro isto é, o encontro festejado
Do espermatozoide com o óvulo assustado
Longe do útero. Por este arrojado
Processo, o encontro dá-se numa caixa
Em laboratório a temperatura baixa
Especialmente feita para o efeito.
O óvulo assim fecundado desse jeito,
É posto no útero da mulher que deseja
Ser mãe e que alguma anomalia a deixa
Impedida de não ser pelo insucesso
Do modo natural. Assim, este processo
De fecundação in vitro só não é sucesso
Completo porque a técnica é delicada
Falível e dispendiosa. Consultada
Por nós a estatística, nela consta apenas
Alguns poucos êxitos sempre a duras penas.
Os bebês conseguidos pela fecundação
In vitro ficaram, não sei por que razão,
Conhecidos por bebês de proveta.

O barulho com esses bebês foi o bastante
Para chegar enfim ao mais distante
Interior de Minas que com perdão dos padres
Se deu este diálogo entre duas comadres:
Ô comade Geraldina tem óvido falá
No tal de bebê proveta que agora tá
Na moda? Olha se nê tenho Catarina,
Eu nê sei pra que tanto barulho minina;
Eu que sou pra aqui dez reis de mulhé
Já tive um bebê proveta. Foi o mê Zé
Que Deus tem.. Nê pode sê comade, né?
Pois só agora é que os doutô descobriram
Essa engenhoca. Só agora? Eu te conto
Comade: estava eu namorando o tonto
Do mê Zé sentados numa caixa de madeira
E papai e mamãe foram fechar a porteira
Do gado, iê disse pó mê Zé: - proveta agora!
Foi ali mesmo na caixa de madeira
Que comecei a engenhar.


Fecundação in vitro tenham paciência,
É uma espécie de Idade Média da ciência
Com o aparecimento aí da clonagem.


Mas que vem a ser a tal de clonagem?
Todos se recordam - a TV mostrara
Uma ovelha “vedete” a qual se chamara
Dolly. Apresentaram-na com a particularidade
De ser igual à mãe. A ovelha na verdade
Saíu da fecundação do óvulo de uma
Ovelha por uma célula mamária duma
Outra. O óvulo fecundado foi introduzido
No útero de uma terceira e se seguiu
Uma gravidez normal.

A ovelhinha veio a parecer-se com a mãe.
Na totalidade do corpo como ninguém
Nunca viu. Até porque só teve mãe
Nenhum carneiro ali meteu o bedelho
Ou fosse o que fosse.

Se a clonagem pega e se começa a alargar
Ao homem, o mundo acaba por se transformar
Num asilo de órfãos de pai que não tiveram.

O progresso acaba de por na mão do homem
Uma arma que me parece ter tanto de
Admirável como de temível!


 
O Real Gabinete e Artur Faria

A vida é o dia de hoje,
A vida é ai que mal soa,
A vida é sombra que foge,
A vida é nuvem que voa.
“João de Deus - Campo de flores”

Se eu quisesse, poderia escrever 20 ou 30 páginas sobre o Real Gabinete Português de Leitura, mas, com certeza, não diria nada espontâneo, não diria sequer uma palavra nova.

Tudo já foi dito acerca do Gabinete. É um Laboratório; é um Templo de cultura; é uma Catedral do saber, etc; enfim, está esgotado todo o vocabulário a respeito do Gabinete.

Contudo não posso furtar-me a dizer que, tenho pelo Real Gabinete Português de Leitura uma quase veneração. Já algumas vezes, ao transpor aqueles pórticos, senti um telurismo patriótico, destes que transcendem qualquer concepção mental.

Os portugueses construíram e fizeram muito por este Brasil, particularmente no Rio de Janeiro: clubes de futebol, clubes recreativos, beneficências, enfim, tudo que faz bem ao corpo. Mas o Real Gabinete é diferente: O Real Gabinete faz bem à mente, o Real Gabinete faz bem à alma.

Entrei pela primeira vez no Gabinete nos anos 60, uns anos depois de ter chegado ao Brasil, quando andava preocupado com o vestibular. Era a época dos excedentes. E era ali, no silêncio daquela biblioteca, que eu tentava resolver as minhas equações de matemática e de física. Nessa altura, o Real Gabinete tinha como chefe da Biblioteca um cidadão chamado Artur Fortes de Faria de Almeida.

Foi esse cidadão que me ensinou a gostar do Gabinete. Era um diplomata, um cortesão, um palaciano e patriota da melhor estirpe. Elegante, culto, lia Horácio e Virgílio no original, e comentava Victor Hugo e Lamartine em sua própria língua; um português que honrava a sua raça, um homem fora do contexto e, duma riqueza interior verdadeiramente notável.
Um dia, um amigo comum disse-me: “valeu a pena vir ao Brasil só para conhecer o Artur Faria!” e eu concordo. Devo-lhe muito, especialmente este meu quase desapego pelas coisas materiais das quais temos apenas a posse transitória. Com a saída dele, o Gabinete nunca mais foi o mesmo, e, atrevo-me a dizer que jamais o será, apesar do dinamismo do atual presidente.

Fizemos uma amizade que felizmente durou até ao dia 22 de setembro de l995 quando faleceu. Uma vez por semana vinha ao meu encontro; ultimamente, com dificuldade de andar, buscava-o em casa e levava-o à noite.

Foi este homem que a colônia portuguesa perdeu há exatamente 12 anos e que tão poucos se lembram! Eu fui o primeiro a vê-lo naquela madrugada de sua morte, chamado que fui pela sua esposa e não podia, neste dia, deixar de mais uma vez, prestar a minha homenagem a quem tantas recordações e laços de saudade me prendem.

Taveiros

 


O comando de nós mesmos

Taveiros


Fomos educados a medir a inteligência,
Pela capacidade e pela competência
De resolver problemas complexos,
Desempenho ao ler e bons reflexos.
Esta noção de grande inteligência,
Faz a instrução e a referência
Cultural de auto-realização.
Achamos que, quem tem maior coleção
De títulos acadêmicos, é inteligente.
As casas de saúde, não obstante,
Estão abarrotadas de doentes mentais,
Com todos esses, e outros credenciais.
O grande barômetro da inteligência,
É vida produtiva e boa vivência
A cada momento presente de cada dia.
Se vivemos o momento pelo seu valor,
Então somos pessoas impermeáveis à dor.
Se apesar da nossa incapacidade,
Ainda é possível escolher a felicidade,
Ou, pelo menos recusar a infelicidade,
Então somos pessoas assaz inteligentes.
Aprender a assumir os nossos pensamentos,
Envolverá processo de, em todos os momentos,
Pensar de maneira nova, que poderá
Apresentar dificuldades, por que há,
Forças que se opõem em nossa sociedade,
E que conspiram contra a nossa vontade.
Mas se não assumirmos, quem assumirá?
O nosso cônjuge, a nossa mãe, quem será?
Sejamos francos: pois nós todos sabemos
E mais ninguém que, todos nós podemos,
Assumir o mecanismo do nosso pensar.
Nossos pensamentos são nossos, apesar
De pensarmos que não. Temos capacidade
De guardá-los, modificá-los, e a sagacidade
De observá-los.

Fomos levados a acreditar que, as pessoas,
Os lugares, as nações, ou as coisas "não boas",
É que nos infelicitam. Mas não é verdade.
Somos infelizes por própria vontade,
E pelos pensamentos que temos a respeito
Das pessoas ou coisas, que com efeito
Fazem parte da nossa vida.
Para sermos livres e saudáveis temos
Obrigatoriamente desaprender o que sabemos.
Quando conseguirmos novos pensamentos,
Experimentaremos novos sentimentos,
Daremos o primeiro passo no sentido
Da liberdade individual e permitido
Adquirir novos hábitos. É preciso atenção
E vigilância, para desaprender com precisão
O que aprendemos. Ser feliz é fácil,
Mas, não ser infeliz poderá ser difícil.
A felicidade constitui uma condição
Natural do homem. A observação
Duma criança dá-nos a prova evidente.
Novo modo de pensar requer realmente
Que tenhamos consciência das antigas formas
De pensar. Acostumamo-nos com normas
Que situam fora de nós todo o motivo
Do nosso bem ou mal estar. Já é cansativo...
Assumir o comando de nós mesmos requer,
Determinação e coragem. Não é qualquer
Um. Aprendemos os hábitos que temos
Hoje, e reforçamo-los pela vida como vemos.
Ficamos nervosos, irritados e magoados,
Aprendemos a ficar, assim todos frustrados,
Por que aprendemos a pensar dessa maneira
Há muito tempo. Aceitamos esta cegueira
E jamais ousamos desafiá-la. Mas é possível
Aprender a não sermos nervosos, e risível
Ficarmos irritados. Tal como aprendemos
A ter todos esses sentimentos que temos
Auto-destrutivos.

A questão que discutimos é a nossa capacidade
De preferir a felicidade, à infelicidade,
Em qualquer momento, e em toda a nossa vida.
Se somos livres para escolher coisa preferida,
Também o somos para o comportamento
Auto-gratificante, ao auto-destrutivo.
Quem dirige carro numa grande cidade
Nos dias de hoje, não é novidade
Que se veja preso em engarrafamentos.
Ficamos furiosos, em todos os momentos,
Xingando os outros, as obras da Prefeitura
Descarregamos raiva nesta vida dura,
E sobre tudo e todos ao nosso redor.
Atribuindo ao trânsito o nosso mau humor,
E que simplesmente nos descontrolamos
Nos engarrafamentos. Isto que falamos
Só acontece, por que fomos condicionados
A nos comportar no trânsito, dessa forma.
Mas se preferirmos pensar e, ter por norma
Uma maneira nova, de nos auto - estimular?
Poderemos, com nós mesmos, conversar,
Assobiar, cantarolar, ligar o gravador
Conversar com nós mesmos, esquecer o calor,
Até mesmo, por cinco minutos, adiar
A nossa raiva. Não aprenderíamos a gostar
Do trânsito, mas sim, de início muito lento,
A escolher agora novo comportamento.
Poderemos também decidir eliminar
Sofrimentos físicos que nos dão que pensar,
E que não têm raízes, em nenhuma disfunção
Orgânica conhecida, certa perturbação
Física comum, muitas vezes sem origem
Em nenhum distúrbio biológico mas afligem,
Como dores nas costas e hipertensões
Úlceras, dores de cabeça e erupções
Da pele, cãibras, dores passageiras etc.
Não nos apressemos a tachar esta conversa
De papo furado ou coisa controversa.
Boa parte dos médicos, já tiveram pacientes
Que sofrem de mal físico sem estarem doentes.
A melhor forma de novo comportamento,
É aprendermos a viver o presente momento.
Viver o momento, entrar em sintonia
Com o nosso agora, não é utopia,
Mas o ponto principal do viver pleno.
Quando penso nisso, vejo quão pequeno
Realmente sou. O agora é tudo no entanto,
E o futuro, não passa de outro momento
Presente, a ser vivido quando, e se chegar.
Vivemos numa cultura que não pensa no agora,
"Pense no amanhã, poupe para o futuro",
"Olhe as conseqüências, não queira ficar duro".
Evitar o presente é quase uma doença
Em nossa cultura, e quase uma sentença.
Tiradas as conclusões lógicas, esta atitude
Representa não somente evitar desfrutar
O agora, mas para sempre sacrificar,
A felicidade. Quando o futuro vier,
Torna-se presente e, se não se viver,
A felicidade será sempre uma ilusão.
O momento presente, temo-lo à mão,
E deve ser vivido maravilhosamente,
Devemos absorver o momento presente,
Desligarmo-nos do passado que já acabou
E do futuro que chega, mas que não chegou.
Agarremo-nos ao momento e pensemos
Conscientes de que é tudo que temos
Para terminar, atentemos para a linha
Mestra desta conversa:
Uma nova maneira de pensar, ou sentir,
Ou viver, é possível, mas temos que admitir
Que não é fácil.Todavia como dizia Marden:
Os caminhos fáceis, são todos de descida.

 

 


INCRÍVEL ATUALIDADE DE EÇA DE QUEIRÓS

Taveiros

Muitos foram os escritores que representaram a consciência moral de seu tempo, dentre os quais destaco dois. Henry Louis Mencken e Eça de Queirós. Ambos foram escritores e jornalistas que tiveram em comum o fato de viverem num mundo obscurecido pela mediocridade, hipocrisia, superstições e crise de valores, idéias e costumes, usando, principalmente, a ironia como refutação dos ridículos e das verdades estabelecidas de sua época. Em sentido amplo, cada um, com seu estilo pessoal, combateu o que o jornalista americano Carl Bernstein chamou de “triunfo da cultura idiota”.

Henry Louis Mencken, americano de Baltimore (1880-1958), polemista e agnóstico, teve como principal arma o humor cáustico e se gabava de nunca ter elogiado um presidente americano. Irreverente, iconoclasta e, às vezes, idiossincrático, ridicularizou a estupidez do homem comum, as idéias feitas, os clérigos e juízes, satirizando a burrice dos governantes, políticos e burocratas, a exploração da fé pelos religiosos, os moralistas, corruptos, idealistas, românticos, filósofos, psicólogos, jornalistas e donos de jornais. Atacou também seitas evangélicas, racistas, imigrantes alemães a quem classificava no “nível cultural de verdureiros”. Criticou corretores da Bolsa, socialistas, os jardins zoológicos e os pretensos donos da verdade: “o homem que se gaba de só dizer a verdade é simplesmente um homem sem nenhum respeito por ela”.

A isso tudo acresce, ainda, os ataques ao homem médio dos Estados Unidos, “cinqüenta por cento dos adultos americanos nunca ultrapassam o desenvolvimento mental de uma criança de 12 anos”.

Finalmente, considerava que “todo o homem decente deve se envergonhar do governo sob o qual vive e a democracia é a arte e a ciência de administrar o circo a partir da jaula dos macacos”.

Em outra época e sociedade, Eça de Queirós (1845-1900) foi o maior crítico de seu país. Com a sua inteligência versátil, ironizou instituições, comportamentos, personagens, os valores falsificados do mundo oficial, as mentiras, mistificações e hipocrisias da religião, do ensino, e da vida política de Portugal.

No centro de sua personalidade e de sua expressão estavam o sarcasmo, que ele conceituava como “a ironia acompanhada do riso insultante”, e o riso “a mais antiga e ainda mais temível forma de crítica”.

Com esses instrumentos, não perdoou as mediocridades festejadas, as comédias de erros das diversas classes sociais, as tolices pomposas e as banalidades convencionais das mentes conservadoras que continuavam a usar ceroulas mentais.

Com ironia nunca amarga, criticava os fundamentos da vida social portuguesa, principalmente os comportamentos e a maciça obtusidade dos tipos e fatos da vida lisboeta e provinciana.
Vivendo numa sociedade que era a negação de tudo o que ele representava, pensava ou desejava, foi um crítico impenitente, embora no fundo pressentisse que suas críticas teriam alcance reduzido: “Não há nada a fazer”, dizia Fradique Mendes, seu alter-ego a respeito de Portugal. Sabia que era difícil mudar uma sociedade mental e espiritualmente atrasada, velha, patriarcal, burocrática, clerical e estamental.

No seu anti-clericalismo, coloca na boca do Dr. Gouveia, no “Padre Amaro”, o seu ideal de um cristianismo sem clero: “Eu não preciso dos padres no mundo, porque não preciso de Deus no céu. Isto quer dizer, meu rapaz que tenho meu Deus dentro em mim; é o princípio que dirige as minhas ações e os meu juízos, vulgo consciência”.

Considerou sempre a política como uma atividade marcada pelas baixezas, oportunismos e empáfias. Exemplo disso são os políticos sempre duramente criticados como presunçosos, incapazes, corruptos, falsos, ambiciosos, egomaníacos, repulsivos e, é óbvio, desprovidos de qualquer sentimento patriótico.

Foram várias as figuras paradigmáticas, todas ainda de flagrante atualidade. Entre eles o Conde de Abranhos. Sobre este o mínimo que se pode dizer é que foi um corsário político e, embora vivendo um século antes de Nelson Rodrigues, representava o que este chamava de “ascensão fulminante do idiota”.

Sua carreira política começa pelo casamento com a filha do desembargador Amado.. Eleito deputado, faz discursos bestialógicos sobre a reforma da instrução, a política colonial e as estradas de ferro. E tal como se vê hoje, trai seu partido ao passar convenientemente para a oposição, sendo nomeado Ministro da Marinha, apesar do seu horror aos navios e ao mar e da absoluta ignorância em geografia. Estimulado pelas circunstâncias, tem ainda a brilhante idéia de preconizar uma expedição ao pólo.

Era também voltado para a questão social. É dele a célebre afirmação na Câmara dos Deputados: “não podemos dar ao operário o pão da terra, mas, obrigando-o a cultivar a fé, preparamos-lhe banquetes no céu de luz e bem-aventurança”.

A RELIGIÃO, OS PADRES E O BEATISM0

É difícil conter o espanto diante da coragem de Eça ao criticar o cinismo e a obtusidade de uma religião fortemente estabelecida em Portugal e apoiada por um Deus justiceiro, criador de anjos e demônios, do céu e do inferno e onde quem estivesse fora dela não teria salvação. Sua crítica centrou-se principalmente no catolicismo tradicional, que considerava beato, clerical, impregnado de charlatanice e de desejo de dominação. Criticou a Igreja alvejando com suas invectivas o “padre funcionário público.”

O exemplo mais interessante é o do Padre Salgueiro, para quem “o sacerdócio não constitui de modo algum uma função espiritual – mas unicamente e terminantemente uma função civil”. “As suas relações, portanto, não são, nunca foram com o céu (do céu só lhe importa saber se está chuvoso ou claro”), mas com a Secretaria da Justiça e dos Negócios Eclesiásticos. Ignorante do evangelho, só sabe que ele é muito bonito. Critica também o “padre-sensual”, cujo exemplo mais elaborado é o Padre Amaro.

Não menos notável é a sua galeria de beatas, com destaque para a Sra. Patrocínio das Neves – a Titi do Raposão e de D. Laura Amato, sogra de Abranhos.

O mínimo que se pode dizer da Titi é que ela é o produto de uma implacável religião alimentada pelos padres e a antípoda da verdadeira espiritualidade e dos imperativos de caridade. Titi vivia cercada de cruzes, imagens, opas, tochas, bentinhos, andores, sempre vestida de preto e invariavelmente cercada por dois padres: o Padre Pinheiro e o Padre Casimiro. Odiava o sexo (que considerava “relaxações”) e tudo o mais que insinuasse qualquer contato ou relação entre homens e mulheres...

CONSELHEIRO ACÁCIO

É uma das criações imortais de Eça. Especula-se que tenha sido inspirado no Deputado Assunção Contemporâneo de Eça. Só pronunciava banalidades com ênfase, dava eloqüência às frases-feitas dedicava-se à estatística, ambicionava honras oficiais, era dado a gestos medidos, hieráticos, e nunca usava palavras triviais. Escreveu o irrelevantíssimo “elementos genésicos da ciência da riqueza e sua distribuição segundo os melhores autores”.

Mas Acácio não é só português. Ele é universal, e seus descendentes espirituais e discípulos proliferam abundantemente e tão tristemente aqui no Brasil.

Com todas as suas qualidades e defeitos, a obra de Eça não é só feita de pitorescos, caricaturas e expressões satíricas. Existem muitos momentos de beleza, perfeição estilística e de largos recursos narrativos da maior elevação e profundidade, além de preocupações profundamente humanas.

Como homem e escritor possuía uma sensibilidade requintada, apreciador da boa convivência e do código social civilizado, das corretas maneiras, além de um intelectualismo sofisticado. Eça foi também um escritor raro pelo temperamento sensual, sensorial e gustativo: em quase todos os seus livros descreve almoços, jantares e bebidas que servem para compor uma atmosfera e ajudam a retratar uma época, o caráter dos vários ambientes romanescos e a rotina dos seus personagens.

Eça não foi apenas uma glória literária entre os escritores da nossa língua. Foi um escritor universal que concebeu uma obra de beleza plástica e expressão estética superior, principalmente de grande consciência crítica. Nesta perspectiva, seus romances, contos, novelas, ensaios e trabalhos jornalísticos podem ser considerados como superiores realizações literárias do século XIX, mas perenizando-se, pelo estilo e outras marcas próprias, como uma grande arte de todos os tempos.

 


C A B E L O B R A N C O

Taveiros


Acabo de receber, da minha filha, um e-mail melancólico em que me dá notícia do aparecimento do seu primeiro cabelo branco.

Esta querida filha, que consegue reunir, a um espírito brilhante, uma grande e profunda cultura, não pode ao escrever-me, disfarçar o seu grande drama.

A razão do pânico justifica-se. É que a mulher, mesmo culta, mesmo inteligente, mesmo superior, entende, justamente porque não se esquece de que é mulher, que a beleza só é possível no apogeu da vida.

Ora, isto é um engano. Há claridades outonais muito mais belas do que certas alvoradas primaveris. O sol, na sua trajetória para o poente, tem mais ouro do que o sol da manhã.
Uma mulher não deve sentir-se irremediavelmente infeliz, diante do seu primeiro cabelo branco! É um acidente que não indica o começo da derrocada, mas o princípio da maturação deliciosa. Ao esplendor que nos fere os olhos, sucede, sempre, a luz indecisa, mas tão doce, do entardecer.

A vida seria uma coisa terrível, se nos mantivesse eternamente no auge da força! E quem suportaria o dia sem a idéia da noite? A lei dos contrastes é o segredo da felicidade humana! Lembram-se daquele conto encantador do nosso Eça de Queirós, “A perfeição,” em que Ulisses, prisioneiro do Calipso, se sente dentro da Ilha Ideal de Ogigia, o mais infeliz dos homens?

E o gemido que solta, como um grito-- Ó Deusa Imortal, eu morro com saudades da morte! - não é, como à primeira vista parece, uma figura de retórica. É a saturação atingida por aqueles que, só pelos contrastes, podem diferenciar o bem do mal, reconhecendo que nenhum valor teria um céu azul, se o mesmo céu, antes ou depois, não se apresentasse chuvoso, feio, e agreste.

Não, minha querida filha, não deve olhar com tristeza, o seu primeiro cabelo branco. Ele ficará, simplesmente, como um fio de prata, entre os seus cabelos pretos.

Deixe falar as suas amigas mais novas que, por certo, a aconselharão a pintar o intruso. Não as atenda. Não lhes dê ouvidos. Encare a vida com grandeza, e prepare-se para transpor o limiar da nova estação.

Se a primavera é linda pela sua sinfonia floral, o outono não o é menos, pelo perfume intenso dos seus frutos.

E não pense que o amor foge com a mocidade! Não foge de modo nenhum. O amor não vive de aparências. Vive do fogo interior e do sincronismo de duas almas. O resto não é amor. É fogo de palha, jogo de buraco, ou competição esportiva. Se posso dar-lhe um conselho, querida filha: aceite, com ternura, o seu primeiro cabelo branco!



E N C O N T R O

Taveiros

Um homem sincero e buscador da verdade,
Viu-se repelido pelo mundo vulgar
Suas injustiças e sua maldade,
Que decidiu retirar-se pra outro lugar.

Voltou pra natureza, fugiu das pessoas,
Esperava encontrar Deus que tinha procurado
Por tanto tempo. Encontrar coisas boas.
Desapareceu do mundo, muito amargurado.

Depois de oito meses, um guarda florestal
Encontrou por acaso, o seu acampamento.
O homem estava enfermo, e de modo tal
Que parecia próximo o seu falecimento.

Nesse estado o guarda pediu assistência,
O doente foi levado para o hospital,
Durante muitos dias sua sobrevivência
Esteve ameaçada por seu grande mal.

Começou a melhorar e finalmente abriu
Os olhos. Nesse momento o médico estava
Inclinado sobre ele observando-o. Sentiu
Na garganta o grito de alegria que buscava.

Sentou-se na cama e estendeu a mão.
O médico tomou-a; o paciente chorou
Sorrindo de alegria e de gratidão
Ao mesmo tempo, quando pode contou:

“Estive na floresta durante oito meses,
Durante esse tempo não ouvi voz humana,
Nem olhei em olhos, só achei revezes,
Que poderia achar com esta mente insana.

Procurava Deus nas árvores e correnteza,
Nos pássaros, animais, e em toda a paisagem.
Esforçava-me muito sem nenhuma certeza
Do meu objetivo. Era tudo miragem.

Então adoeci e perdi os sentidos,
Acordei no hospital e logo achei
O que tinha procurado nos meses vividos
Na floresta, e que nunca encontrei.

Olhei os olhos do médico e lá estava Deus.
Não consigo dizer como O reconheci,
Sei que me senti um dos filhos Seus,
Uma sensação de afeto que jamais vivi.

Estendi a mão e alguém a segurou,
Agora vejo Deus em todas as pessoas
Agora vejo Deus em mim mesmo, estou
Feliz. Estivera isolado das coisas boas".

Foi pra esse homem grande revelação,
Ele estivera tão isolado do amor
Que ficara cego de olhos e coração,
Em estado de fraqueza e de grande dor.

Na necessidade encontrou ajuda
Ele amou. E, no amor, encontrou Deus,
A Natureza Infinita que nunca muda
E está dentro de todos, mesmo dos ateus!...

 

Enviado por H.Belem

Dica de leitura : "Código da Vida"
Por Saulo Ramos, Editora Planeta

Generais quase saem aos tapas no Palácio do Planalto
Saulo Ramos no seu livro "Código da Vida" revela um fato até agora desconhecido da história do país. Nos últimos dias de José Sarney na Presidência da República, pouco antes da posse de Fernando Collor, o ministro da Fazenda Maílson da Nóbrega e o do Planejamento João Batista Abreu, sugeriram que, diante da inflação descontrolada, estava a 84% ao mês, e do caos na economia, o presidente deveria renunciar para encurtar a transição.

Maílson fez sua surpreendente proposta em reunião no Palácio do Planalto, o gabinete presidencial, com a presença dos ministros João Batista, Saulo Ramos, da Justiça, Leônidas Pires Gonçalves, do Exército, Bayma Denis, do Gabinete Militar, e Ivan Mendes, do SNI.

Trecho mais revelador do episódio contado em quatro páginas do livro: Mailson faz um relato sobre suas preocupações com a economia diante do fracasso do seu último plano econômico, "Plano Verão", e argumenta: "O presidente-eleito, Fernando Collor, e sua já escolhida Ministra da Fazenda, Zélia Cardoso Alves, estão dando entrevistas incendiárias e insinuando medidas drásticas que vão tomar. O empresariado e as fontes de produção vão disparar, numa corrida de aumento de preços insuportável. Não sabemos a proporção da crise nos últimos meses do governo, mas será catasstrófica. Se o Presidente renunciar agora, ou antecipar a posse do eleito, as expectativas serão revertidas e , em caso de renúncia, assumirá o Governo o Dr. Ulysses Guimarães."

O presidente Sarney ouviu calado. Coube a Saulo Ramos replicar, primeiro com justificativas de ordem legal, depois discorrendo sobre as graves conseqüências políticas que a renuncia desencadearia, e concluiu:

"Tanto brasileiros como os países do resto do mundo não entenderão um gesto tão imprudente, senão doidivanas como esse. Seremos vistos como irresponsáveis. Considero a proposta uma traição não somente ao Presidente da República, mas ao Brasil."
"Traição! Não aceito essa palavra. É muito forte, retrucou Maílson."
"Vai aceitar, sim senhor, disse o General Leônidas, dando um tapa na mesa."
A discussão segue quente, Sarney, conciliador, tenta acalmar os ânimos, mas quando o general Ivan Mendes concorda com a proposta de Maílson, o general Leônidas reagiu em voz alta:
"Fica quieto, Ivan.! Se você insistir nesse assunto, nós discutimos lá fora, só eu e você".
A proposta de Maílson não foi aprovada. Sarney não renunciou e o país chegou às portas da hiperinflação. Sarney passou a faixa para Fernando Collor, que, no mesmo dia, anunciou o congelamento dos depósitos bancários.

Livro de Saulo Ramos revela fatos inéditos da história

Foi lançado nesta semana, "Código da Vida"(Editora Planeta, R$44,90) revelador livro do jurista, jornalista e poeta Saulo Ramos, que, certamente, vai gerar polêmica pelas suas revelações dos bastidores do governo do presidente José Sarney, no qual exerceu o cargo de procurador geral e ministro da Justiça.

Saulo Ramos conta em detalhes de uma até hoje não revelada reunião no Palácio do Planato onde o ministro Maílson da Nóbrega, diante do descontrole da inflação, pediu ao presidente José Sarney que renunciasse às vésperas de passar o cargo ao presidente eleito, Fernando Collor, para apressar a transição.

A discussão em torno da surpreendente proposta de Mailson quase gera troca de tapas entre dois generais do gabinete de Sarney: ministro do Exército Leônidas Pires Gonçalves e do SNI, Ivan Mendes.

A surpresa começa pela capa, reveladora e instigante, principalmente em se tratando de um livro de memórias de um dos mais destacados juristas de nosso tempo: "Código da Vida". Fantástico litígio judicial de uma família: drama, suspense, surpresas e mistério".

Saulo Ramos é magnífico contador de casos. O livro tem como fio condutor um causa do seu escritório de advocacia para desenvolver enredo cheio de suspense, em torno do qual revela bastidores do governo Sarney e aproveita para manifestar sua opinião sobre temas da atualidade ? Bush, sem terras, críticas ao PT, aos tucanos, aos políticos, economistas, etc.

É o tipo do livro que o leitor não desgruda até a última das suas 467 páginas.



 

O N O R D E S T E

Taveiros


O Nordeste todo é de grande beleza,
Praias paradisíacas, onde a Natureza
É preservada de maneira cuidadosa,
Com a sua gente bastante orgulhosa
Dos seus valores, das suas raízes,
Têm dificuldades, mas sentem-se felizes,
Apesar do desprezo dos seus governantes,
Que nunca cumprem o que prometem antes,
E só aparecem em época de eleições,
A mesma lengalenga, os mesmos intrujões,
Isto desde o tempo do segundo Império,
Quando ainda havia no país alguém sério.

Que corja de políticos! Que tipo de gente!
Enganam gente simples, ou quase inocente,
É bater em morto - é grande covardia,
Alardeiam bondade, mas têm a alma vazia,
Esta é terra mãe de políticos safados,
E madrasta de homens sérios e honrados.
A indústria da seca é da que mais gostam,
E no orçamento é onde eles apostam,
Não há interesse em indústria doutro tipo,
Essa no Nordeste, não deixa ninguém rico,
Preferem o status quo, quanto pior melhor,
Para esses políticos, o melhor é o pior,
Há no subsolo água com fartura,
Era só furar e, acabava a vida dura,
Haveria o regresso daqueles que estão fora,
De São Paulo e Rio, viriam embora,
Não conheço gente mais apaixonada,
A terra em que nasceram é a mais amada,
É de sol e água, que a planta gosta,
No Nordeste há sol e, com água posta
A brotar do solo, seria um celeiro,
Vi lavoura lá, que não vi no mundo inteiro,
Junto ao São Francisco vi melões e uvas
Onde antigamente, só havia saúvas.
Mas vi no Nordeste algo de estarrecer,
Meninas na estrada a se oferecer,
Mães cheias de filhos, querendo-os doar,
Sem meios nenhuns para os educar,
Senti-me culpado, - nós somos culpados,
Termos irmãos nossos assim esfomeados,
É crime terrível de lesa- humanidade,
Que deveria ser punido com severidade,
Para onde vai o imposto arrecadado?
Não há nenhum país assaz civilizado,
Que cobre tantas taxas e, tantos tributos,
Também não há no mundo uma plêiade de corruptos
Como aqui - toda a arrecadação
É para o pagamento de tanto ladrão.

O governo é um fim em si mesmo,
Tudo que arrecada, gasta-o a esmo,
Não sobra nada, para investimento,
Nem para amenizar tanto sofrimento
De irmãos nossos que, sem culpa nenhuma,

Nunca receberam educação alguma,
São párias da nação e desses canalhas,
Que quando muito lhes mandam migalhas,
A solução é fácil, mas precisa haver vontade,
Uma coisa que falta à nossa sociedade;
O nordestino é dócil, é trabalhador,
Trabalhar na roça com aquele calor,
Deveria ser eleito herói nacional!
Com muito mais mérito que qualquer boça
l
Político. Têm amor à terra e, se lhe derem
Condições para tanto, se o atenderem
No mínimo necessário, não emigrarão mais,
Ficarão na terra, o Sudeste jamais.


 
 

O BRASIL

Taveiros


Após um tempo nublado em Portugal, Encontrei um céu de luminoso anil;
Um povo alegre, prazenteiro e gentil,
Como no mundo não há outro igual!

Numa lua de mel duradoura e jovial,
Almoço e janto e, durmo com o Brasil,
No paladar e no tato encontrei o perfil,
Duma terra adorável, digestiva e sensual!

E se é certo que não tenho sangue brasileiro,
Não o é menos que o Brasil tem sangue meu;
Daí a afinidade – afeto verdadeiro!

Aqui ‘ stá a filial da língua que nos deu
Os grandes poetas do nosso cancioneiro,
E que, unindo a pátria, aqui permaneceu!...

 
 


Enviado por Roberto Carrazedo

Alfabeto passa a ter 26 letras

Está para entrar em vigor a unificação da Língua Portuguesa
que prevê, entre outras coisas, um alfabeto de 26 letras.

"A frequência com que eles leem no voo é heroica!".

Ao que tudo indica, a frase inicial desse texto possui pelo menos quatro erros de ortografia. Mas até o final do ano, quando deve entrar em vigor o "Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa", ela estará corretíssima.

Os países-irmãos Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste, terão, enfim, uma única forma de escrever.

As mudanças só vão acontecer porque três dos oito membros da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP), ratificaram as regras gramaticais do documento proposto em 1990. Brasil e Cabo Verde já haviam assinado o acordo e esperavam a terceira adesão, que veio no final do ano passado, em novembro, por São Tomé e Príncipe.

Tão logo as regras sejam incorporadas ao idioma, inicia-se o período de transição, no qual ministérios da educação, associações e academias de letras, editores e rodutores de materiais didáticos recebam as novas regras ortográficas e possam, gradativamente, reimprimir livros, dicionários, etc.

O português é a terceira língua ocidental mais falada, após o inglês e o espanhol.
A ocorrência de ter duas ortografias atrapalha a divulgação do idioma e a sua prática em eventos internacionais.

Sua unificação, no entanto, facilitará a definição de critérios para exames e certificados para estrangeiros.

Com as modificações propostas no acordo, calcula-se que 1,6% do vocabulário de Portugal seja modificado.

No Brasil, a mudança será bem menor: 0,45% das palavras terão a escrita alterada. Mas apesar das mudanças ortográficas, serão conservadas as pronúncias típicas de cada país.

O que muda:

*** As novas normas ortográficas farão com que os portugueses, por exemplo, deixem de escrever "húmido" para escrever "úmido".

*** Também desaparecem da língua escrita, em Portugal, o "c" e o "p" nas palavras onde ele não é pronunciado, como por exemplo, nas palavras "acção", "acto", "adopção", "baptismo", "óptimo" e "Egipto".

Mas também os brasileiros terão que se acostumar com algumas mudanças que, a priori, parecem estranhas.

*** As paroxítonas terminadas em "o" duplo, por exemplo, não terão mais acento circunflexo.
Ao invés de "abençôo", "enjôo" ou "vôo", os brasileiros terão que escrever "abençoo", "enjoo" e "voo".

*** Também não se usará mais o acento circunflexo nas terceiras pessoas do plural do presente do indicativo ou do subjuntivo dos verbos:
"crer", "dar", "ler", "ver" e seus decorrentes, ficando correta a grafia:
"creem", "deem", "leem" e "veem".

*** O trema desaparece completamente.
Estará correto escrever "linguiça", sequência", "frequência" e "quinquênio" ao invés de:
lingüiça, seqüência, freqüência e qüinqüênio.


*** O alfabeto deixa de ter 23 letras para ter 26, com a incorporação do "k", do "w" e do "y".

*** O acento deixará de ser usado para diferenciar "pára" (verbo) de "para" (preposição).

Outras duas mudanças:

*** Criação de alguns casos de dupla grafia para fazer diferenciação, como o uso do acento agudo na primeira pessoa do plural do pretérito perfeito dos verbos da primeira conjugação, tais como: "louvámos" em oposição a "louvamos" e "amámos" em oposição a "amamos".

*** A eliminação do acento agudo nos ditongos abertos "ei" e "oi" de palavras paroxítonas, como:
"assembléia", "idéia", "heróica" e "jibóia".

Antônio Houaiss

A escrita padronizada para todos os usuários do português foi um estandarte de Antônio Houaiss, um dos grandes homens de letras do Brasil contemporâneo, falecido em março de 1999.
O filólogo considerava importante que todos os países lusófonos tivessem uma mesma ortografia.
No seu livro "Sugestões para uma política da língua", Antônio Houaiss defendia a essência de embasamentos comuns na variedade do português falado no Brasil e em Portugal.

Fontes para comentar o assunto:

** William Roberto Cereja - Mestre em Teoria Literária pela USP, Doutor em Lingüística Aplicada e Estudos da Linguagem pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Professor graduado em Português e Lingüística e licenciado em Português pelo ensino em São Paulo e autor de obras didáticas.

** Marcia Paganini Cavéquia - Professora graduada em Português e Literaturas de Língua Portuguesa; Inglês e Literaturas de Língua Inglesa pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), Pós-graduada em Metodologia da Ação Docente pela UEL, Palestrante e consultora de escolas particulares e secretarias de educação de diversos municípios e autora de livros didáticos.

** Cassia Garcia de Souza - Professora graduada em Português e Literaturas de Língua Portuguesa, pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), Pós-graduada em Língua Portuguesa pela UEL, Palestrante e organizadora de cursos para professores da rede de ensino, Assessora pedagógica e autora de livros didáticos.


Enviado por Roberto Carrazedo

PEDRO ÁLVARES CABRAL

Por Carlos Pena Filho

O enorme céu que cobre mar e mágoas
e abriga os astros
sustém meu claro sonho sobre as águas,
velas e mastros

Um dia hei de encontrar terra ignota
é assim quem sonha
e se nenhuma houver em minha rota,
que Deus a ponha

Em meio ao longo mar não faço caso
dos dias meus,
pois tenho a guiar-me o vento ou o puro acaso
e o acaso é Deus.


Brasil
ANO 22
DO SONHO À REALIDADE

O autor, Cmg. (RRm) Carlos Eduardo Figueiredo de Matos tem nível de doutorado, é escritor e conferencista. Um intelectual experiente na gestão de recursos humanos passando por máquinas e equipamentos simples e sofisticados. Desempenhou funções de gestor em níveis diversos, o que o credencia a escrever com clareza e simplicidade para todos esses níveis.

O livro trata de como planejar e administrar de forma participativa. Foi tão empolgante que o li todo no mesmo dia e deixei para degustá-lo aos poucos no dia seguinte.

Escrito em forma de manual passo a passo, mostra de forma concisa e objetiva o planejamento desde o nível estratégico até o nível operacional.

Serve tanto ao executivo como ao estudante estudando-o será possível levar a índices muito baixos os conflitos que corroem a administração e os executivos sem o preparo adequado.

Recomendo Brasil Ano 22 do Sonho à Realidade como leitura obrigatória para quem deseja acertar logo, sem perder tempo precioso com sofismas.

É do grande professor e estrategista Ferdinand Foch (1851-1929) a frase:

“O que o homem não alterar para melhor, o tempo alterará para pior.”

Ferdinand Foch, membro da Academia Francesa e marechal de França.
Flavio P. Ramos, professor do ensino superior, editor.

Para agendar palestras: carlosmatos22@hotmail.com




Eagles and Crows

Taveiros

Once upon a time a community of eagles lived on a beautiful mountain range. They were carefree and happy, finding an abundance of natural foods in surrounding woods and streams. Their days were spent in lofty soaring and peaceful pleasure.

But down on the dry prairie there dwelled a band of clever crows. Merchants by occupation, the crows had invested their money in growing a low grade of corn. Looking around for potential customers, they spotted the high-flying eagles. “Sell them corn” was the battle cry of the crows as they plotted their persuasions. “Wrap the corn in a glittering package,” suggested one crow. “Get the eagles dependent upon us,” advised another. “Most important of all” one crow with considerable success in selling corn, “convince the eagles that our corn is not absolute must merely a need, but an absolute must. Persuade them that without it they will be lonely, loveless, lost. A good starting place is to load them with a false sense of guilt. Just make them feel guilty over ignoring our corn – and we’ve got them”!

Now, the eagles were intelligent enough, but somewhat careless in their thinking. Though they were cautious at first, the corn looked pretty good. Besides, it saved the effort of hunting around on their own.

So the eagles soared less and less and dropped down to the cornfields more and more. Of course, the less they flew, the less they felt like flying. Growing weak in their wings, they had to hop awkwardly over the ground. This led to frequent collisions with each other, followed by quarrels.

But there was one eagle whose eyesight also gave him insight. He sensed something very wrong about the whole operation. Besides, the corn just didn’t taste right. When he tried to persuade his friends to return to the mountains, the crows ridiculed him as trouble – maker . Believing the crows, the eagles shunned their former friend.

So the more corn the crows peddled, the more corn the eagles swallowed. But something had now happened to the once lofty kings of birds. They complained a lot. They were nervous and irritable. They felt lonely, loveless, lost. Every once in awhile they would remember their mountain home, but couldn’t remember the way back. And so they sullenly existed, hoping for something better to turn up, which never did.

Growing tired of it all, the keen – eyed eagle studied himself carefully. Discovering his wings, he tried them out . They worked ! So off the flew, back to the mountains. Grom dawn to sunset, he soared over his world, carefree and happy.

And this is how any man, tired of it all, can fly up and away to his natural freedom and happiness.

O PENSAR CLARAMENTE


Taveiros


Não há dificuldade que não tenha solução
Com o pensamento claro. Não precisamos
De mais nada. Isto parecerá de antemão,
Um método simplista, de ocasião,
Por que, todos nós nos habituamos

A soluções eruditas, e teorias complicadas.
Tudo o que precisamos é limpar a mente
Das ervas daninhas em nós enraizadas,
Tornando possíveis idéias arejadas;
Que um novo pensar purifique a gente!

Achamos que pensamos muito claramente,
Por mais que nos afetem conflitos de toda a ordem,
Não acreditamos em algo errado, simplesmente,
Em nossos processos mentais; e raramente
Nos apercebemos de tão grande desordem.

Confrontados pelo conflito, procuramos
Uma nova doutrina, ou popular divertimento,
Um rosto conhecido, ou alguém que amamos,
Na esperança do alívio que, nunca achamos,
E que em vez disso, nos traz sofrimento.

A situação lembra um homem na floresta
Cujo medo o leva a perder-se ainda mais,
Se sofremos perdas, solidão, isso atesta
Uma atitude errada, nada mais nos resta
Que pensar claro. Mas, fugir, jamais.

Precisamos entender a incapacidade
Da mente condicionada para resolver
Problemas. Ao contrário, não é novidade
Que ela é a causa deles. Não tem capacidade
Pra curar a si mesma, e nada pode fazer.

Pensemos agora num homem traído
Ou ofendido por alguém: o erro principal
Consiste em deixar que o fato seja trazido
À mente, e lhe diga: "devias ter reagido
Com muito mais firmeza de que a habitual".

O fato obriga-o a sentir-se furioso,
Obedece ao comando de pensar erradamente,
Com sentimentos feridos e, nervoso,
Diz o que lhe aconteceu, e de que está cioso
Da possível vingança que quer realmente.

Se não vê maneira de retribuir a afronta,
Passa vários filmes mentais de vingança;
Que coisa horrível! que cabeça tonta!
Não ouve ninguém, nada pra ele conta,
O mal pra si próprio, não tem semelhança!...

Tem um prazer nisso muito especial,
Sem saber que é grande o preço cobrado.
Como reagiria a isto um homem normal?
Não admitiria que nada de anormal
Ditasse a natureza do seu presente estado.

E, depois, pra ele, não existe traição,
Somente o eu egoístico se sente traído,
Somente o falso eu tem a percepção
Da injustiça. O eu verdadeiro não
Se faz de vítima: - é descontraído.

Temos que mudar os nossos pensamentos
Sobre nós mesmos. A maioria das pessoas
Não quer entender que, são seus intentos,
Que o levam a ter bons ou maus momentos,
E é a mente que faz as coisas más, ou boas.

Tomemos um pequeno aborrecimento,
E tentemos vê-lo de forma diferente,
Façamos um esforço sincero num momento,
Para interpretar esse acontecimento,
A pessoa, ou fato, à luz de nova mente!

Qual a principal causa da infelicidade?
Uns atribuem-na ao insucesso financeiro,
Outros falarão de qualquer dificuldade
E alguém falaria da incapacidade
De arranjar emprego, ou à falta de dinheiro.

Podemos concluir que: a infelicidade
Se deve aos desejos e à frustração.
Assim, a resolução, estaria na realidade
Em desejarmos apenas, sem ansiedade
O realmente necessário. Esta é a solução.

Mas é neste ponto que devemos meditar,
Precisamos perceber que há duas maneiras
De pensar. Certo ou errado – e estar
Atentos. A vaidade pode transformar
Necessidades falsas em as verdadeiras.



CONVERSA DE QUINTAL

Taveiros

No meu quintal vivem, em franca amizade,
Galinhas, galos, cão e passarinhos;
São todos um exemplo pra humanidade,
De boa harmonia como bons vizinhos.

Comem do mesmo prato, e da mesma refeição,
Bebem da mesma água no mesmo recipiente,
É sem dúvida uma bonita lição
De comportamento que ensina a gente.

Não há briga de raça, etnia ou fronteira.
Não pensam em doença, na vida ou na morte;
Não têm medo, tudo pra eles é brincadeira,
Sempre satisfeitos com sua própria sorte.

Às vezes conversam como qualquer amigo,
Sempre nos limites da boa educação,
Numa das conversas, disse pra comigo,
Está aqui um exemplo para reflexão.

Devíamos meditar no grau de parentesco,
Que há entre nós e em todos os seres vivos,
E afastar de nós o orgulho grotesco,
De sermos superiores sem termos motivos.

Numa das conversas, das que eu escutara,
Diz o galo ao cão: "porque ladras à lua?"
O cão respondeu que nunca ladrara
À lua. Vejo aonde não alcança a vista tua.

"E tu, porque cantas de olhos fechados?"
Pergunta o cão ao galo com curiosidade:
Sei a música de cor, e estão decorados
Todos os compassos, numa mesma clave.

Agora o cão pergunta à galinha com respeito:
"Quem nasceu primeiro, tu, ou o ovo?"
Pergunta à Natureza, que é com efeito
Quem desfolha a árvore, e faz nascer de novo
.

Neste momento o galo vê na bananeira,
Um pássaro comendo banana madura,
E pergunta de baixo: "qual é a maneira
De viveres assim livre de amargura?"

A pergunta do galo trouxe à minha mente,
"Não semeiam nem colhem, nem guardam em celeiro,"
Esta frase bíblica é efetivamente,
De muito mais valia que qualquer dinheiro.

E assim terminou aquela conversa,
À qual gostei muito haver assistido,
Vemos a verdade de forma inversa,
Ou não vemos nada, estou convencido!...


 

Enviada por Milton Larentis


A Galinha Vermelha...

Por Acitania Vargas de Oliveira

Uma galinha vermelha achou alguns grãos de trigo e disse a seus vizinhos:
- Se plantarmos este trigo, teremos pão para comer. Alguém quer me ajudar a plantá-lo?
- Eu não! - Disse a vaca.
- Nem eu! - Emendou o pato.
- Eu também não! - Falou o porco.
- Então eu mesma planto! - Disse a galinha vermelha.
E assim o fez.
O trigo cresceu alto e amadureceu em grãos dourados.
- Quem vai me ajudar a colher o trigo? - Quis saber a galinha.
- Não faz parte de minhas funções! - Disse o porco.
- Eu não me arriscaria a perder o seguro-desemprego! - Exclamou o pato.
- Então eu mesma colho! - Falou a galinha.
E colheu o trigo ela mesma.
Finalmente, chegou a hora de preparar o pão.
- Quem vai me ajudar a preparar o pão? - Indagou a galinha vermelha.
- Só se me pagarem hora extra! - Falou a vaca.
- Eu não posso por em risco meu auxílio-doença! - Emendou o pato.
- Eu fugi da escola e nunca aprendi a fazer pão! - Disse o porco.
Ela então assou cinco pães, e pôs todos numa cesta.
De repente, todo mundo queria pão, e exigiu um pedaço. Mas a galinha simplesmente disse:
"Não, eu vou comer os cinco pães, sozinha”.
- Lucros excessivos! - Gritou a vaca.
- Sanguessuga capitalista! - Exclamou o pato.
- Eu exijo direitos iguais! - Bradou o ganso.
O porco, esse só grunhiu.
Eles pintaram faixas e cartazes dizendo "Injustiça" e marcharam em protesto contra a galinha, gritando obscenidades.
Quando um agente do governo chegou, disse à galinhazinha vermelha:
- Você não pode ser assim egoísta!
- Mas eu ganhei esse pão com meu próprio suor! - Defendeu-se a galinha. Ninguém quis me ajudar!
- Exatamente! - Disse o funcionário do governo. - Essa é a beleza da livre empresa. Qualquer um aqui na fazenda pode ganhar o quanto quiser. Mas sob nossas modernas regulamentações governamentais, os trabalhadores mais produtivos têm que dividir o produto de seu trabalho com os que não fazem nada!
E todos viveram felizes para sempre, inclusive a pequena galinha vermelha, que sorriu e cacarejou:
- Eu estou grata! Eu estou grata!
Mas os vizinhos sempre se perguntavam por que a galinha nunca mais fez um pão, por que após um ano todos morreram de fome, e por que a fazenda faliu.........

Quando não se valoriza quem trabalha, corre-se o risco de entrar em falência moral, intelectual, social, econômica e cultural!”

 


 

Leon TOLSTOI
(Profeta de um mundo sem ódio)

Taveiros

Desceste ao povo por tua grande gentileza,
E com a vista mental viste os camponeses,
Viste seus sofrimentos, resignação e reveses.
Olhaste para, e dentro deles, a sua tristeza.

Criaste obras primas de realismo e beleza,
Contos infantis, histórias e quantas vezes
Uma torrente saía sem que a percebesses!
Nas tuas obras há uma imensa riqueza!

Salvo pela arte e pelo amor a Sofia,
Essa criança, com um terço da tua idade,
Voltaste à igreja: reexaminaste suas práticas,

E entras num período de plena alegria,
Submeteste-te às cerimônias com vontade,
Foi inútil. As coisas eram mais antipáticas.


N.R. O poeta Taveiros presta sua homenagem neste poema a Lev Nikoláievich Tolstói (Leon Tolstoi – 1828 – 1910). Nasceu na Rússia, numa família aristocrática. O pai,um conde e a mãe, uma princesa. Foi criado numa fazenda. Fez curso superior, mas abandonou os estudos em 1847, descontente com os métodos educacionais. Como militar, participou da Guerra da Criméia.

 

 

L U T E R O
O camponês que desafiou o Papa

Taveiros

O Papa Júlio II, de ingrata memória,
Para reconstruir a igreja do Vaticano,
Pediu que lhe mandassem dinheiro até profano,
Em troca de indulgência e grande glória.

Cada indulgência, era uma nota promissória
Sacada contra o céu, - reparava qualquer dano;
Lutero revoltou-se, como um ser humano,
D’ameaça de pena, principal e acessória.

O Papa nesse tempo, era o maior pistolão
Aos chefes do céu, mais concretamente,
Se nada se desse, era o inferno por morada,

Transformava indulgências em um dinheirão,
Se déssemos pouco, tínhamos forçosamente
De no purgatório passar longa temporada!

 

Caro professor Flávio P. Ramos

“Ao olhar para as minhas estantes de livros neste carnaval fui atraído para um: “O Brasil que os poetas cantam”, uma coletânea de poesia feita por Edgard Resende e Editora Freitas Bastos. Deliciei-me de rever poetas e poesia de tamanha beleza!.
Meu Deus! Como o Brasil foi grande em literatura no século 19!
Um dia, nos Estados Unidos ouvi de um grande economista dizer que o Brasil no meio do Século 19 era mais rico que os Estados Unidos! A julgar pela literatura... Como caiu tanto! Não resisto a transcrever dois sonetos desse extraordinário Olavo Bilac.”
Um grande abraço do
Taveiros.

N.R. O curriculum e a experiência de vida e a cultura universalista de Taveiros (Dr. Evaristo Dias da Silva) o qualificam para ver onde os jovens não podem ver, porque ainda não viveram o suficiente para tal.
Hoje, a maioria dos jovens mal sabe ler e verbalizar, pouco conhecem de literatura e poesia e menos ainda de política. Falta-lhes o conhecimento da filosofia e professores com total dedicação e remuneração à altura da importante tarefa que é “Arte de ensinar”.
FPR

Veja reportagem com Taveiros no início desta página.

P Á T R I A

Olavo Bilac

Pátria, latejo em ti, no teu lenho, por onde
Circulo! E sou perfume, e sombra, e sol, e orvalho!
E, em seiva, no teu clamor a minha voz responde,
E subo do teu cerne ao céu de galho em galho!

Dos teus liquens, dos teus cipós, da tua fronde,
Do ninho que gorjeia em teu doce agasalho,
Do fruto a amadurar que em teu seio se esconde,
De ti, - rebento em luz e em cânticos me espalho!

Vivo, choro em teu pranto; e, em teus dias felizes,
No alto, como uma flor, em ti, pompeio e exulto!
E eu, morto, - sendo tu cheia de cicatrizes,

Tu golpeada e insultada, - eu tremerei sepulto:
E os meus ossos no chão, como as tuas raízes,
Se estorcerão de dor, sofrendo o golpe e o insulto!

MÚSICA BRASILEIRA

Olavo Bilac

Tens, às vezes, o fogo soberano
Do amor: encerras na cadência, acesa
Em requebros e encantos de impureza,
Todo o feitiço do pecado humano.

Mas, sobre essa volúpia, erra a tristeza
Dos desertos, das matas e do oceano:
Bárbara poracé, banzo africano,
E soluços de trova portuguesa.

És samba e jongo, chiba e fado, cujos
Acordes são desejos e orfandades
De selvagens, cativos e marujos:

E em nostalgias e paixões consistes,
Lasciva dor, beijo de três saudades,
Flor amorosa de três raças tristes.



A LENDA E A HISTÓRIA

Taveiros

Para mim, a lenda sobrepõe-se, não raras vezes, à história, porque aparece embandeirada com outras cores, riscada em outros moldes, e caracterizada por uma irresponsabilidade despretenciosa.

Se não fora a lenda que ainda hoje envolve e perfuma a memória de Inês de Castro, por exemplo, como teria Camões escrito as suas maravilhosas estâncias?

Isto vem a propósito de um desapontamento que sofri há dias, ao ver destruída, num instante, uma Lenda estranha, pela realidade dos fatos.

Vou contar:

No meu quarto ano ginasial, fazia parte do programa a “História da Roma”. O livro adotado era, se bem me lembro, de autoria de João Soares, professor do Colégio Militar.

Logo que o adquiri, comecei a folheá-lo, vagamente. A certa altura deparou-se-me uma gravura representando uma Loba, amamentando dois meninos, o Rômulo e o Remo, filhos de Marte e de uma Vestal, que tinham sido abandonada junto do Rio Tibre.

O Rômulo, como sabemos, viria a ser (lendariamente falando) fundador e primeiro Rei de Roma, aí por setecentos e poucos a.C., tendo perecido no meio de uma tempestade, depois de ter assassinado o próprio irmão.

Tudo isto despertava a minha curiosidade de adolescente. O Professor argumentava que nada pertencia à história, mas tudo à lenda. Eu, porém, admitia os fatos ipsis literis como firmados por escritura.

E aquela Loba feia, feroz, de tetas agressivas e volumosas onde o Rômulo e Remo mamavam à farta, gesticulando, entusiasmava-me.

Pois bem, há dias, consultando uma enciclopédia, descobri, sem querer, uma terrível verdade que embaciou o deslumbramento dos meus verdes anos. A Loba – não era Loba; era apenas uma mulher com o apelido de Loba.

Chamava-se Aca Larência e era esposa de Fáutulo. Foi ela que recolheu os dois meninos e os amamentou como seus.

Tudo caiu por terra... Dizia-me certa vez um amigo jornalista: Um cão que morde um homem, não é notícia para jornal; mas se é o homem que morde o cão, o caso muda de figura. Posso parafrasear: Uma mulher amamentando dois meninos, não constitui notícia; mas uma Loba pôr à disposição de duas crianças o se próprio leite – isso já constitui. Enfim... quero declarar neste meu desapontamento que não vou ao extremo de ser injusto de desprezar Aca Larência. Faltou-lhe a pele negra da Loba? Sem dúvida. Mas não lhe faltou a fonte da vida onde Rômulo e Remo se saciaram... como dois Lobinhos.




Em Poços de Caldas

Taveiros

As roseiras ostentavam rosas amarelas
E vermelhas recendentes de perfume!
Abelhas tranqüilas como de costume
Passam todo o tempo volitando nelas!

Poços de Caldas, cidade das mais belas!
À tua beleza ninguém fica imune!
Tudo é encanto – Nenhum azedume,
E nesta cidade não se vê mazelas!

Tudo aqui é mais docemente sensitivo,
A Natureza parece ter como objetivo
Proporcionar-nos sensação após sensação!

E o sol poente, cheio de luz dourada,
Despede-se desta cidade encantada,
E tão docemente chegada ao coração!



O AMOR

Taveiros

O amor é luz na obscuridade,
É estrela matutina e crepuscular,
Magia e beleza que nos faz sonhar,
É a mãe da arte, do poeta a liberdade.

É o grande sonho da imortalidade,
Perfume de flores a desabrochar,
Desejo sagrado, de fazer sonhar,
Melodia, música, e felicidade!

É do amor que a terra toma emprestada
A sua beleza - e os céus a sua glória;
É transfiguração - a criação manifestada;

Sem o amor, toda a glória se esvaece,
O nobre é ignóbil, a arte, a música, morrem,
A virtude esvai-se - e a vida perece.


 

O ÚNICO ARTISTA

Taveiros

Quem é o pintor? Quem é? Quem é o pintor
Que por minhas mãos pinta estas telas?
Seja quem for (que tem) seja quem for!
Vive na luz do sol e no breu das celas

E como pinta? – Como encontra a cor
Da natureza? - Quentes amarelas...
Cachoeiras? Cachos d’água em flor...
Daqueles jardins? Flores tão belas!...

E as árvores? – como elas são as mães
Num estado de graça e parabéns
Em longos esplendorosos serões...

São as mães com o seu fruto nos regaços
E choram – e desfazem-se em abraços
Que a gente sabe dar em corações!


 

“To be or not to be”
SER OU NÃO SER

Taveiros


Podemos pintar maravilhosamente,
Pensar e escrever poemas de dar gosto ler,
Possuir as técnicas, mas podemos não ser
Artistas criadores. Sim, certamente.

Mesmo perfeitos. Podemos realmente
Não ser poetas. Ser poeta implica ter
Sensibilidade para reagir e perceber
O Novo, que conosco sempre está presente.

Precisamos saber que a mente abarrotada
De técnicas, de fatos, de conhecimento,
Será incapaz de receber qualquer novidade

Espontânea, ou alguma coisa inesperada.
Se a nossa mente está baseada no pensamento,
Não haverá espaço para surgir a Verdade!



 


 




I M A G I N E

Taveiros

Se há um limite para a imaginação humana,
Ninguém o viu ainda e, tudo o que emana
De um poder mais alto, pode se alcançar
Se o homem for capaz de nele acreditar.

A imaginação humana nestes 60 anos
Tem sido muito fértil, salvo desenganos,
Tem atingido resultados notáveis.
O computador, o fax, - são incomparáveis,
A viagem à lua, a telefonia celular,
A engenharia genética é exemplar,
A gravação da voz e da imagem,
E o feito mais recente, - a clonagem.
Assistimos a uma transição espantosa
Do mundo antigo, para uma assombrosa
Época moderna. E de todas as maneiras,
Do mundo de limites, para o sem fronteiras.
Mas no interior, no mundo psicológico,
Que é o que interessa e, o que é mais lógico,
Continuamos na idade da pedra. Estamos
Voltados para o exterior. Continuamos
Com o mesmo medo, cobiça, intolerância,
Egoísmo, raiva, ódio, arrogância,
Ciúme, impaciência, astúcia, falsidade,
Injustiça, calúnia, desonestidade,
Vaidade, crueldade, deslealdade, vingança,
Inveja, hipocondria, indecisão, desesperança.
O medo nega-nos a força do pensamento,
A cobiça pelas coisas, tira o sentimento
De irmandade dos homens e, ofende o Criador.
A intolerância impede a entrada dos fatos,
Repele a cooperação e os bons contatos.
O egoísmo que faz com que o homem perca
O respeito pelo próximo. A raiva acerca
De outra pessoa, pode impedir-nos de conhecer
O Segredo Supremo e, assim O perder.
O ciúme, que é uma mistura de ambição
E medo. A impaciência, que faz a causa não
Produzir efeito. A astúcia que engana
O astucioso. A injustiça, e a desonestidade,
A vaidade, calúnia, vingança, deslealdade,
São inimigos que precisam ser vencidos,
Se quisermos um mundo de homens unidos.

Olhemos o mundo e, veremos motins estudantis,
Preconceitos de classes e, outras coisas imbecis,
Guerras, divisões causadas por nacionalidades,
Religiões, etnias e imoralidades.
Porque aceitamos o ambiente pseudo-moral,
Sabendo que ele é de todo e, em todo imoral?
Porque o nosso sistema educativo
Não produz ente humano criativo
Mas, apenas e só, entidades mecânicas,
Educadas, mas em nada dinâmicas?
A educação, a ciência, e as religiões
Não resolveram nada do que as gerações
Precisavam. Vendo toda essa confusão,
Porque é que cada um de nós aceita
E se conforma com essa visão estreita
Dentro de nós mesmos? Vendo-se tudo isso,
As guerras absurdas e, para além disso
Nacionalidades, divisões criadas
Pelas religiões por homens inventadas.
Nossa questão é esta: poderemos mudar
Radicalmente agora e, assim retirar
O lixo acumulado durante séculos pela
Propaganda, pelo medo daquela
Condenação eterna e, outras influências,
Ter paz de espírito, sem temer conseqüências,
Com grande amor e mente revigorada,
Juvenil, inocente, livre e purificada
E, assim, viver em paz? Continuamos
A viver enredados nas palavras que gostamos!
Mas a palavra nunca é a coisa; a descrição,
Nunca é a coisa descrita! mas uma convenção.
Se a rosa se chamasse batata, perderia
A sua beleza, o seu perfume? Ou seria
A mesma coisa? A mesa em que estou escrevendo
Poderia chamar-se cadeira e, esta, tendo
O mesmo formato, chamar-se mesa...

O homem já tentou tudo. Já se disse
Que em se alterando e, a política se revisse,
Como o fizeram todas as revoluções
Sangrentas da história, com os seus canhões,
O homem, o ser humano, seria feliz e mudaria.
Os comunistas e, outros revolucionários
Têm dito: "Estabeleça-se o poder dos operários
E haverá ordem." Dizem que a ordem interior
É sem importância, importante é a exterior!

A ordem ideológica é completa fantasia
E, milhões de homens, morreram nessa utopia!
Imaginemos um mundo melhor e, tê-lo-emos,
Pode ser em dez mil anos mas, amemos
Os nossos semelhantes. Estabeleçamos a paz
Com que John Lennon sonhara e, que me apraz
Sonhá-la também. Juntemo-nos a ele
Neste grito de alerta. Neste "IMAGINE" dele:
Imagine all the people/ living for today
(Imagine todas as pessoas/ vivendo o hoje, o agora)
Imagine all the people/ living life in peace
(Imagine todas as pessoas/ vivendo a vida em paz)
You may say I'm a dreamer/ but I'm not the only one
(Você pode dizer que sou um sonhador,/ mas não estou sozinho)
I hope someday you'll join us/ and the world will be as one
(Espero que algum dia estaremos juntos/ e o mundo será uno).

Morreu sem ver o seu sonho concretizado,
Nós morreremos também e, neste estado
A humanidade continua cega, dormindo,
Sonhando, até quando? Para onde estamos indo?...


 


UM ARTISTA DESCOBRE O SEU TALENTO

Taveiros

Há alguns anos, numa grande cidade,
Vivia um homem, cheio de vontade,
Que sacrificara, sua juventude
Em prol da perfeição, dalguma virtude.
Ele amava tanto o mar e a pintura
Que, considerando o tempo e a procura,
Deveria ser um mestre em sua arte, mas não era.
Tinha muita garra, vontade de fera,
De alguma forma a arte lhe escapava,
As suas pinturas, alguém lhe falava,
Não eram de um amador principiante,
Revelavam a mão de um artista latente,
Mesmo assim pareciam sempre clichês,
Como descrevessem algo, cada vez
Mais parecidos. As pessoas olhavam
Os quadros. E sempre comentavam
Que já os tinham visto. Mas é obvio que não,
Os quadros se pareciam no mesmo diapasão.
O pintor até que entendia tudo isto,

E o seu trabalho estava por isso
Assim profundamente insatisfatório,
E dizia quando ouvia o falatório,
Que quando tem idéia para uma nova obra,
Fica feliz, dedica-se e assim recobra
O entusiasmo, mas, à medida que trabalha,
Não é o que sonhou, há alguma falha,
É algo inexpressivo, é repetição,
Fica deprimido, acha reprodução.
Reconhece dentro dele bastante talento,
Quer trazê-lo à tona falta-lhe o alento;
Certa vez com raiva queimou todas as telas,
Quase incendiou as portas e janelas,

De outra feita, teve tanta irritação,
Que dilacerou os dedos na intenção
De decepá-los. Tudo isto é sintoma,
E pode indicar uma grande soma
De uma forte angústia e inquietação.
De um grande desejo ou insatisfação.
Como as lições que, a vida em apreço,
Seu esclarecimento custou alto preço,
Desistiu de ser pintor definitivamente.
Viajou de navio, foi pra Noruega,
Era época de guerra, e naquela refrega,
Foi atingido por submarino alemão,
O navio afundou, ele e seu irmão,

Foram parar num bote salva-vidas,
Em águas geladas e muito divididas
Pelos alemães e pelos aliados,
Durante vários dias, e mal alimentados,
Ao sabor das ondas, e com um frio intenso
Tentam sobreviver. Seu medo é imenso,
O céu clareou, e vejam que perigo,
Foram alvejados pelo inimigo,
Dez homens morreram, seu irmão e tio,
No dia seguinte, morreram mais de frio,
E, do bote do pintor, só ficaram dois:
Ele e o comissário que, soube depois,
Estar muito ferido, e o que mais sofria,
E que com surpresa ainda vivia.
É inútil - disse o pintor, por fim,
Não temos nenhuma chance e, assim,

Seria melhor logo mergulhar,
E, de uma vez, com tudo acabar
.

Não vamos decidir, diz-lhe aquele ferido,
Quem então? Perguntou o pintor aturdido.
Decidimos nascer? Perguntou com autoridade
Escolhemos a nossa raça ou nacionalidade?
Alguém, permitiu estarmos aqui a sós.
Acalme-se, e escute, talvez ouça uma voz
Interior; aí, saberá se está na hora ou não.

O fim parecia próximo. E certamente, então,
Era inútil lutar mais. Pela primeira vez
O pintor deixou que algo, além talvez
Do seu próprio ego decidisse seu destino.
O frio cortante da noite foi um ensino
E teste de resistência. Antes de anoitecer,
Um hidravião inglês fez-se aparecer
Por entre o nevoeiro com grande ruído,
Localizou-os e recolheu-os, o ferido
E o pintor, os únicos que sobreviveram.
Já dentro da nave, os dois se aqueceram,
Até chegarem a um hospital inglês.

A convalescência durara um mês,
Após a qual tentou pintar novamente,
O que surgiu na tela foi surpreendente,
Foi como se outra mão, guiasse a mão dele
E escolhesse as cores, pintasse pra ele,
Olhando a pintura, sentiu-se invadido
Por uma onda de alegria, e decidido
A não mais agir por ele. Este era o talento
Que ele procurava, e este o momento
De o ver brotar. Pintou doze telas
Em curto espaço de tempo, e todas elas,
Fizeram sucesso grande e imediato,

Começou a vender muito, sem vender barato,
Teve uma carreira longa e notável,
Quando lhe perguntaram a forma agradável,
Como amadurou o seu talento assim.
Ele não amadurou, já estava em mim.
Só que não brotava, achei me pertencia,
Logo que pude ver, acabou essa mania,
Algo que não sei, extirpou-me a utopia.


 

O QUIOSQUE DO LARGO DE SÃO FRANCISCO

Taveiros
 
 


Apesar de colegas desde o primeiro ano do ginásio, no Colégio Sion de Petrópolis, Vitoresa e Atorisev mal se conheciam. Naquele tempo as garotas e rapazes dificilmente se misturavam. As salas eram separadas, (masculino e feminino); depois das aulas, as garotas tomavam o caminho de casa sem olharem para os lados. Os raros namoros eram tímidos e originavam críticas das beatas e das solteironas inconformadas.

O segundo ano científico estava chegando ao fim. Sofria-se o nervosismo das provas. No intervalo das provas as garotas e rapazes quebravam a distância de todo o ano para saberem uns dos outros como deveriam ter respondido a esta ou àquela questão.

- Como foi de prova de matemática? - perguntou Atorisev.

- Mais ou menos... e você? Respondeu e perguntou Vitoresa, de olhos nos apontamentos.

- Mal... a matemática não quer nada comi... Atorisev não terminou o que queria dizer. Vitoresa tinha levantado os olhos dos apontamentos e fixado pela primeira vez o seu colega.

Nem um nem outro souberam explicar jamais a si próprios o que lhes aconteceu em tão poucos segundos. Deram os olhos como se tivessem dado as mãos e a alma para toda a vida, sem pronunciarem uma só palavra. Foi longo e doce o sofrimento que preencheu a insônia de cada um, naquela primeira noite sem fim das suas vidas a desabrochar.

Acabadas as provas, começou a dolorosa angústia das férias, por sentirem que não podiam encontrar-se. Vitoresa era filha de um modesto dono de tipografia, em cujo sobrado morava com a mulher e seis filhos. Cedo as obrigações domésticas lhe começavam a roubar a juventude. E era nas férias que mais ajudava a mãe naqueles serviços que não cabem no dia a dia das famílias numerosas.

Atorisev Lasiv, carioca, filho de judeus russos refugiados da revolução russa de 1917, estudava em Petrópolis onde os pais tinham casa de campo, e onde achavam melhor o colégio. Durante a semana, ficava só com uma empregada, e aos fins de semana, recebia o convívio da família.

O regresso às aulas foi a esperança dos dois. Cultivaram em solidão o doce sofrimento do primeiro amor.

Mas para Vitoresa não houve regresso às aulas, nem ao convívio das suas poucas relações no colégio.

O pai, bêbedo e fumando sem cessar, botou fogo à Tipografia uma noite em que teve de trabalhar até mais tarde para terminar um serviço urgente. Ele ficou no braseiro até aos trabalhos de rescaldo. A família dormindo por cima da oficina, a muito custo se pode salvar, àquela hora da noite e de maior silêncio na cidade. A mãe e os dois filhos mais novos vieram a falecer dias depois, não sobrevivendo às extensas queimaduras.

Vitoresa e os três irmãos, todos rapazes, embora muito marcados, não tiveram ferimentos de maior importância. O movimento de solidariedade que se gerou por toda Petrópolis acolheu os rapazes à saída do hospital e logo os colocou no comércio da cidade e a morar com os patrões.

Uma queimadura na face aparentemente sem importância, foi retendo Vitoresa no hospital. O desgosto da tragédia ainda não se extinguira nos seus olhos, e parecia realçar uma estranha e profunda beleza a despontar. Infeliz, bela e delicada, foi ganhando o carinho dos médicos, enfermeiros, e dos outros doentes. Os médicos fizeram o possível e o impossível para lhe evitar qualquer deformidade. Não obstante, a queimadura exposta não cedia, obrigando-os a transferir a sua querida doente para o hospital da Beneficência Portuguesa do Rio de Janeiro, na época o melhor da Capital da República.

Os médicos, mais afetiva que profissionalmente contrariados, juntaram aos papéis de transferência uma comovida carta de recomendação aos colegas da Beneficência.

Não seria preciso. Vitoresa logo cativou todas as pessoas no Hospital com a serena resignação do seu drama e a estranha beleza dos seus olhos tristes.

Apesar das técnicas mais atualizadas, de todos os cuidados e carinhos, Vitoresa parecia fugir à sorte. De enxerto em enxerto, de insucesso em insucesso, a face esquerda acabou por ficar muito atrofiada, com um certo repuxamento da pálpebra. Foi ela própria a pedir aos cirurgiões que a deixassem assim. Preferiu conformar-se a correr o risco de ficar pior.

Sem casa em Petrópolis, com os irmãos dispersos e, completamente desconhecida na Capital da República, receava o dia da alta como um novo ato do seu drama.

Este receio não escapou a D. Rosevati, uma senhora italiana cheia de amor ao próximo, visitadora de Asilos e Hospitais, esposa do português Taveiros Vilas, o mais conhecido livreiro do centro do Rio.

- Olha, Vitoresa, tenho andado a pensar no teu destino, quando saíres do Hospital.

- Muito obrigada, senhora...

- Não me agradeças e não me interrompas... ouve com atenção: meu marido tem uma boa Livraria na Rua da Quitanda onde moramos, e um Quiosque no Largo de São Francisco no ponto final do Bonde. Anda sempre de um lado para o outro por que não confia no gerente da Livraria, e o homem que toma conta do Quiosque agora deu para beber e está muito chato.

- Há dias, falei-lhe em ti, no que te aconteceu e, sobretudo, no que te pode acontecer...

- Madame...

- Não se devem interromper as pessoas mais velhas, minha filha... falta pouco para saberes o que te venho propor.

- Desculpe... deixa lá... encurtando a conversa: meu marido aceitou em te empregar na Livraria e não se importa que fiques morando conosco. Satisfeita?

- Mas eu... mas eu o que... não te faltam condições para seres uma boa funcionária. Tens o segundo ano científico, és uma moça de quem todo o mundo gosta, e nós, sem filhos, não ficaremos tão sós naquela casa imensa.

- Não sei se...

- não sabes o quê?! - perguntou surpreendida D. Rosevati.

- Se... se com este defeito no rosto posso estar a um balcão...- respondeu Vitoresa, num fio de voz e olhos no chão.

D. Rosevati ficou também de olhos no chão e em silêncio, por uns momentos; depois, reagiu com mal disfarçada ternura: - Não voltes a falar no teu defeito a ninguém. Tens beleza e qualidades que chegam para o fazer esquecer, minha filha... Tu própria, com o tempo, te esquecerás...

Vitoresa não podia esquecer a deformidade que lhe apanhava toda a face esquerda, da pálpebra à linha do queixo. Os freqüentadores da livraria já tinham achado o jeito de olhar sem ver a cicatriz, quando falavam com ela e, da mesma forma, as visitas em casa. D. Rosevati e seu marido, pouco a pouco a foram tratando como pessoa da família, sem qualquer inibição de parte a parte. Mas outros clientes esporádicos, marcavam-na com os seus comentários, até ao fundo da alma a cicatriz da face.

- Como foi isso menina? Perguntava um.

- Oh!... que pena...lamentava outro.

Seis anos se passaram. Vitoresa já era o braço direito de Taveiros Vilas que muito cedo se apercebeu da sua queda para o negócio. Em casa dos patrões veio a preencher, com grande satisfação de ambos, aquele vazio de que só os casais sem filhos conhecem o desconsolo.

Há tempos que Vitoresa vinha estranhando, dia para dia, o comportamento do patrão. Voltou a ficar muitas vezes até ao fechar da Livraria, fitava-a de maneira estranha quando, a sós no escritório, encerravam o movimento diário e tossia como se alguma coisa o incomodasse profundamente..

Um dia, tudo se esclareceu. Como era feriado, D. Rosevati andaria, por toda a tarde, a visitar Asilos e Hospitais. Vitoresa, diante de tantas hora livres, aproveitava para limpar cuidadosamente quadros e cortinas. Taveiros Vilas, muito rígido e em silêncio lia o jornal sem mudar de folha há muito tempo...

Vitoresa pressentiu que o patrão se levantara e caminhava para ela, dissimuladamente, como um gato. Ao voltar-se, de repente, viu Taveiros Vilas diante de si, de olhos brilhantes e braços meio erguidos na sua direção.

- Vitoresa, eu... - balbuciou, já de olhar e braços caídos.

- Não diga nem mais uma palavra!... Sairei ainda hoje desta casa! - cortou Vitoresa, de lábios apertados pelo ódio que lhe incendiava os olhos.

- Desculpa tudo que em mim adivinhaste. Dá-me uns dias para resolver a tua vida, sem que minha santa mulher se aperceba de nada. Por amor de Deus! - implorou Taveiros Vilas, de expressão desfeita.

- Está bem ...condescendeu Vitoresa, segundos depois de um pesado silêncio.
Um pouco contrariada, a princípio, D. Rosevati acabou por concordar com o marido. Sim...Vitoresa merecia conhecer o sabor da independência...ser ela própria em todas as horas do dia...

Venderiam-lhe, por preço simbólico, o Quiosque do Largo de S. Francisco e sairia de casa quando quisesse, tão logo arranjasse um cantinho a seu gosto.

Cedo, Vitoresa arranjou uma boa casinha na Rua Visconde do Rio Branco, bem perto do Largo de São Francisco. Para lá se mudou no mesmo dia em que Taveiros Vilas fez a escritura e lhe entregou as chaves do Quiosque na presença de D. Rosevati, comovida até às lágrimas.

Passaram doze anos de vida pendular. Casa...Quiosque...Casa...Quiosque... Casa... Vitoresa raramente aceitava os convites de D. Rosevati para almoçar ou jantar. A boa senhora, sem nunca desconfiar do ressentimento incurável da sua protegida, dizia-lhe às vezes: o dinheiro está te estragando, menina... estás cada vez mais irreconhecível!

Vitoresa era feliz em sua casinha. Por suas mãos a foi decorando e mobilando com muito gosto e com muito gasto. O negócio corria bem e ela tinha uma espécie de prazer vingativo, ao comprar o melhor sem olhar o custo. A cozinhar e a ouvir música, ou a ler, nunca se aborrecia em seu pequeno mundo. Seu e do Evatoris, um belo gato siamês que comprara por um bom preço para lhe fazer companhia. Valeu o dinheiro. Evatoris era um companheiro quase humano. Entendia gestos e palavras, comportando-se em perfeita harmonia com o estado de espírito da sua dona.

Vitoresa só não era feliz entre a Rua Visconde do Rio Branco e o Largo de São Francisco.

No inverno, com a gola da blusa subida, conseguia esconder dos olhos dos pedestres a horrenda cicatriz da face. Mas, em pleno verão, o caminho sempre lhe parecia dolorosamente longo. No Quiosque voltava à felicidade plena de quem sabe cultivar a solidão.

Do Quiosque, pela abertura estreita debruada a jornais e revistas, Vitoresa oferecia sempre aos olhos dos seus clientes o lado perfeito da face. Perfeito e belo. Tão belo que não era raro algum homem de fora da cidade, ficar por ali rondando ou de conversa fiada na compra de cigarros ou jornais. Vitoresa corria-os, mostrando-lhes, disfarçadamente, a cicatriz repugnante. E era vê-los paralisados de espanto e, depois, atravessarem o Largo como cães escorraçados.

Eram já poucas as pessoas que atravessavam o Largo de São Francisco naquele entardecer de 24 de dezembro. A cidade ia-se aconchegando para a noite de consoada.

Vitoresa sentia uma satisfação crescente, ao aproximar-se a hora de ir para casa preparar a comida e comer sozinha a ceia de Natal. Era o primeiro ano que não tinha que fazer o sacrifício de consoar na presença de Taveiros Vilas. O casal tinha morrido em desastre de ônibus, em peregrinação à Aparecida do Norte.

Começara já a recolher as revistas e jornais expostos em redor da abertura do Quiosque, quando reparou num homem atravessando o Largo com todo o aspecto de se dirigir para lá. Pela roupa e pela atitude logo lhe pareceu ser uma pessoa de fora.

Quando o cavalheiro ficou a um metro de distância e à luz do candeeiro mais próximo, Vitoresa sentiu o abalo mais profundo de todos os abalos da sua vida. Reconhecera Atorisev, como se tivesse deixado de o ver, uns dias antes, no fim do segundo ano do colégio.

Atosisev, com os olhos numa revista, pediu:

- O jornal de Notícias, por favor...

Como não ouvisse o mínimo ruído de resposta, levantou os olhos intrigado. Vitoresa fitava-o imóvel como uma estátua viva. Logo a reconheceu, e perguntou, quando pôde falar:

- N... não é a Vitoresa?...

- Foram jantar no restaurante da Confeitaria Colombo na Rua Gonçalves Dias que lhes pareceu mais recolhido.

- Um restaurante de luxo quase vazio naquela noite familiar. Comeram mecanicamente o que mecanicamente haviam escolhido. Só tinham olhos um para o outro. Olhos e palavras.

No fim do jantar tinham contado as suas vidas com o detalhe e o deleite de uma posse mútua.

Atorisev, filho único, perdera os pais em menos de um ano, logo após terminar o curso de medicina na Universidade Federal da Praia Vermelha, e como nada mais o prendesse ao Rio de Janeiro, fora para os Estados Unidos onde era cirurgião no Beth Israel Hospital, da escola de Medicina da Harvard University, em Boston-Massachusetts, um dos trinta cirurgiões mais famosos da América, e autor de vários livros da especialidade. Viera de férias matar saudades do país e da sua cidade.

Já na rua, Vitoresa manifestou vontade de lhe mostrar a sua casa e dar comida ao Evatoris que já deveria andar pelos cantos da casa a miar a sua estranheza.

- Boa idéia!... e vamos voltar e comprar um bolo e uma garrafa de champanhe. Natal é
Natal! - exclamou Atorisev, apertando o braço de Vitoresa, cheio de entusiasmo.

Apesar de acostumado ao conforto da América, o bom gosto e o aconchego daquela casa logo o cativaram. E não pode mesmo evitar uma certa emoção, quando o Adágio de Albinoni o envolveu como um perfume raro que lhe trouxesse os mais delicados sentimentos perdidos. E, antes que a comoção o atraiçoasse, propôs a Vitoresa, que andava a tratar da comida do Evatoris:

- E se provássemos o bolo e bebêssemos uma taça de champanhe?

- Já vou, Atorisev, já vou... deixe-me só tratar deste chato que está meio zangado comigo por ter chegado tarde!

As mãos de Atorisev e Vitoresa encontraram-se ao tentarem ambos desfazer o embrulho do bolo. Detiveram-se por instantes. Depois subiram até aos ombros, com os corpos já percorridos por um frêmito de desejo.

Acordaram tarde com o Evatoris a miar junto ao prato vazio que Vitoresa enchia todas as manhãs.


 
 
 
 


O A D V O G A D O

Taveiros

Aquele de quem se pudesse dizer:
é o estudioso do direito de todos, e o defensor
do direito de cada um.
Segundo esse paradigma não há
nenhum.
Os advogados, são apenas, os defensores
dos seus clientes,
e como advogados
a mais não se sentem obrigados.
Tenham os seus clientes
razão
ou não,
eles os servem sempre. É que, se os não
servissem, caiam-lhe os dentes.
E a juntar às suas contas, ainda
teriam as do dentista.

Faz-se um curso de Direito, não para,
como jurista,
endireitar o mundo (utopia)
mas para endireitar a sua economia.
E, então, se for preciso, o próprio
advogado não será escrupuloso
e defenderá um criminoso.
Não terá, então, relutância em usar
de sofismas.
Ver o direito por vários prismas,
mas sempre com primazia
daquilo que lhe meta dinheiro no bolso
e o mais é utopia!
No ganhar
ou não ganhar,
está a sua filosofia,
a sua ideologia.
Um famoso jurisconsulto, de grande
sabedoria e cultura,
dizia, dando o seu recado,
ao advogado:
“Não faça da banca balcão, ou da ciência
mercadoria”
Perdeu o seu tempo e o seu latim:
a coisa continua assim:
banca =balcão
direito
como der mais jeito.
Para prêmio de consolação há quem
se atreva a dizer:
“é preciso ter coragem de perder”.
Os advogados, porém, não nasceram
com vocação para santos,
pelo que tudo continua como dantes,
no quartel general de Abrantes!

 
     
     
     
     
     
 


OLAVO BILAC

Taveiros

De nada valeram os meus argumentos e a minha alegada falta de tempo; uma amiga muito querida, Ermelinda Adamo Affonso, escritora e jornalista, entra-me pela casa dentro a exigir-me que eu revisasse um seu livro recém escrito denominado “A vida e obra de Olavo Bilac”.

O livro tinha o prefácio do notável presidente da ABI, Austregésilo de Ataíde, e fora escrito com grande verve, excelente pesquisa histórica e agudo senso de humor. Foi pena que não tivesse sido publicado; a autora falecera quando estava tudo pronto para a impressão, e a família não se interessou em fazê-lo.

Mas, aquilo que à primeira vista me pareceu uma tarefa difícil e trabalhosa, constituiu-se num grande prazer e deleite. Permitiu-me conhecer a sua infância e adolescência, por exemplo: o nome dele que hoje conhecemos, Olavo Braz Martins dos Guimarães Bilac e que forma um alexandrino perfeito, no nome dele de batismo não há o Bilac. O Bilac foi acrescentado em homenagem ao padrinho, um comerciante português de secos e molhados da Rua da Vala, hoje Uruguaiana, que quando o pequeno Olavo, seu afilhado, aparecia lá pelo estabelecimento, enchia-lhe os bolsos de guloseimas, e chamava-o de brincadeira de “bilhaco, bilhaco” (Velhaco) e foi assim que nasceu esta corruptela, Bilac. A sua infância fora difícil com o pai combatendo na guerra do Paraguai. Quis estudar Medicina, desistiu para estudar Direito em São Paulo. Foi grande namorador, mas nada a sério. O que gostava mesmo era a conversa com os amigos da Rua do Ouvidor. Namorou a irmã do também parnasiano Alberto de Oliveira, Amélia de Oliveira, esta também grande poeta, e vejam que soneto intitulado “Prece” que ela lhe escreve:

Não te peço a ventura desejada,
Nem os sonhos que outrora tu me deste;
Nem a santa alegria que puseste,
Nesta doce esperança já passada.

O futuro de amor que prometeste
Não te peço! Minh´alma angustiada
Já te não pede, do impossível, nada,
Já não te lembras aquilo que esqueceste...

Nesta mágoa sorvida ocultamente,
Nesta saudade atroz que me deixaste,
Neste pranto que choro inda por ti.

Nada te peço, Nada. Tão somente
Peço-te agora, a paz que me roubaste,
Peço-te agora, a vida que perdi.

Olavo Bilac publicou o seu primeiro livro, Poesias, em São Paulo quando estudava Direito, em l888, reunindo os poemas escritos entre 1884 e 1887. O livro se compunha de 3 partes cada qual trazendo uma característica própria, na harmonia do verso escorreito e trabalhado: Panóplias, Via Láctea e Sarças de Fogo.

Os trinta e cinco sonetos da Via Láctea estão entre os mais belos da língua portuguesa. Tomando o amor como inspiração essencial de seu verso, Bilac renova o tema com um tom pessoal e inconfundível, e é preciso retroceder ao lirismo camoniano para situar-lhe as raízes evidentes. Até mesmo o desdém do poeta aos que possam zombar do tom profundamente lírico do seu verso, no último soneto da coletânea, tem a força das obras definitivas:

Pouco me importa que mofeis sorrindo
Destes versos puríssimos e santos;
Porque, nisto de amor e íntimos prantos,
Dos louvores do público prescindo.

Sonetista exímio, dos maiores da nossa língua e mesmo da latinidade, tão grande como Petrarca e Bocage, a quem se refere em lapidar soneto:

“Mestre querido! viverás, enquanto
Houver quem pulse o mágico instrumento,
E preze a língua que prezavas tanto:

Enquanto houver num canto do universo
Quem ame e sofra, e amor e sofrimento
Saiba, chorando, traduzir no verso.”

A sua poesia, toda cheia de amor e exaltação ao Brasil era grandemente admirada em Portugal. Guerra Junqueiro, na homenagem prestada a Bilac quando da sua visita a Portugal, disse arrebatado: “Exaltamos em coro imenso a Pátria-Irmã, aclamando Bilac o seu grande poeta. Eu, beijando-lhe a fronte, beijo o Brasil no coração”.

Eu que já era um admirador do homem e de sua obra, fiquei agora fanático de que não me quero curar, só um homem que atingiu a onipotência da forma é capaz de escrever este soneto:

O Brasil

Pára! Uma terra nova ao teu olhar fulgura!
Detém-te! Aqui, de encontro a verdejantes plagas,
Em carícia se muda a inclemência das vagas...
Este é o reino da Luz, do Amor e da Fartura!

Treme-te a voz afeita às blasfêmias e às pragas,
Ó nauta! Olha-a, de pé, virgem morena e pura,
Que aos teus beijos entrega em plena formosura,
Os dous seios que, ardendo em desejos, afagas...

Beija-a! O sol tropical deu-lhe à pele doirada
O barulho do ninho, o perfume da rosa,
A frescura do rio, o esplendor da alvorada...

Beija-a! é a mais bela flor da Natureza inteira!
E farta-te de amor nessa carne cheirosa,
Ó desvirginador da Terra Brasileira!

 
     
 


Bocage

Taveiros

A televisão portuguesa, (RTP Internacional) está transmitindo uma mini-série sobre Bocage. Curioso é que o ator que o interpreta é a cara dele. Manoel Maria Barbosa du Bocage nasceu em Setúbal, cidade a uns 70 km ao Sul de Lisboa, a 15 de setembro de 1765. Seu pai, José Luís Soares de Barbosa era bacharel em Cânones e trabalhava como advogado naquela cidade. Sua mãe, D. Mariana Joaquina Xavier Lestof du Bocage, era filha de francês, o vice-almirante da armada portuguesa Gil Lê Doux du Bocage. O casal teve 6 filhos e o nosso poeta foi o quarto a nascer.

Dizer que Bocage é um dos maiores poetas da língua portuguesa é um mero pleonasmo. Mas apenas para pessoas que conviveram ou convivem com a sua obra. Para o povão em geral, a imagem que aparece é a do homem devasso, autor de várias piadas obscenas e de anedotas pornográficas.

Para também o imensamente grande Olavo Bilac, Bocage foi o maior metrificador da língua portuguesa. Era um lírico com total domínio das técnicas de versificação: mestre do decassílabo, com um perfeito estilo de ritmo e cadência, vocabulário rico, excelente musicalidade, poderosa imaginação.

Bilac defende-o sempre contra as acusações ímpias dos que desconheciam a obra do Elmano (Pseudônimo poético de Bocage), e justificou seus desvios de conduta (afinal, vivia-se do reinado de D Maria I) e, finalmente, pelo trecho que agora transcrevo, poder-se-á verificar a que ponto chegava o respeito do grande poeta brasileiro para o colega português.

“Em Portugal a arte de fazer versos chegou ao apogeu com Bocage e depois dele decaiu. Da sua geração e das que a precederam, foi ele o máximo cinzelador da métrica. A plástica da língua e do metro; a perícia do ensamblar das orações e no escandir dos versos; a riqueza e graça do vocabulário; o jogo sábio e às vezes inesperado das vogais e das consoantes dentro da harmonia da frase; a variação maravilhosa da cadência; a sobriedade das figuras; a precisão e o colorido dos epítetos; todos esses difíceis e complicados segredos da arte poética, cuja beleza e raridade às vezes escapam até aos mais cultos amadores da poesia e aos mais argutos críticos literários, e que somente os iniciados podem ver, compreender e avaliar; esta consciência, este gosto, esta medida, este dom de adivinhação e de tato, de que os artistas natos têm o privilégio – tudo isso coube a Elmano, tudo isso se entreteceu no seu talento” “Depois dele, Portugal teve talvez poetas mais fortes, de surto mais alto, de mais fecunda imaginação. Mas nenhum o igualou, o excedeu, no brilho da expressão.”

Vejam o esplendor do soneto que Bilac dedica a Bocage:

“Tu, que no pego impuro das orgias
Mergulhavas ansioso e descontente,
E, quando à tona vinhas de repente,
Cheias as mãos de pérolas trazias;

Tu, que do amor e pelo amor vivias,
E que, como de límpida nascente,
Dos lábios e dos olhos a torrente
Dos versos e das lágrimas vertias;

Mestre querido! Viverás, enquanto
Houver quem pulse o mágico instrumento,
E preze a língua que prezavas tanto:

E enquanto houver num canto do universo
Quem ame e sofra, e amor e sofrimento
Saiba, chorando, traduzir no verso.

Foi uma pena que Bocage, um poeta que atingiu realmente o sublime, arruinasse a sua vida nos desvarios de uma vida desregrada, e não conseguisse manter-se nas elevadas regiões da arte, e acabasse tão tristemente numa luta angustiada e dolorosa com a doença e falta de meios.


 
     
 


PAULO FRANCIS

Taveiros

Os jornalistas e articulistas de há 50/40, Pio Corrêa, Otávio Tirso de Andrade, Fernando Pedreira, Augusto Frederico Schmitt, Eugênio Gudin, Roberto Campos, Josué Montelo, e tantos outros; “and last but not the least” Paulo Francis, fizeram o deleite da minha juventude. A maioria ainda lia Virgílio no original, e comentava Victor Hugo (o divino Hugo) em sua própria língua. Os jornalistas de hoje, salvo honrosas exceções fazem um jornalismo de encher papel, sem compromisso com o fato, a verdade, a elegância e a beleza da nossa língua. Algumas manchetes me desgostam tanto que me tiram a vontade de ler o texto.

Francis usava o veneno da ironia e a arma do sarcasmo para colocar na defensiva os cultores da mitologia nacionalista que reduziu nosso potencial de crescimento e nos condenou à pobreza. Seu passado marxista tornara-o conhecedor das técnicas de lavagem cerebral. A trajetória intelectual de Paulo Francis foi uma gradual contaminação pela verdade e uma contínua erosão de preconceitos. De radical de esquerda, nos anos 50 e 60, e vocalizador do protesto político nos anos 70, passou a “radical liberal” a partir dos anos 80. Qual o primum movens da conversão? Um dos fatores foi, certamente, sua desilusão com o “socialismo real”. Em sua rota revisionista, Francis deve ter sido abalado pelas revelações de Kruschev sobre os crimes de Stalin. Em segundo lugar, e talvez mais fundamental, foi o seu auto-exílio nos Estados Unidos em 1970, depois de ter sido preso quatro vezes como subversivo pelos militares.

Com sua enorme capacidade de metabolismo intelectual, Paulo Francis logo se impregnou pelos valores do capitalismo democrático. Para Francis, um elitista intelectual, não foi difícil assumir a visão realista de que, tendo os homens nascidos desiguais por desígnio Divino, a tentativa igualitária é uma farsa e uma hipocrisia, não nos restando mais que uma administração humana das desigualdades.

Tendo sofrido na fase autoritária brasileira por seu fanatismo pelas liberdades políticas, passou nos Estados Unidos a ser também um fanático pela liberdade econômica. Para trás ficaram as ingenuidades de um Estado benfeitor, das estatais estratégicas, do controle social de preços e de mercado. Eram, segundo dizia, caipiragens retrógradas. Paulo Francis sofreu uma inversão de patrulhamento; na juventude fora patrulhado pela direita; na maturidade pelas esquerdas, que nunca compreenderam, como e por que se livrara da sedução marxista.

Era um homem de interesses culturais lato sensu. Abrangiam o teatro (começara sua carreira como crítico e ator teatral), o cinema (em que se tornou um erudito), a literatura nacional e mundial (que lia com ecumênica voracidade), o balé e a música onde esbanjava erudição.
A crônicas que publicou ao longo dos anos, sob a rubrica “Diário da Corte” eram um misto de crítica literária e artística, análise política, “palpitologia” econômica e saborosa psicanálise de amigos e inimigos. Seu estilo era inconfundível e inimitável.
Deixou um vácuo em nosso panorama literário. Foi uma pena...


 
     
 

Passárgada

Taveiros

Eu era ainda menino, mas, recordo-me ter lido num livro que fora trazido pelo meu avô, (um imigrante português), mais ou menos o seguinte: “A nossa capital (Lisboa) é cheia de preciosidades artísticas e monumentais e, vista do Tejo, (Rio Tejo), faltam-lhe apenas os frondosos morros para ser tão elegante como o Rio de Janeiro.” Lembra-me que eu, como brasileiro e carioca que sou, fiquei todo orgulhoso da nossa cidade. É claro que o referido livro fora escrito antes da terrível ocupação dos morros, a que o Estado assistiu de braços cruzados. Faço idéia a beleza desta cidade há duzentos anos! Com essas montanhas de luxuriante vegetação! E ainda com os morros intactos, como o do Castelo, do Senado, de Sto. Antônio! Com a Baía da Guanabara no original! O panorama devia ser deslumbrante, uma paisagem de sonho!

A ocupação dos morros cariocas, além de crime de natureza ambiental, é crime contra a própria comunidade moradora, pois sempre que há uma chuva mais intensa e contínua, como acontece a toda a hora, alguns barracos deslizam e não raro causam vítimas. O Estado assistiu e a sociedade achava graça. Fizeram-se até músicas bonitas, enaltecendo a favela, como “Favela”, “Chão de Estrelas”, etc.

É claro que ninguém mora na favela por que quer, sendo a pobreza a principal razão, e o Estado o principal culpado, pois os impostos que ele cobra, teriam que reverter em benefícios para os cidadãos especialmente para os de baixa renda; como casa, escola para os filhos, saúde, segurança e justiça ágil. Uma justiça morosa não é justiça, mas uma tremenda injustiça.

Mas o assunto é sobre o ordenamento jurídico da favela, é disso que quero falar: Creio, como afirma Boaventura Santos, que haja um pluralismo jurídico, ou mais de uma ordem jurídica na favela. E que existe um espaço territorial ocupado ilegalmente, ao qual o Estado faz vista grossa, e há um direito interno e informal, gerido normalmente pela associação de moradores e aplicável à prevenção e resolução de conflitos no seio da comunidade, decorrentes da luta pela habitação.

A convicção e aceitação da norma jurídica em Passárgada desde a sua formação tiveram como princípio aquele axioma de Direito, segundo o qual: “o direito de cada um vai até onde não fira o direito de outrem”. Com base neste princípio, a comunidade de Passárgada vive em harmonia nesse aspecto. Qualquer pessoa que viole esse princípio será chamada à Associação de moradores e arcará com as conseqüências.

A fixação de moradores em Passárgada, ao contrário do que diz o autor, teve início muito antes de 1930. O grande escritor brasileiro, e o que eu mais admiro, Machado de Assis, nasceu no morro do Livramento, atrás da Central do Brasil, no dia 21 de Junho de 1839, e passou lá grande parte da sua infância. Quando começaram a surgir um ou outro barraco nos morros, o Rio de Janeiro tinha pouco mais de 300 mil habitantes, não havia disputa de espaço nem de nada, Havia terra para todos. Hoje há disputas no morro por espaço físico por que há muita demanda. Isto acontece também nos centros urbanos. Quanto maior for o aglomerado urbano, mais e maiores conflitos existem.

Mas Passárgada até meados de século XX era, como ainda é hoje constituída por maioria de pessoas simples, mas pessoas de bem e trabalhadoras. A partir da metade do século XX, começou a servir de refúgio para traficantes e viciados que se valem do difícil acesso e difícil trânsito por aqueles becos, para se refugiarem dos agentes da lei. Com isso os seus moradores, ficam entre a cruz e o calvário. Mas essa é uma outra história.

Se fizermos uma avaliação do Direito de Passárgada com o Direito oficial dos Estados modernos e, sobretudo, dos Estados capitalistas - à luz do Direito brasileiro que, para esse efeito, deve ser considerado representativo, facilmente se concluirá que o aspecto retórico do Direito de Passárgada é muito mais amplo do que o Direito estatal, pois quaisquer que sejam os indicadores utilizados para determinar a avaliação deste mesmo espaço, a verificação é sempre favorável ao Direito de Passárgada.


 
     
     
 

 

Uma vírgula pode mudar uma história

“O padre Antonio Vieira nasceu em Lisboa e viera para o Brasil com os pais com apenas 8 anos de idade. Aqui estudou, formou-se, e atingiu o mais alto firmamento da nossa literatura. Esteve preso nos cárceres do Sto. Ofício recuperou a liberdade e partiu para Roma. Já Septuagenário regressou ao Brasil. Sofreu ainda grandes dissabores antes de falecer com quase 90 anos! Nos seus 2