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Personalidade
Evaristo Dias da Silva
Poeta Escritor Advogado Artista Plástico
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As encostas do alto Douro produzem os melhores vinhos
do mundo. Quem já degustou um vinho do Porto
guardará o paladar e a fragrância daquele
néctar dos deuses para sempre.
As belas encostas de xisto acariciadas pelo sol a
abnegação dos agricultores são
os culpados desse pecado que tornou a região
famosa.
Dessa terra abençoada veio nosso colunista
Evaristo Dias da Silva.
Formado na fina arte da cinzelaria pela Escola
industrial Faria Guimarães na cidade do Porto,
Portugal, trabalhou nessa arte até
a época do serviço militar e logo depois
veio para o Brasil.
É correspondente do jornal português
“O Arrais” da Régua, cidade
onde nasceu, que dista do Porto 90 quilômetros.
No Brasil exerceu a sua arte de esculpir
e gravar em metais nobres por algum tempo. Foi comerciante
e dono de restaurante na Urca, onde recebeu a nata
da televisão brasileira.
Formou-se em Direito.
Brasileiro, como poucos, escritor e poeta
de mão-cheia, Evaristo Dias da Silva é
um estudioso erudito da língua portuguesa e
um perfeccionista.
Seu livro mais recente “A Invenção
da Mulata” é um primor, um acepipe agradável
de ser saboreado pelos que entendem e amam as belezas
do nosso idioma. É para ser degustado como
um “porto”.
Dono de um admirável senso de humor e perspicácia,
nosso satírico colunista, assim se auto qualifica:
cinco personagens num só cidadão:
Evaristo Dias Silva - brasileiro,
advogado, pequeno empresário. Como empresário
é razoável; mas falta-lhe a ambição
para ganhar dinheiro.
Iavetros Sadi Lavis – judeu-grego,
seu nome é um misto de Iavéh do hebraico
e trois do francês. É dedicado às
artes plásticas, conhece toda a teoria e quase
todas as obras dos grandes mestres da pintura.
Taveiros Said Vilas - português
de ascendência mourisca. É um gozador,
tem talento, mas tem receio de mostrar o que escreve.
Não faz questão de ser conhecido
Atorisev Siad Lasif – russo,
músico, toca violão, balalaica e harmônica.
Faltou-lhe tempo para levar a música a sério
e agora que tem tempo já não quer saber
prefere ouvir um CD.
Gosta de musica clássica e de todos os grandes
mestres, mas Mozart é o seu preferido.
Vitoresa Disa Sival – inglesa,
autoritária filha bastarda da rainha Vitória
com um aventureiro. Gosta das artes culinárias.
Reina com mão-de-ferro na cozinha. Sua culinária
é simples, caseira, gostosa, cheirosa e possui
alma, mais do que muito livro santo. Digna do paladar
de Platão. Há quem afirme que no mundo
não há nada mais saboroso.
Amigo leal e modesto e bom ouvinte, coisa
difícil hoje. Sua modéstia só
pode ser comparada ao seu imenso amor que sente pela
família e pelo Brasil, país de sua escolha.
Evaristo Dias da Silva estará em sua coluna
interativa respondendo ao questionamento dos leitores,
comentando lançamentos de livros e curiosidades
da Língua Portuguesa.
Flavio P. Ramos é Professor
Universitário e Editor desse jornal
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Receita
para um Ano Feliz
Tome
12 meses completos.
Limpe-os
cuidadosamente de toda a amargura, vaidade e inveja.
Corte
cada mês em 28, 30, ou 31 pedaços
diferentes,
mas não cozinhe todos ao mesmo tempo.
Prepare
um dia de cada vez
com os seguintes ingredientes:
-
Uma parte de fé
- Uma parte de paciência
- Uma parte de coragem
- Uma parte de trabalho
Junte
a cada dia uma parte de esperança,
de felicidade e amabilidade.
Misture
bem, com uma parte de oração, uma
parte de meditação
e uma parte de entrega.
Tempere
com uma dose de bom espírito, um pouco
de alegria,
um pouco de ação e uma boa medida
de humor.
Coloque tudo num recipiente de amor.
Cozinhe bem, ao fogo de uma alegria radiante.
Guarneça com um sorriso e sirva sem reserva.
Vitoresa
N.R. Para
entender melhor a brincadeira leia a reportagem
sobre o colunista Evaristo Dias da Silva nesta
página.
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Miguel
Torga, Deus e o Natal
Taveiros
Miguel Torga teve uma formação
religiosa desde a infância e dela temos
conhecimento através da leitura da sua
obra.
No Diário XVI, escreve em 1 de
setembro de 1992:
“Criei-me a pedir a Deus no seio da família
que nos livrasse dos maus vizinhos à
porta, e nunca deixei de acudir aos que fui
tendo pela vida fora quando os vi necessitados
dos meus préstimos.”
Numa outra citação do
mesmo volume do Diário, revela hábitos
da sua infância e refere uma peça
preciosa que herdou da Mãe, “um
livro” (a Bíblia) que era lido
ao serão:
Coimbra, 14 de Setembro de 1992 – Saudosos
tempos em que minha Mãe acendia uma vela
ao Santíssimo pelo êxito dos meus
exames e eu, sem de todo acreditar na intercessão
divina, sentia, mesmo assim, supersticiosamente,
as costas quentes diante dos mestres. (…)
«Nos já longínquos tempos
da meninice, (…) à noite, (…)
minha Mãe, à luz da candeia, lia
incansavelmente um livro que depois herdei,
e foi a maior fortuna que me podia legar. Nesse
surrado voluminho, que comecei a soletrar também
e acabei por devorar, havia histórias
estranhas. (…)
Num desses relatos espantosos, um general mandava
parar o sol para que os seus soldados pudessem
ganhar uma guerra. O homem chamava-se Josué,
e o seu nome passou a fazer parte da lista dos
meus heróis.”
Como vimos, sua formação religiosa
começou na infância, no seio da
família, mas também se processou
na Igreja e no Seminário de Lamego, para
onde foi já com o quarto ano primário
feito.
Sem vocação, desistiu e embarcou
para o Brasil aos 13 anos, carregando muitos
sacos de café nas costas em fazenda de
Minas Gerais, regressando cinco anos depois.
Acabou por se formar em Medicina na Universidade
de Coimbra.
Pelos textos anteriores, poderíamos ser
levados a pensar que a relação
poética de Torga com Deus é pacífica
e de bom entendimento, contudo não é
assim. Em diversos poemas manifesta a sua rebeldia,
irreverência, a sua descrença,
mas noutros também reconhece a existência
de Deus, ainda que prefira seguir o seu percurso
isolado, como aliás fez na atividade
de escritor, preferindo cantar as virtudes dos
homens.
O poema “Cântico de Humanidade”
da obra Nihil Sibi, cuja 1ª edição
é de 1948, revela-nos a preocupação
torguiana de engrandecer o Homem em relação
à divindade.
“Hinos aos deuses, não.
Os homens é que merecem
Que se lhes cante a virtude. (...)
Apenas se os deuses querem
Ser homens, nós os cantemos. (…)
Nós também lhes demonstremos
Que são mortais e de barro.”
A propósito da valorização
dos homens, recordemos uma anotação
do Diário, em que Torga fala de uma noite
de Consoada e alude a duas passagens dos Evangelhos
que sempre o perturbaram:
“S. Martinho de Anta, 24 de Dezembro de
1968 — As rabanadas comidas, a família
recolhida, a árvore de Natal apagada,
e eu aqui à lareira, debruçado
sobre as brasas da murra sacramental, a passar
mais uma vez as velhas contas do meu rosário
de perplexidades. Como é que o Pai mandou
o Filho tão tarde salvar o mundo? Quando
já tantos milhões de homens se
tinham perdido e a estratificação
de alguns pecados mortais era irremediável?
Mistérios divinos (…)? Há
duas passagens nos Evangelhos que sempre me
perturbaram. Numa, Jesus ensina:
«Sede perfeitos como também vosso
Pai celeste é perfeito». Na outra,
mais preciso ainda, alude ao Salmo que diz:
«Sois deuses».”
No poema “Aviso” do Diário
VI, datado de 5 de Dezembro de 1952, o sujeito
poético previne o próprio Deus
da sua atitude de rebeldia, se não for
satisfeita a sua condição:
“Um Deus que me queira, um dia,
Depois desta penitência
De viver,
Se me não der a inocência
Que perdi,
Terá o desgosto de ver
Que de novo lhe fugi.”
Em seguida, vamos ver um poema publicado na
obra Câmara Ardente (1962), que é
dos mais emblemáticos da sua relação
de conflito com Deus. Neste texto, intitulado
“Desfecho”, ainda que sempre tenha
negado a Sua existência, acaba por reconhecer
a “divina presença” a seu
lado:
“Não tenho mais palavras.
Gastei-as a negar-te…
(Só a negar-te eu pude combater
O terror de te ver
Em toda a parte).
Fosse qual fosse o chão da caminhada,
Era certa a meu lado
A divina presença impertinente
Do teu vulto calado
E paciente…”
E, em seguida,
exprime a luta contra quem perturba a sua solidão
e acaba por concluir de forma sugestiva, mostrando
que afinal Deus existe e é tão obstinado
quanto o próprio sujeito poético,
pois caminham ambos a
Par na teimosia:
“E lutei,
como luta um solitário
Quando alguém lhe perturba a solidão
Fechado num ouriço de recusas,
Soltei a voz, arma que tu não usas,
Sempre silencioso na agressão.
Mas o tempo moeu na sua mó
O joio amargo do que te dizia…
Agora somos dois obstinados,
Mudos e malogrados,
Que apenas vão a par na teimosia.”
Em 1963, numa página do Diário X,
revela uma atitude semelhante a esta, de tréguas
com Deus, em que cada um existe sem interferir
com o outro. Em apenas duas linhas revela claramente
a sua dúvida:
“ Tréguas com Deus. Mas ainda não
consegui saber se fui eu que deixei de lutar com
ele, se foi ele que deixou
de lutar comigo.”
Em 1984, aos 77 anos, faz um registro no Diário
XIV, também de duas linhas, no qual patenteia
bem a sua relação com Deus, evidenciando
a obsessão de negar a sua existência
e, simultaneamente, a impossibilidade de
o esquecer:
“Coimbra, 25 de Dezembro de 1984 –
Deus. O pesadelo dos meus dias. Tive sempre a
coragem de o negar, mas nunca a força de
o esquecer.”
Foi essa “força” de querer
esquecer Deus, de o afastar da sua vida que levou
a que não tivesse um funeral religioso.
A sua descrença já tinha sido expressa,
uma vez mais, em 1979, a propósito da Páscoa:
“S. Martinho de Anta, 15 de Abril de 1979
– Ser incréu custa muito! É
dia de Páscoa. O gosto que eu teria de
beijar também o Senhor, se acreditasse!
Assim, olho a fé dos outros em aleluia,
e fico nesta tristeza agnóstica que faz
da vida uma agônica aventura sem esperança
de ressurreição.”
E se em relação
à Páscoa sucede o que vimos, em
relação ao Natal a situação
não é muito diferente.Em 1953 Torga
considera que o Natal, a natividade, se dá
quotidianamente na Natureza, mas os homens não
reparam e preferem festejar o que chama “absurdos
lógicos, construídos nas Judeias
da imaginação”.
E, em 25 de Dezembro
de 1983, no poema “Natal” insiste
na questão da crença:
“Ninguém o viu nascer.
Mas todos acreditam
Que nasceu.
É um menino e é Deus. (...)
Agora, nos cueiros da imaginação,
Sorri apenas
A quem vem,
Enquanto a Mãe,
Também
Imaginada,
Com ele ao colo,
Se enternece
E enternece
Os corações,
Cúmplice do milagre, que acontece
Todos os anos e em todas as nações.”
Contudo, se em
Deus não acredita, relativamente ao Menino
Deus já não sucede o mesmo e vejamos
porquê:
“S. Martinho de Anta, 24 de Dezembro de
1966.
NATAL
Leio o teu nome
Na página da noite:
Menino Deus...
E fico a meditar
No milagre dobrado
De ser Deus e menino.
Em Deus não acredito.
Mas de ti como posso duvidar?
Todos os dias nascem
Meninos pobres em currais de gado.
Crianças
que são ânsias alargadas
De horizontes pequenos.
Humanas alvoradas...
A divindade é o menos.”
E, estabelecendo o contraste entre o Menino e
a sua pessoa, escreve em 24 de Dezembro de 1988,
no Diário XV:
“Coimbra, 24 de Dezembro de 1988.
NATAL
Menino Jesus feliz
Que não cresceste
Nestes oitenta anos!
Que não
tiveste
Os desenganos
Que eu tive
De ser homem,
E continuas criança
Nos meus versos
De saudade
Do presépio
Em que também nasci,
E onde me vejo sempre igual a ti.”
E sobre a Virgem
Maria, escreve no poema “Natal”, em
24 de Dezembro de 1973:
“E a lamentar que a mãe, Virgem Maria,
Humana criatura,
Continue a ter filhos no futuro
Condenados à mesma desventura.”
Em 24 de Dezembro de 1990, escreve o poema “Ultimo
Natal”, que oferece ao Menino Jesus:
“Menino Jesus, que nasces
Quando eu morro,
E trazes a paz
Que não levo,
O poema que te devo
Desde que te aninhei
No entendimento,
E nunca te paguei
A contento
Da devoção,
Mal entoado,
Aqui te fica mais uma vez
Aos pés,
Como um tição
Apagado,
Sem calor que os aqueça.
Com ele me desobrigo e desengano:
És divino,
e eu sou humano,
Não há poesia em mim que te mereça.”
Torga passou muitas vicissitudes para seguir os
seus ideais, ele que foi um defensor do Homem
e dos direitos humanos, um escritor comprometido
com a defesa de valores humanistas, de solidariedade
entre os homens, de preservação
da liberdade, da identidade, da autenticidade,
de fidelidade às origens.
E, 9 de Dezembro de 1993, em balanço final
de uma vida, no penúltimo registro do Diário
XVI, sintetiza os valores pelos quais lutou:
“De alguma coisa me hão-de valer
as cicatrizes de defensor incansável do
amor, da verdade e da liberdade, a tríade
bendita que justifica a passagem de qualquer homem
por este mundo.”
São valores como estes que todo o homem
deve defender porque, quando há amor, há
solidariedade, altruísmo, verdade, liberdade,
respeito pelo outro, entreajuda, enfim, todo um
conjunto de valores que qualquer homem deve almejar
atingir, seja ou não católico e
estejamos ou não na altura do Natal.
Biografia de Miguel
Torga
nascido Adolfo Correia Rocha
Filho de Francisco Correia Rocha e Maria da Conceição
Barros, gente humilde do campo do Concelho de
Sabrosa (Alto Douro). Em 1917, aos dez anos, vai
para uma casa apalaçada do Porto, habitada
por parentes da família. Fardado de branco
servia de porteiro, moço de recados, regava
o jardim, limpava o pó e polia os metais
da escadaria nobre, atendia campainhas. Foi despedido
um ano depois, devido à constante insubmissão.
Em 1918 vai para o Seminário de Lamego,
onde viveu um dos anos cruciais da sua vida, tendo
melhorado os conhecimentos de português,
da geografia, da história, aprendido o
latim e ganhado familiaridade com os textos sagrados.
No fim das férias comunicou ao pai que
não seria padre.
Emigrou para o Brasil em 1919, com doze anos,
para trabalhar na fazenda do tio, na cultura do
café. O tio apercebe-se da sua inteligência
e patrocina-lhe os estudos liceais, em Leopoldina.
Distingue-se como um aluno dotado. Em 1925, na
convicção de que ele havia de vir
a ser doutor em Coimbra, o tio propôs-se
pagar-lhe os estudos como recompensa dos cinco
anos de serviço o que levou ao seu regresso
a Portugal.
Em 1928 entra para a Faculdade de Medicina da
Universidade de Coimbra e publica o seu primeiro
livro, "Ansiedade", de poesia. Em 1929,
com 22 anos, deu início à colaboração
na revista Presença, folha de arte e crítica,
com o poema “Altitudes”. A revista,
fundada em 1927 pelo grupo literário avançado
de José Régio, Gaspar Simões
e Branquinho da Fonseca, era bandeira literária
do grupo modernista e era também, bandeira
libertária da Revolução Modernista.
Em 1930 rompe definitivamente com a revista Presença,
por "razões de discordância
estética e razões de liberdade humana".
É bastante crítico da praxe e tradições
acadêmicas, e chama depreciativamente "farda"
à capa e batina, mas ama a cidade de Coimbra,
onde viria também a exercer a sua profissão
de médico a partir de 1939 e onde escreve
a maioria dos seus livros. Em 1933 concluiu a
formatura em Medicina, com apoio financeiro do
tio do Brasil. Exerceu no início nas agrestes
terras transmontanas, de onde era originário
e que são pano de fundo da maior parte
da sua obra.
Casa com Andrée Crabbé em 1940,
estudante de nacionalidade belga aluna de Estudos
Portugueses, ministrados por Vitorino Nemésio
em Bruxelas que viera a Portugal para frequentar
um curso de férias na Universidade de Coimbra.
A sua filha, Clara Rocha, nasce a 3 de Outubro
de 1955.
A origem do pseudonimo
Em 1934, aos 27 anos, Adolfo Correia Rocha autodefine-se
pelo pseudónimo que criou, "Miguel"
e "Torga". Miguel, em homenagem a dois
grandes vultos da cultura ibérica: Miguel
de Cervantes e Miguel de Unamuno. Já Torga
é uma planta brava da montanha, que deita
raízes fortes sob a aridez da rocha, de
flor branca, arroxeada ou cor de vinho, com um
caule incrivelmente rectilíneo. A sua campa
rasa em São Martinho de Anta tem uma torga
plantada a seu lado, em honra ao poeta.
A obra de Torga
A obra de Torga tem um carácter humanista:
criado nas serras trasmontanas, entre os trabalhadores
rurais, assistindo aos ciclos de perpetuação
da Natureza, Torga aprendeu o valor de cada homem,
como criador e propagador da vida e da Natureza:
sem o homem, não haveria searas, não
haveria vinhas, não haveria toda a paisagem
duriense, feita de socalcos nas rochas, obra magnífica
de muitas gerações de trabalho humano.
Ora, estes homens e as suas obras levam Torga
a revoltar-se contra a Divindade Transcendente
a favor da imanência: para ele, só
a humanidade seria digna de louvores, de cânticos,
de admiração: (hinos aos deuses,
não/os homens é que merecem/que
se lhes cante a virtude/bichos que cavam no chão/actuam
como parecem/sem um disfarce que os mude).
Para Miguel Torga, nenhum deus é digno
de louvor: na sua condição omnisciente
é-lhe muito fácil ser virtuoso,
e enquanto ser sobrenatural não se lhe
opõe qualquer dificuldade para fazer a
Natureza - mas o homem, limitado, finito, condicionado,
exposto à doença, à miséria,
à desgraça e à morte é
também capaz de criar, e é sobretudo
capaz de se impor à Natureza, como os trabalhadores
rurais trasmontanos impuseram a sua vontade de
semear a terra aos penedos bravios das serras.
E é essa capacidade de moldar o meio, de
verdadeiramente fazer a Natureza mau grado todas
as limitações de bicho, de ser humano
mortal que, ao ver de Torga fazem do homem único
ser digno de adoração.
Considerado por muitos como um avarento de trato
difícil e carácter duro, foge dos
meios das elites pedantes, mas dá consultas
médicas gratuitas a gente pobre e é
referido pelo povo como um homem de bom coração
e de boa conversa.
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Dois sonetos -
duas jóias - da literatura brasileira do
final do século XIX,
quando se conhecia e se amava a nossa língua!
De “O Brasil que os poetas cantam”
Taveiros.
G U A N A B A R A
Osvaldo Orico
Depois de olhar
os mundos que criara,
Trepidantes de força e de esplendor,
Deus, naquela manhã pródiga e
rara,
Deixando de ser Deus, Fez-se pintor.
Quis dar à
Natureza outro primor
E, com o mesmo pincel que o Éden pintara,
Gravou no mapa-mundi o traço e a cor
Dos montes e dos céus da Guanabara.
É por
isso, ó viajante deslumbrado,
Que vês de longe, sobre o Corcovado,
Unido o Criador à obra tamanha;
E olhas, resplandecente
de beleza,
Cristo desabrochar da Natureza
Como um lírio de luz sobre a montanha!...
A B Í B L I A VE R D E
Álvaro Bomilcar
Vive feliz e
morre como um santo.
O campônio, o caipira, o sertanejo,
Que, à distância de um pobre lugarejo,
Habita, em paz, bucólico recanto.
Pois quando
a noite estende o negro manto,
Dorme sem ambição e sem desejo...
E quando o sol envia louro beijo,
De manhã, se levanta sem quebranto.
Feliz porque
nasceu de pais obscuros,
E morrerá na rústica pureza,
Na boa fé dos sentimentos puros!
Sem ciência,
nem livros em que estude,
Só saber ler, conforme a Natureza,
A Bíblia Verde da existência rude!
“De O
Brasil que os poetas cantam”
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Enviado por *Milton Larentis
1. O professor
não abusará da inexperiência,
da falta de conhecimento ou da imaturidade dos
alunos, com o objetivo de cooptá-los para
esta ou aquela corrente político-ideológica,
nem adotará livros didáticos que
tenham esse objetivo.
2. O professor
não favorecerá nem prejudicará
os alunos em razão de suas convicções
políticas, ideológicas, religiosas,
ou da falta delas.
3. O professor não fará
propaganda político-partidária em
sala de aula nem incitará seus
alunos a participar de manifestações,
atos públicos e passeatas.
4. Ao tratar de questões políticas,
sócio-culturais e econômicas, o professor
apresentará aos alunos, de forma
justa isto é, com a mesma profundidade
e seriedade, as principais versões, teorias,
opiniões e perspectivas concorrentes a
respeito.
5. O professor não criará
em sala de aula uma atmosfera de intimidação,
ostensiva ou sutil, capaz de desencorajar a manifestação
de pontos de vista discordantes dos seus, nem
permitirá que tal atmosfera seja criada
pela ação de alunos sectários
ou de outros professores.
*Filosofo e professor do terceiro grau
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A
conspiração
Taveiros
Apesar de tantas e atuais opções
de diversão e lazer, televisão
a cabo, Internet, etc., a leitura ainda é
uma boa opção! Ler faz bem à
alma, dá asas à imaginação,
e quando nos mostra o outro lado de instituições
e acontecimentos reais, a obra suga-nos e arrasta-nos
através de um mundo enigmático.
Acontece assim com os livros de Dan Brown.
Dan Brown é um escritor norte–americano.
Nasceu no dia 22 de junho de 1964, em Exeter,
uma cidade do Estado de New Hampshire. Após
a sua graduação na Phillips Academy,
no ano de 1982, Dan Brown entrou para o Amherst
College e no seu primeiro ano teve que estudar
História da Arte na Europa na Universidade
de Sevilha onde se debruçou nos trabalhos
de Leonardo Da Vinci, que mais tarde teriam
um papel importante numa das suas obras. Dan
Brown é filho de um eminente matemático,
Richard G. Brown e tinha como hobby a música
sacra, e de Constance, também formada
em música.
Dan Brown cresceu literalmente na escola rodeado
de livros de filosofia, história e religião,
o que contribuiu significativamente para elaboração
das suas obras. Foi professor de Inglês
durante alguns anos até conseguir realizar
o seu sonho: ser escritor. As suas obras são:
O Código da Vinci, Anjos e Demônios,
A Conspiração e Fortaleza Digital.
Atualmente é um dos escritores mais famosos
e conceituados do mundo, tendo os seus livros
na lista dos mais vendidos do New York Times.
Tal como o escritor brasileiro Paulo Coelho,
também Don Brown se inspira no escritor
Jean Pierre Santiago, considerado um alquimista
moderno, pois a sua visão de transformação
vai além das raízes da alquimia
primitiva.
Em pleno gelo do Ártico, a NASA descobre
um estranho objeto enterrado nas profundezas
da Plataforma de Milne. Uma descoberta arrebatadora
quer para a agência espacial quer para
a futura eleição presidencial,
uma vez que o Senador Sexton acreditava afincadamente
que a NASA era uma fonte de despesas inútil,
o que decorria dos seus fracassos recentes.
Para constatar a veracidade da descoberta são
chamados civis, entre eles a filha do Senador,
Rachel Sexton, e um erudito e carismático
oceanógrafo, Michael Toland. Todos assistem
entusiasmados à extração
do meteorito, que continha fósseis, contudo,
o poço de extração apresenta
alguns mistérios: organismos bioflorescentes,
indicando um embuste científico. A bomba
rebenta e a autenticidade da descoberta é
posta em dúvida.
Então, eis que acontece o imprevisível:
a equipe de civis cai numa emboscada operada
por uma equipe de assassinos.
A luta pela sobrevivência passa a ser
o ponto fulcral naquela paisagem inóspita
e letal. São vítimas de uma perseguição
sem tréguas ao longo do Ártico,
resguardando-se num submarino nuclear e indo
parar num barco na costa de New Jersey, tudo
porque são detentores da verdade mais
surpreendente já alguma vez vista. Naquele
dia, as pessoas em quem mais confiavam encontravam-se,
só e simplesmente, do lado oposto, querendo
arrastar o mundo para a mentira. Ninguém,
em lugar nenhum, se encontra em segurança.
A ambição pelo poder faz com que
se esqueça tudo e todos, não olhando
a meios para se atingir os fins.
Contudo, a verdade surge e descobre-se que se
trata da mais espantosa e audaz conspiração
alguma vez vista, levando o mundo para um turbilhão
de controvérsia.
Um livro verdadeiramente magnífico. Prende
o leitor do início ao fim, não
se conseguindo parar de ler. Ao virar de cada
página espera-nos uma fabulosa surpresa,
recheada de mistério e de magia. Uma
obra que apresenta uma escrita de fácil
compreensão e acessibilidade; uma história
onde existe um turbilhão de emoções,
medo, pânico total, surpresa, entusiasmo,
amor... mas também muita imaginação
envolvendo organizações e tecnologias
reais. Uma história comovente e enigmática,
uma vez que a súbita mudança de
acontecimentos evidencia a mão implacável
do destino e a luta incansável pela sobrevivência
quando se vê a morte no passo seguinte.
Como afirma o autor, “A vida está
cheia de decisões difíceis (...)
e os vencedores são aqueles que as tomam”,
e ainda: “Tentam o impossível,
aceitam o fracasso, enquanto nós criticamos
e recuamos...” – lições
de vida que evidenciam que, quando se encontra
um obstáculo, deve-se sempre tentar ultrapassá-lo
de cabeça erguida. Lendo o livro tem-se
a capacidade de imaginar o cenário e
sentir as emoções que percorrem
e invadem as personagens. Uma incrível
capacidade de suspense que suga o leitor para
a história e onde todas as peças
do puzzle se encaixam na perfeição.
Quando cheguei à última página,
a minha vontade era ir, novamente para a primeira...
|
O
importante papel do tempo
Taveiros
Ao tempo
da morte de Luciano Pavarotti eu quis escrever
um texto sobre o histórico tenor,
mas a verdade é que me vi
limitado pela pressão que surgiu no ambiente
operístico e cultural, no sentido de que
se estava perante o maior tenor de sempre.
Apesar de gostar
muito da sua voz, não era essa a minha
opinião, desde que há perto de três
décadas me comecei a interessar pelo mundo
da ópera.
Assim, deixei
fluir o tempo, de modo a que se conseguisse a
distância essencial a uma apreciação
desapaixonada do problema. Até que há
umas semanas me foi dado saber que uma sondagem
realizada pela BBC Music Magazine, junto de gente
internacionalmente conhecedora do mundo da ópera,
elegeu Plácido Domingo como o melhor tenor
de todos os tempos.
Naturalmente que
uma tal decisão não é absoluta,
mas tem valia própria de dois fatores,
que são a série dos vinte melhores
tenores de sempre, na opinião dos sondados,
e o fato de se tratar de um conjunto de eleitores
especializados no domínio da ópera.
Mas foi com espanto
que tomei conhecimento de que José Carreras
não veio a figurar naquela lista dos vinte
melhores tenores de sempre. Todavia, na opinião
do leque vasto de especialistas sondados, está
bem claro. Em contrapartida, surgiu em décimo
terceiro lugar, Juan Diego Flores, hoje com trinta
e cinco anos de idade, e por muitos apontado como
o sucessor de Plácido Domingo.
Ora, como se pode
estabelecer um critério aceitável
para se proceder a uma classificação
deste tipo? Bem, não há, está
claro, um critério único, mas há
os que são mais lógicos que outros.
E três fatores essenciais a ter em conta
são a extensão do repertório
cantado, a do editado e a globalidade do papel
desempenhado no domínio em apreço.
Quando se lança
mão deste lógico e natural critério,
a resposta expectável é a que surgiu
agora pela voz da BBC Music Magazine:
Plácido
Domingo foi, até hoje, o maior tenor de
sempre. No fundo, o critério que justifica
que José Carreras não tenha surgido
naquela série dos vinte melhores tenores
de todos os tempos.
Nas intervenções
de Luciano Pavarotti, o grande agrado que o público
sempre encontrou foi o derivado do timbre da sua
voz. Uma voz napolitana, que se encontra por igual,
em Máro Del Mônaco. Gravações
existem, como se dá, por exemplo, com Mefistófeles,
de Arrigo Boito, onde se torna difícil
encontrar diferenças fortes entre os dois
napolitanos, mas, enfim, o tempo permitiu algum
esclarecimento, ao menos à luz do meu pensamento
sobre o tema.
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Numa
simples tela
Taveiros
Era uma
tela em branco até hoje, quando a decidi
pintar. Queria pintar um mundo colorido, repleto
de mil e uma cores, com pessoas felizes, uma Natureza
edílica e acolhedora, um sol resplandecente
salientando a beleza natural de um mundo perfeito.
Água jorrando, límpida e abundante
pelas encostas verdejantes de uma montanha. Contudo,
as minhas mãos teimavam em pintar um mundo
a preto e branco. Um mundo escuro, sem cor, sem
vida... triste. Nada do que tinha planejado estava
pintado, tudo tinha saído exatamente o
contrário. Senti-me triste, desiludido
comigo próprio...
Fiquei triste e já me considerava derrotado,
mas, passada uma hora de reflexão em que
todas as memórias passam alternadamente
como um filme pela cabeça, ganhei forças
e retomei o pincel. Em todas as minhas recordações
encontrei algo de comum que me ajudou a superar
os momentos mais dramáticos. Não
sabendo como representar esse sentimento, optei
por escrever o seu nome.
Comecei a delineá-lo em preto. Mas a palavra
parecia ter vontade própria, pois à
medida que a ia pintando ela aparecia representada
em mil cores. Cores que transmitiam união,
alegria, companheirismo, cumplicidade, força...
A palavra “Amizade” vincada naquela
tela deixava transparecer tudo o que esse sentimento
significa. Se para uns bastam palavras, para outros
as palavras são pouco.
Pequenos gestos..., simples músicas...,banais
palavras..., escassos segundos... podem marcar
para sempre. Marcar uma pessoa para o resto da
vida, provocando lágrimas e choros intensos.
Como afirmou Vinícius de Moraes: “Eu
poderia suportar, embora não sem dor, que
tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria
se morressem todos os meus amigos! A alguns deles
não procuro, basta saber que eles existem.
Esta mera condição me encoraja a
seguir em frente pela vida... mas é delicioso
que eles saibam e sintam que eu os adoro, embora
não o declare e os procure sempre...”.
Sei que os verdadeiros amigos não são
aqueles que estão sempre conosco, mas sim
aqueles que vêm quando o resto do mundo
se foi embora, aqueles que não só
partilham alegrias, mas também as tristezas,
os momentos bons e maus...
Como é difícil definir a amizade!
Talvez porque não tem definição,
é apenas sentida. As ações
e as palavras existentes em todo o mundo resumem-se
a pó quando a amizade é intensa
e vivida em toda a sua plenitude e pureza.
Agora sinto-me feliz. Na tela deixei transparecer
o sentimento mais lindo, sem sombras de hipocrisia.
Ele só e o seu significado. A palavra fala
por si.
A tela está simples. Nada como a simplicidade
para realçar as coisas escondidas da pureza.
Só a palavra marca uma forte presença.
As idéias estão lá patentes,
fica ao critério de cada um, dependendo
da amizade que o rodeia, tirar o seu significado.
Quando terminei, uma lágrima rolou por
minha face, não pela tristeza que sentia,
mas sim pela força da AMIZADE...
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Curiosidades da língua
portuguesa, como é
rica!
Enviado por Roberto Carrazedo
Este
texto é todo ele sem a letra A
É
possível sim.
Sem nenhum tropeço posso escrever o que
quiser sem ele, pois rico é o português
e fértil em recursos diversos, tudo isso
permitindo mesmo o que de início, e somente
de início, se pode ter como impossível.
Pode-se dizer tudo, com sentido completo, mesmo
sendo como se isto fosse mero ovo de Colombo.
Desde que se tente sem se pôr inibido
pode muito bem o leitor empreender este belo
exercício, dentro do nosso fecundo e
peregrino dizer português, puríssimo
instrumento dos nossos melhores escritores e
mestres do verso, instrumento que nos legou
monumentos dignos de eterno e honroso reconhecimento.
Trechos difíceis se resolvem com sinônimos.
Observe-se bem: é certo que, em se querendo
esgrime-se sem limites com este divertimento
instrutivo. Brinque-se mesmo com tudo. É
um belíssimo esporte do intelecto, pois
escrevemos o que quisermos sem o 'E' ou sem
o 'I' ou sem o 'O' e, conforme meu exclusivo
desejo, escolherei outro, discorrendo livremente,
por exemplo sem o 'P', 'R' ou 'F', o que quiser
escolher, podemos, em corrente estilo, repetir
um som sempre ou mesmo escrever sem verbos.
Com o concurso de termos escolhidos, isso pode
ir longe, escrevendo-se todo um discurso, um
conto ou um livro inteiro sobre o que o leitor
melhor preferir. Porém mesmo sem o uso
pernóstico dos termos difíceis,
muito e muito se prossegue do mesmo modo, discorrendo
sobre o objeto escolhido, sem impedimentos.
Deploro sempre ver moços deste século
inconscientemente esquecerem e oprimirem nosso
português, hoje culto e belo, querendo
substituí-lo pelo inglês. Por quê?
Cultivemos nosso polifônico e fecundo
verbo, doce e melodioso, porém incisivo
e forte, messe de luminosos estilos, voz de
muitos povos, escrínio de belos versos
e de imenso porte, ninho de cisnes e de condores.
Honremos o que é nosso, ó moços
estudiosos, escritores e professores. Honremos
o digníssimo modo de dizer que nos legou
um povo humilde, porém viril e cheio
de sentimentos estéticos, pugilo de heróis
e de nobres descobridores de mundos novos.
Autor: Desconhecido.
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Machado
de Assis
Taveiros
No dia 21 de Junho de 1839, nascia numa casa humilde
no morro do Livramento (atrás da Central
do Brasil) nesta cidade do Rio de Janeiro, Joaquim
Maria Machado de Assis, aquele que viria a ser
um dos maiores poetas e escritores da nossa língua.
Estilista primoroso, psicólogo delicado,
observador dotado de uma ironia indulgente e graciosa,
é uma glória da literatura brasileira.
Sua mãe, Leopoldina Machado, jovem portuguesa
da ilha de S. Miguel, trabalhava duramente como
lavadeira sempre com seu filhinho ao lado e cantando
dolente: “Dorme meu filhinho/, mamãzinha
logo vem/, Foi lavar sua roupinha/ na fontinha
de Belém...” O pai, Francisco José
de Assis, era filho de pardos, que tinham tido
a sorte de serem livres. Era pintor de paredes,
mas ganhava o suficiente para uma vida modesta.
Sua mãe costumava levá-lo a visitar
seus padrinhos que moravam num belo palacete,
na quinta do Livramento no mesmo bairro, e que
sempre insistiam em ver o afilhado, e creio que
foi daí, na casa dos padrinhos, que o futuro
escritor observou os hábitos da boa sociedade
fluminense, que mais tarde descreveria com inimitável
perfeição. Aos domingos, após
o almoço, passeava com o pai pela Praia
Formosa, que se localizava nas imediações
da hoje Rodoviária Novo Rio.
Bem cedo perdeu a mãe e a irmãzinha,
e o pai logo se casou de novo com Maria Inês,
mulata como ele e de ótimo coração;
foram morar em S. Cristóvão. Foi
ela quem ensinou as primeiras letras ao menino
e admirava-se de como ele aprendia tão
rápido. Em seguida morreria o pai, e a
madrasta, sem nenhuns recursos, empregou-se num
colégio, cujas donas incumbiram o pequeno
Joaquim a vender-lhes as quitandas, balas e cocadas
pelas ruas do bairro.
Nas horas das aulas o menino esgueirava-se pelos
corredores, e conseguia ouvir alguma coisa das
explicações da mestra, e os livros
que conseguia emprestados supriam-lhe as deficiências
das explicações. Freqüentava
muito uma padaria da Rua S. Luiz Gonzaga cuja
dona era francesa e que lhe dava aulas de francês.
O forneiro, também francês, dava-lhe
lições suplementares.
Maria Inês era muito piedosa, e levou o
enteado à Igreja da Lampadosa para que
ele ficasse lá como coroinha. Vinha de
barco do Campo de S. Cristóvão ao
centro da Cidade, e enquanto os outros passageiros
se divertiam, ele se agarrava ao livro de latim.
Após as missas, depois de receber a magra
espórtula, que era o seu sustento, o rapazinho
corria ao Gabinete Português de Leitura,
ali ao lado, onde encontrava farta Biblioteca
à sua disposição.“
Vou continuar hoje a leitura dos Lusíadas!”
dizia.
Foi auxiliar de tipografia e começou a
escrever artigos como crítico de teatro
em jornais e revistas.
Amigo do português Faustino Xavier Novais,
conheceu sua irmã Carolina Augusta Xavier
Novais, de quem se apaixonou e com quem casou.
Viveram felizes durante muitos anos. Não
tiveram filhos, e depois de prolongada doença,
Carolina faleceu, e então ele escreve um
dos mais belos e sentidos sonetos da nossa língua.
“Querida, ao pé do leito derradeiro
Em que descansas desta longa vida,
Aqui venho e virei, pobre querida,
Trazer-te o coração do companheiro.
Pulsa-me aquele
afeto verdadeiro
Que, a despeito de toda a humana lida.
Fez nossa existência apetecida
E num recanto pôs o mundo inteiro.
Trago-te flores
– rostos arrancados
Da terra que nos viu passar unidos
E ora mortos nos deixa separados.
Que eu, se tenho
nos olhos mal feridos
Pensamentos de vida formulados ,
São pensamentos idos e vividos.”
Há uma
velha discussão e comparação
entre os admiradores destes dois expoentes da
nossa língua. Eça de Queiroz e Machado
de Assis. Vivemos numa cultura realmente que compara,
que censura, que avalia, que conclui, sem nos
darmos ao cuidado de ver. Ver sem idéias
preconcebidas, sem condicionamentos. O fato é
que os dois são grandes, e seriam grandes
em qualquer literatura. Eu gosto dos dois, e já
li toda a obra de ambos; Cada um tem o seu estilo,
Eça é mais contundente, Machado
mais soft, comparando-se por exemplo a Capitu
do D. Casmurro, à Luisa do primo Basílio,
mas ambos geniais.
A critica que Machado de Assis fez sobre o “Primo
Basílio” foi uma das melhores páginas
da crítica brasileira já publicadas.
O próprio Eça de Queiroz respondeu-lhe
de Newcastle, na Inglaterra onde era Cônsul,
e mais tarde fê-lo representante no Brasil
para defesa de direitos autorais.
Eça teve uma formação acadêmica
muito sólida, o liceu na cidade do Porto,
e a Universidade em Coimbra, além de ter
vivido quase toda a vida em Inglaterra e em Paris
e de ser considerado o andador de Continentes.
Esteve nos Estados Unidos, Canadá, Oriente
Médio etc., numa época em que para
atravessar o Atlântico de navio demorava
meses.
Machado de Assis, mestiço, de origem humilde,
pobre e desvalido, é um exemplo do que
pode conseguir a força da vontade, e é
como autodidata que alcança o mais alto
firmamento das nossas letras e chega à
presidência da Academia Brasileira de Letras,
e seu fundador.
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Falando
de Balzac
Taveiros
Confesso francamente
que desejaria poder dispor agora de mais algum
tempo, para “conversar” aqui demoradamente
acerca da Vida e da Obra de Balzac.
É que o grande escritor francês foi
e é, na verdade, um dos maiores romancistas
do mundo (quando não mesmo “o maior”,
como o considerou André Wurmser), e a sua
vida – a mundana, a íntima e, sobretudo
a amorosa – constitui, afinal, o mais extraordinário
e o mais empolgante de todos os seus romances.
Parece mesmo ser sina de certos grandes escritores
desempenharem na vida real, como homens, um papel
bem mais romanesco e dramático do que aquele
que fazem viver às personagens de ficção
com que constroem e povoam as suas criações
literárias.
Para compreender a obra de Balzac é necessário
conhecer a sua vida.
Nascido na cidade francesa de Tours, a 20 de maio
de 1779, e depois de uma infância profundamente
infeliz, sem o amor da mãe (que praticamente
o abandonou) e sem o calor e o aconchego de um
lar (e, como interno num colégio de Oratorianos
cuja disciplina espartana tanto se opunha à
sua natureza sensível e fogosa), o jovem
Honoré de Balzac, aos 18 anos de idade,
instala-se sozinho num quarto de uma velha casa
de Paris, na Rua Lesdiguières, perto da
Praça da Bastilha, levando aí a
vida triste, solitária e difícil,
com fome e com frio, que veio depois a descrever
no seu romance La Peau de Cagrin.
Entretanto, estuda Direito e, para “conciliar
a teoria com a prática” vai estagiando
no escritório de um advogado (que ele retratará
e imortalizará mais tarde, sob o nome de
Derville, em La Comédie Humaine).
Todavia, porque a mensalidade que recebe do pai
é muito modesta, mal lhe permitindo sobreviver
com ela, Balzac pensa em escrever qualquer coisa
para publicar e conseguir obter, assim, mais algum
dinheiro com que possa custear os seus gastos
pessoais. E é isso, afinal, que o vai lançar
no caminho da glória literária.
Os seus primeiros escritos são, porém,
medíocres. Mas numa ânsia determinada
de aprender e de se cultivar, Balzac estuda e
lê ininterruptamente, de dia e de noite,
continuando sempre, porém, a congeminar
e a escrever os seus romances, as suas novelas,
os seus ensaios. Tem agora 20 e poucos anos de
idade e, com a “aventura” literária,
irmanando-se e entrelaçando-se com ela
até ao fim, vai começar também
a “aventura” galante e amorosa.
Depois de conhecer na intimidade Zulma Carraud,
conhece Laura de Berny, vinte e dois anos mais
velha do que ele, e que, pela sua abnegada dedicação
ao jovem e fogoso escritor, vai ser, como já
alguém escreveu, “sua amante, sua
amiga e sua mãe”. E mantém
ainda, por essa altura, ligações
íntimas com a Duquesa de Abrantes, viúva
do General Junot.
Entretanto, ao fazer 30 anos de idade, dá-se
em Balzac, até então um escritor
medíocre e quase desconhecido, uma autêntica
e súbita explosão de gênio:
publica nesse ano, assinadas já com o seu
verdadeiro nome, duas obras notáveis –
Les Chouans e Physiologie du Mariage – que
vão conhecer um rápido e imenso
sucesso, e que marcarão, de fato, o início
duma fulgurante ascensão literária.
Com efeito, é a partir daqui que, durante
apenas vinte anos (até à sua morte
em 18 de Agosto de 1850), Balzac, numa atividade
intelectual e social verdadeiramente incrível,
vai escrever cerca de 85 romances, além
de inúmeros contos e novelas, de milhares
de cartas e de vários ensaios filosóficos
e políticos, ao mesmo tempo que colabora
assiduamente em diversos jornais e revistas, e
se dispersa por uma intensa vida mundana, viajando
e freqüentando os salões da ”alta
roda” parisiense, como o da Princesa de
Bragation e o da célebre Madame Récamier.
Como um rio caudaloso, a vida de Balzac está
subjacente a toda a sua obra – a que ele
chamou La Comédie Humaine - marcando-a,
impregnando-a, fecundando-a com a experiência
excepcional de alguém que, de certo modo
como nenhum outro escritor, pagou ao mundo e à
vida, aos instintos, aos sonhos e ao gênio
o tributo mais pesado e mais dramático
que se pode conceber e pagar. Mas foi isso mesmo,
afinal, que lhe permitiu pôr de pé
e legar à humanidade um dos mais gigantescos,
geniais e fascinantes monumentos literários
de todos os tempos!
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Caro
Professor Flávio Ramos:
Oportuna, a homenagem que faz ao dia do poeta.
Penso, sinceramente, que dificilmente haverá
em outras línguas, tantos e de tamanha
envergadura como na nossa! O Brasil então
é celeiro abundante de grandes e maravilhosos
poetas.
Começando pelo nosso Imperador Pedro II,
relembre esta jóia de soneto escrito no
exílio com profunda melancolia, sem, todavia,
perder a sua grandeza de caráter e sem
uma palavra de queixume:
TERRAS DO BRASIL
Espavorida agita-se a criança
De noturnos fantasmas com receio,
Mas, se abrigo lhe dá materno seio,
Fecha os doridos olhos e descansa.
Perdida é para mim toda a esperança
De volver ao Brasil; de lá me veio
Um pugilo de terra; e nesta, creio,
Brando será meu sono, e sem tardança.
Qual o infante a dormir em peito amigo,
Tristes sombras varrendo da memória,
Ó doce pátria, sonharei contigo!
E entre visões de Paz, de Luz, de Glória,
Sereno, aguardarei no meu jazigo,
A justiça de Deus na voz da história.
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ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE O MUNDO
ATUAL
Enviado por Taveiros
Se pudéssemos sintetizar
a população do mundo num pequeno
vilarejo de 100 habitantes com as características
do mundo atual, como seria? Seria assim:
Haveria 57 asiáticos; 21 europeus; 14 americanos
(norte, sul e centro) e 8 africanos.
52 seriam mulheres e 48 homens; seriam 30 brancos
e 70 não brancos; Trinta seriam cristãos
e 70 não cristãos. Seriam 89 heterossexuais
e 11 homossexuais. Seis pessoas possuiriam 59%
das riquezas da vila, e todas elas seriam norte
americanas. Oitenta viveriam em casas sem condições
de higiene. Setenta seriam analfabetos. Cinqüenta
seriam mal alimentados. Um estaria quase a morrer
e outro quase a nascer. Um possuiria um computador.
Um teria título ou curso superior (sim,
somente um).
Considerando-se o mundo nesta perspectiva, está
clara a necessidade de aceitarmos a todos de forma
humana, educada e respeitosa.
Consideremos também isto: Se acordamos
hoje cheios de saúde, temos mais sorte
que milhões de pessoas que não a
têm.
Se nunca passamos pelas amarguras da vida; pela
solidão, pela agonia da tortura, pelo desespero
da fome; pelo enfado de viver, somos mais felizes
que 500 milhões de habitantes deste mundo.
Se podemos freqüentar quaisquer espetáculos,
sem ser ameaçados, presos, torturados ou
mortos, temos mais sorte que 3 bilhões
de pessoas do mundo. Se temos alimentação
em casa, roupas, um teto e um lugar para dormir,
somos mais ricos que 75% dos habitantes deste
planeta; Se temos algum dinheiro no banco, na
carteira, e uns trocados no bolso, estamos no
meio dos 8% das pessoas mais bem aquinhoadas do
mundo; Se temos os nossos pais ainda casados e
vivos, somos pessoas raras.
Se podemos ler esta mensagem, não nos encontramos
entre os 2 bilhões de pessoas que não
aprenderam a ler.
Alguém já disse:
Trabalhe como quem não precisa
de dinheiro.
Ame como ninguém o tivesse feito sofrer.
Dance como se ninguém o estivesse olhando.
Cante como se ninguém o estivesse ouvindo.
Viva como se o paraíso fosse aqui na Terra.
Faça com que o dia de hoje
seja um dia maravilhoso!
|
H
O M E N A G E M
Taveiros
Costumo ouvir e ler no aniversário dos
grandes artistas um pouco de suas obras: é
a minha homenagem. Assim, ouvi a suíte
número um em Sol Maior para violoncelo
sem acompanhamento de Bach. E nas obras completas
de Gonçalves Crespo, (Ed. Afrânio
Peixoto), encontro esta jóia de Canção.
Antonio Cândido Gonçalves
Crespo nasceu no Rio de Janeiro no dia
11 de Março de 1846, tendo vivido a maior
parte da sua existência em Portugal, onde
casou, quando ainda cursava o segundo ano de Direito
com a escritora portuguesa Maria Amália
Vaz de Carvalho. Diplomou-se. Foi Deputado em
Goa - Índia. Jornalista e membro de várias
Instituições de cultura, entre as
quais a Real Academia das Ciências de Lisboa.
Faleceu de tuberculose, aos 11 de Junho de 1883.
C
A N Ç Ã O
I
Mostraram-me um dia na roça dançando
Mestiça formosa de olhar azougado,
Co’um lenço de cores nos seios cruzado,
Nos lobos da orelha pingentes de prata.
Que viva mulata!
Por ela o feitor
Diziam que andava perdido de amor.
II
De entorno dez léguas da vasta fazenda
A vê-la corriam gentis amadores,
E aos ditos galantes de finos amores.
Abrindo seus lábios de viva escarlata,
Sorria a mulata,
Por quem o feitor
Nutria quimeras e sonhos de amor.
III
Um pobre mascate, que em noites de lua
Cantava modinhas, lunduns magoados,
Amando a faceira dos olhos rasgados,
Ousou confessar-lho com voz timorata...
Amaste-o, mulata!
E o triste feitor
Chorava na sombra perdido de amor.
IV
Um dia encontraram na fria senzala
O catre da bela mucamba vazio:
Embalde a procuram nas sombras da mata.
Fugira a mulata,
Por quem o feitor
Se foi definhando, perdido de amor.
|
Guloso de humor me confesso...
Taveiros
Poetas, prosadores e artistas das
mais variadas expressões têm tentado
definir o humor. Dirão muitas pessoas que
humor é o que faz rir ou sorrir. Não
é suficiente. Um político desses
falando de ética ou honestidade, fará
rir muita gente. Ou se um desses apresentadores
de televisão contar uma piada da mais rasteira
pornografia também fará rir. E,
no entanto, nem uma coisa nem outra passam perto
do humor.
O humor é uma espécie de reverberação
do espírito vinda das profundidades do
pensamento. Sou, desde jovem, um guloso pelo humor.
Gosto que ele me percorra o corpo como uma espécie
de linfa e se espraie no espírito em ondas
infindáveis. Muito cedo peguei a doença
| | | |