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  Bem Vindo ao Portal da Sabedoria.
 
       
     
 
 

Personalidade

Evaristo Dias da Silva
Poeta Escritor Advogado Artista Plástico

 
 

 

As encostas do alto Douro produzem os melhores vinhos do mundo. Quem já degustou um vinho do Porto guardará o paladar e a fragrância daquele néctar dos deuses para sempre.
As belas encostas de xisto acariciadas pelo sol a abnegação dos agricultores são os culpados desse pecado que tornou a região famosa.
Dessa terra abençoada veio nosso colunista Evaristo Dias da Silva.
Formado na fina arte da cinzelaria pela Escola industrial Faria Guimarães na cidade do Porto, Portugal, trabalhou nessa arte até a época do serviço militar e logo depois veio para o Brasil.
É correspondente do jornal português “O Arrais” da Régua, cidade onde nasceu, que dista do Porto 90 quilômetros.
No Brasil exerceu a sua arte de esculpir e gravar em metais nobres por algum tempo. Foi comerciante e dono de restaurante na Urca, onde recebeu a nata da televisão brasileira.
Formou-se em Direito.
Brasileiro, como poucos, escritor e poeta de mão-cheia, Evaristo Dias da Silva é um estudioso erudito da língua portuguesa e um perfeccionista.
Seu livro mais recente “A Invenção da Mulata” é um primor, um acepipe agradável de ser saboreado pelos que entendem e amam as belezas do nosso idioma. É para ser degustado como um “porto”.
Dono de um admirável senso de humor e perspicácia, nosso satírico colunista, assim se auto qualifica: cinco personagens num só cidadão:

Evaristo Dias Silva - brasileiro, advogado, pequeno empresário. Como empresário é razoável; mas falta-lhe a ambição para ganhar dinheiro.
Iavetros Sadi Lavis – judeu-grego, seu nome é um misto de Iavéh do hebraico e trois do francês. É dedicado às artes plásticas, conhece toda a teoria e quase todas as obras dos grandes mestres da pintura.
Taveiros Said Vilas - português de ascendência mourisca. É um gozador, tem talento, mas tem receio de mostrar o que escreve. Não faz questão de ser conhecido
Atorisev Siad Lasif – russo, músico, toca violão, balalaica e harmônica. Faltou-lhe tempo para levar a música a sério e agora que tem tempo já não quer saber prefere ouvir um CD.
Gosta de musica clássica e de todos os grandes mestres, mas Mozart é o seu preferido.
Vitoresa Disa Sival – inglesa, autoritária filha bastarda da rainha Vitória com um aventureiro. Gosta das artes culinárias. Reina com mão-de-ferro na cozinha. Sua culinária é simples, caseira, gostosa, cheirosa e possui alma, mais do que muito livro santo. Digna do paladar de Platão. Há quem afirme que no mundo não há nada mais saboroso.
Amigo leal e modesto e bom ouvinte, coisa difícil hoje. Sua modéstia só pode ser comparada ao seu imenso amor que sente pela família e pelo Brasil, país de sua escolha.
Evaristo Dias da Silva estará em sua coluna interativa respondendo ao questionamento dos leitores, comentando lançamentos de livros e curiosidades da Língua Portuguesa.

Flavio P. Ramos é Professor Universitário e Editor desse jornal

 
 
 

Receita para um Ano Feliz

Tome 12 meses completos.

Limpe-os cuidadosamente de toda a amargura, vaidade e inveja.

Corte cada mês em 28, 30, ou 31 pedaços diferentes,
mas não cozinhe todos ao mesmo tempo.

Prepare um dia de cada vez
com os seguintes ingredientes:

- Uma parte de
- Uma parte de paciência
- Uma parte de coragem
- Uma parte de trabalho

Junte a cada dia uma parte de esperança, de felicidade e amabilidade.

Misture bem, com uma parte de oração, uma parte de meditação
e uma parte de entrega.

Tempere com uma dose de bom espírito, um pouco de alegria,
um pouco de ação e uma boa medida de humor.
Coloque tudo num recipiente de amor.
Cozinhe bem, ao fogo de uma alegria radiante.
Guarneça com um sorriso e sirva sem reserva.

Vitoresa

N.R. Para entender melhor a brincadeira leia a reportagem sobre o colunista Evaristo Dias da Silva nesta página.

 

Miguel Torga, Deus e o Natal


Taveiros


Miguel Torga teve uma formação religiosa desde a infância e dela temos conhecimento através da leitura da sua obra.

No Diário XVI, escreve em 1 de setembro de 1992:

“Criei-me a pedir a Deus no seio da família que nos livrasse dos maus vizinhos à porta, e nunca deixei de acudir aos que fui tendo pela vida fora quando os vi necessitados dos meus préstimos.”


Numa outra citação do mesmo volume do Diário, revela hábitos da sua infância e refere uma peça preciosa que herdou da Mãe, “um livro” (a Bíblia) que era lido ao serão:

Coimbra, 14 de Setembro de 1992 – Saudosos tempos em que minha Mãe acendia uma vela ao Santíssimo pelo êxito dos meus exames e eu, sem de todo acreditar na intercessão divina, sentia, mesmo assim, supersticiosamente, as costas quentes diante dos mestres. (…)

«Nos já longínquos tempos da meninice, (…) à noite, (…) minha Mãe, à luz da candeia, lia incansavelmente um livro que depois herdei, e foi a maior fortuna que me podia legar. Nesse surrado voluminho, que comecei a soletrar também e acabei por devorar, havia histórias estranhas. (…)

Num desses relatos espantosos, um general mandava parar o sol para que os seus soldados pudessem ganhar uma guerra. O homem chamava-se Josué, e o seu nome passou a fazer parte da lista dos meus heróis.”

Como vimos, sua formação religiosa começou na infância, no seio da família, mas também se processou na Igreja e no Seminário de Lamego, para onde foi já com o quarto ano primário feito.

Sem vocação, desistiu e embarcou para o Brasil aos 13 anos, carregando muitos sacos de café nas costas em fazenda de Minas Gerais, regressando cinco anos depois. Acabou por se formar em Medicina na Universidade de Coimbra.

Pelos textos anteriores, poderíamos ser levados a pensar que a relação poética de Torga com Deus é pacífica e de bom entendimento, contudo não é assim. Em diversos poemas manifesta a sua rebeldia, irreverência, a sua descrença, mas noutros também reconhece a existência de Deus, ainda que prefira seguir o seu percurso isolado, como aliás fez na atividade de escritor, preferindo cantar as virtudes dos homens.

O poema “Cântico de Humanidade” da obra Nihil Sibi, cuja 1ª edição é de 1948, revela-nos a preocupação torguiana de engrandecer o Homem em relação à divindade.

“Hinos aos deuses, não.
Os homens é que merecem
Que se lhes cante a virtude. (...)
Apenas se os deuses querem
Ser homens, nós os cantemos. (…)
Nós também lhes demonstremos
Que são mortais e de barro.”

A propósito da valorização dos homens, recordemos uma anotação do Diário, em que Torga fala de uma noite de Consoada e alude a duas passagens dos Evangelhos que sempre o perturbaram:

“S. Martinho de Anta, 24 de Dezembro de 1968 — As rabanadas comidas, a família recolhida, a árvore de Natal apagada, e eu aqui à lareira, debruçado sobre as brasas da murra sacramental, a passar mais uma vez as velhas contas do meu rosário de perplexidades. Como é que o Pai mandou o Filho tão tarde salvar o mundo? Quando já tantos milhões de homens se tinham perdido e a estratificação de alguns pecados mortais era irremediável? Mistérios divinos (…)? Há duas passagens nos Evangelhos que sempre me perturbaram. Numa, Jesus ensina:

«Sede perfeitos como também vosso Pai celeste é perfeito». Na outra, mais preciso ainda, alude ao Salmo que diz: «Sois deuses».”

No poema “Aviso” do Diário VI, datado de 5 de Dezembro de 1952, o sujeito poético previne o próprio Deus da sua atitude de rebeldia, se não for satisfeita a sua condição:

“Um Deus que me queira, um dia,
Depois desta penitência
De viver,
Se me não der a inocência
Que perdi,
Terá o desgosto de ver
Que de novo lhe fugi.”

Em seguida, vamos ver um poema publicado na obra Câmara Ardente (1962), que é dos mais emblemáticos da sua relação de conflito com Deus. Neste texto, intitulado “Desfecho”, ainda que sempre tenha negado a Sua existência, acaba por reconhecer a “divina presença” a seu lado:

“Não tenho mais palavras.
Gastei-as a negar-te…
(Só a negar-te eu pude combater
O terror de te ver
Em toda a parte).
Fosse qual fosse o chão da caminhada,
Era certa a meu lado
A divina presença impertinente
Do teu vulto calado
E paciente…”

E, em seguida, exprime a luta contra quem perturba a sua solidão e acaba por concluir de forma sugestiva, mostrando que afinal Deus existe e é tão obstinado quanto o próprio sujeito poético, pois caminham ambos a
Par na teimosia:

“E lutei, como luta um solitário
Quando alguém lhe perturba a solidão
Fechado num ouriço de recusas,
Soltei a voz, arma que tu não usas,
Sempre silencioso na agressão.
Mas o tempo moeu na sua mó
O joio amargo do que te dizia…
Agora somos dois obstinados,
Mudos e malogrados,
Que apenas vão a par na teimosia.”

Em 1963, numa página do Diário X, revela uma atitude semelhante a esta, de tréguas com Deus, em que cada um existe sem interferir com o outro. Em apenas duas linhas revela claramente a sua dúvida:

“ Tréguas com Deus. Mas ainda não consegui saber se fui eu que deixei de lutar com ele, se foi ele que deixou
de lutar comigo.”
Em 1984, aos 77 anos, faz um registro no Diário XIV, também de duas linhas, no qual patenteia bem a sua relação com Deus, evidenciando a obsessão de negar a sua existência e, simultaneamente, a impossibilidade de
o esquecer:

“Coimbra, 25 de Dezembro de 1984 – Deus. O pesadelo dos meus dias. Tive sempre a coragem de o negar, mas nunca a força de o esquecer.”

Foi essa “força” de querer esquecer Deus, de o afastar da sua vida que levou a que não tivesse um funeral religioso. A sua descrença já tinha sido expressa, uma vez mais, em 1979, a propósito da Páscoa:

“S. Martinho de Anta, 15 de Abril de 1979 – Ser incréu custa muito! É dia de Páscoa. O gosto que eu teria de beijar também o Senhor, se acreditasse! Assim, olho a fé dos outros em aleluia, e fico nesta tristeza agnóstica que faz da vida uma agônica aventura sem esperança de ressurreição.”

E se em relação à Páscoa sucede o que vimos, em relação ao Natal a situação não é muito diferente.Em 1953 Torga considera que o Natal, a natividade, se dá quotidianamente na Natureza, mas os homens não reparam e preferem festejar o que chama “absurdos lógicos, construídos nas Judeias da imaginação”.

E, em 25 de Dezembro de 1983, no poema “Natal” insiste na questão da crença:

“Ninguém o viu nascer.
Mas todos acreditam
Que nasceu.
É um menino e é Deus. (...)
Agora, nos cueiros da imaginação,
Sorri apenas
A quem vem,
Enquanto a Mãe,
Também
Imaginada,
Com ele ao colo,
Se enternece
E enternece
Os corações,
Cúmplice do milagre, que acontece
Todos os anos e em todas as nações.”

Contudo, se em Deus não acredita, relativamente ao Menino Deus já não sucede o mesmo e vejamos porquê:

“S. Martinho de Anta, 24 de Dezembro de 1966.

NATAL
Leio o teu nome
Na página da noite:
Menino Deus...
E fico a meditar
No milagre dobrado
De ser Deus e menino.
Em Deus não acredito.
Mas de ti como posso duvidar?
Todos os dias nascem
Meninos pobres em currais de gado.

Crianças que são ânsias alargadas
De horizontes pequenos.
Humanas alvoradas...
A divindade é o menos.”
E, estabelecendo o contraste entre o Menino e a sua pessoa, escreve em 24 de Dezembro de 1988, no Diário XV:
“Coimbra, 24 de Dezembro de 1988.

NATAL
Menino Jesus feliz
Que não cresceste
Nestes oitenta anos!

Que não tiveste
Os desenganos
Que eu tive
De ser homem,
E continuas criança
Nos meus versos
De saudade
Do presépio
Em que também nasci,
E onde me vejo sempre igual a ti.”

E sobre a Virgem Maria, escreve no poema “Natal”, em 24 de Dezembro de 1973:
“E a lamentar que a mãe, Virgem Maria,
Humana criatura,
Continue a ter filhos no futuro
Condenados à mesma desventura.”
Em 24 de Dezembro de 1990, escreve o poema “Ultimo Natal”, que oferece ao Menino Jesus:
“Menino Jesus, que nasces
Quando eu morro,
E trazes a paz
Que não levo,
O poema que te devo
Desde que te aninhei
No entendimento,
E nunca te paguei
A contento
Da devoção,
Mal entoado,
Aqui te fica mais uma vez
Aos pés,
Como um tição
Apagado,
Sem calor que os aqueça.
Com ele me desobrigo e desengano:

És divino, e eu sou humano,
Não há poesia em mim que te mereça.”
Torga passou muitas vicissitudes para seguir os seus ideais, ele que foi um defensor do Homem e dos direitos humanos, um escritor comprometido com a defesa de valores humanistas, de solidariedade entre os homens, de preservação da liberdade, da identidade, da autenticidade, de fidelidade às origens.

E, 9 de Dezembro de 1993, em balanço final de uma vida, no penúltimo registro do Diário XVI, sintetiza os valores pelos quais lutou:
“De alguma coisa me hão-de valer as cicatrizes de defensor incansável do amor, da verdade e da liberdade, a tríade bendita que justifica a passagem de qualquer homem por este mundo.”

São valores como estes que todo o homem deve defender porque, quando há amor, há solidariedade, altruísmo, verdade, liberdade, respeito pelo outro, entreajuda, enfim, todo um conjunto de valores que qualquer homem deve almejar atingir, seja ou não católico e estejamos ou não na altura do Natal.


Biografia de Miguel Torga

nascido Adolfo Correia Rocha
Filho de Francisco Correia Rocha e Maria da Conceição Barros, gente humilde do campo do Concelho de Sabrosa (Alto Douro). Em 1917, aos dez anos, vai para uma casa apalaçada do Porto, habitada por parentes da família. Fardado de branco servia de porteiro, moço de recados, regava o jardim, limpava o pó e polia os metais da escadaria nobre, atendia campainhas. Foi despedido um ano depois, devido à constante insubmissão. Em 1918 vai para o Seminário de Lamego, onde viveu um dos anos cruciais da sua vida, tendo melhorado os conhecimentos de português, da geografia, da história, aprendido o latim e ganhado familiaridade com os textos sagrados. No fim das férias comunicou ao pai que não seria padre.

Emigrou para o Brasil em 1919, com doze anos, para trabalhar na fazenda do tio, na cultura do café. O tio apercebe-se da sua inteligência e patrocina-lhe os estudos liceais, em Leopoldina. Distingue-se como um aluno dotado. Em 1925, na convicção de que ele havia de vir a ser doutor em Coimbra, o tio propôs-se pagar-lhe os estudos como recompensa dos cinco anos de serviço o que levou ao seu regresso a Portugal.
Em 1928 entra para a Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra e publica o seu primeiro livro, "Ansiedade", de poesia. Em 1929, com 22 anos, deu início à colaboração na revista Presença, folha de arte e crítica, com o poema “Altitudes”. A revista, fundada em 1927 pelo grupo literário avançado de José Régio, Gaspar Simões e Branquinho da Fonseca, era bandeira literária do grupo modernista e era também, bandeira libertária da Revolução Modernista. Em 1930 rompe definitivamente com a revista Presença, por "razões de discordância estética e razões de liberdade humana".
É bastante crítico da praxe e tradições acadêmicas, e chama depreciativamente "farda" à capa e batina, mas ama a cidade de Coimbra, onde viria também a exercer a sua profissão de médico a partir de 1939 e onde escreve a maioria dos seus livros. Em 1933 concluiu a formatura em Medicina, com apoio financeiro do tio do Brasil. Exerceu no início nas agrestes terras transmontanas, de onde era originário e que são pano de fundo da maior parte da sua obra.

Casa com Andrée Crabbé em 1940, estudante de nacionalidade belga aluna de Estudos Portugueses, ministrados por Vitorino Nemésio em Bruxelas que viera a Portugal para frequentar um curso de férias na Universidade de Coimbra. A sua filha, Clara Rocha, nasce a 3 de Outubro de 1955.

A origem do pseudonimo
Em 1934, aos 27 anos, Adolfo Correia Rocha autodefine-se pelo pseudónimo que criou, "Miguel" e "Torga". Miguel, em homenagem a dois grandes vultos da cultura ibérica: Miguel de Cervantes e Miguel de Unamuno. Já Torga é uma planta brava da montanha, que deita raízes fortes sob a aridez da rocha, de flor branca, arroxeada ou cor de vinho, com um caule incrivelmente rectilíneo. A sua campa rasa em São Martinho de Anta tem uma torga plantada a seu lado, em honra ao poeta.

A obra de Torga
A obra de Torga tem um carácter humanista: criado nas serras trasmontanas, entre os trabalhadores rurais, assistindo aos ciclos de perpetuação da Natureza, Torga aprendeu o valor de cada homem, como criador e propagador da vida e da Natureza: sem o homem, não haveria searas, não haveria vinhas, não haveria toda a paisagem duriense, feita de socalcos nas rochas, obra magnífica de muitas gerações de trabalho humano. Ora, estes homens e as suas obras levam Torga a revoltar-se contra a Divindade Transcendente a favor da imanência: para ele, só a humanidade seria digna de louvores, de cânticos, de admiração: (hinos aos deuses, não/os homens é que merecem/que se lhes cante a virtude/bichos que cavam no chão/actuam como parecem/sem um disfarce que os mude).

Para Miguel Torga, nenhum deus é digno de louvor: na sua condição omnisciente é-lhe muito fácil ser virtuoso, e enquanto ser sobrenatural não se lhe opõe qualquer dificuldade para fazer a Natureza - mas o homem, limitado, finito, condicionado, exposto à doença, à miséria, à desgraça e à morte é também capaz de criar, e é sobretudo capaz de se impor à Natureza, como os trabalhadores rurais trasmontanos impuseram a sua vontade de semear a terra aos penedos bravios das serras. E é essa capacidade de moldar o meio, de verdadeiramente fazer a Natureza mau grado todas as limitações de bicho, de ser humano mortal que, ao ver de Torga fazem do homem único ser digno de adoração.

Considerado por muitos como um avarento de trato difícil e carácter duro, foge dos meios das elites pedantes, mas dá consultas médicas gratuitas a gente pobre e é referido pelo povo como um homem de bom coração e de boa conversa.



Dois sonetos - duas jóias - da literatura brasileira do final do século XIX,
quando se conhecia e se amava a nossa língua!
De “O Brasil que os poetas cantam” Taveiros.


G U A N A B A R A
Osvaldo Orico

Depois de olhar os mundos que criara,
Trepidantes de força e de esplendor,
Deus, naquela manhã pródiga e rara,
Deixando de ser Deus, Fez-se pintor.

Quis dar à Natureza outro primor
E, com o mesmo pincel que o Éden pintara,
Gravou no mapa-mundi o traço e a cor
Dos montes e dos céus da Guanabara.

É por isso, ó viajante deslumbrado,
Que vês de longe, sobre o Corcovado,
Unido o Criador à obra tamanha;

E olhas, resplandecente de beleza,
Cristo desabrochar da Natureza
Como um lírio de luz sobre a montanha!...


A B Í B L I A VE R D E
Álvaro Bomilcar

Vive feliz e morre como um santo.
O campônio, o caipira, o sertanejo,
Que, à distância de um pobre lugarejo,
Habita, em paz, bucólico recanto.

Pois quando a noite estende o negro manto,
Dorme sem ambição e sem desejo...
E quando o sol envia louro beijo,
De manhã, se levanta sem quebranto.

Feliz porque nasceu de pais obscuros,
E morrerá na rústica pureza,
Na boa fé dos sentimentos puros!

Sem ciência, nem livros em que estude,
Só saber ler, conforme a Natureza,
A Bíblia Verde da existência rude!

“De O Brasil que os poetas cantam”


DEVERES DO PROFESSOR

Enviado por *Milton Larentis

1. O professor não abusará da inexperiência, da falta de conhecimento ou da imaturidade dos alunos, com o objetivo de cooptá-los para esta ou aquela corrente político-ideológica, nem adotará livros didáticos que tenham esse objetivo.

2. O professor não favorecerá nem prejudicará os alunos em razão de suas convicções políticas, ideológicas, religiosas, ou da falta delas.

3. O professor não fará propaganda político-partidária em sala de aula nem incitará seus alunos a participar de manifestações, atos públicos e passeatas.

4. Ao tratar de questões políticas, sócio-culturais e econômicas, o professor apresentará aos alunos, de forma justa isto é, com a mesma profundidade e seriedade, as principais versões, teorias, opiniões e perspectivas concorrentes a respeito.

5. O professor não criará em sala de aula uma atmosfera de intimidação, ostensiva ou sutil, capaz de desencorajar a manifestação de pontos de vista discordantes dos seus, nem permitirá que tal atmosfera seja criada pela ação de alunos sectários ou de outros professores.

*Filosofo e professor do terceiro grau

 

A conspiração

Taveiros

Apesar de tantas e atuais opções de diversão e lazer, televisão a cabo, Internet, etc., a leitura ainda é uma boa opção! Ler faz bem à alma, dá asas à imaginação, e quando nos mostra o outro lado de instituições e acontecimentos reais, a obra suga-nos e arrasta-nos através de um mundo enigmático. Acontece assim com os livros de Dan Brown.

Dan Brown é um escritor norte–americano. Nasceu no dia 22 de junho de 1964, em Exeter, uma cidade do Estado de New Hampshire. Após a sua graduação na Phillips Academy, no ano de 1982, Dan Brown entrou para o Amherst College e no seu primeiro ano teve que estudar História da Arte na Europa na Universidade de Sevilha onde se debruçou nos trabalhos de Leonardo Da Vinci, que mais tarde teriam um papel importante numa das suas obras. Dan Brown é filho de um eminente matemático, Richard G. Brown e tinha como hobby a música sacra, e de Constance, também formada em música.

Dan Brown cresceu literalmente na escola rodeado de livros de filosofia, história e religião, o que contribuiu significativamente para elaboração das suas obras. Foi professor de Inglês durante alguns anos até conseguir realizar o seu sonho: ser escritor. As suas obras são: O Código da Vinci, Anjos e Demônios, A Conspiração e Fortaleza Digital. Atualmente é um dos escritores mais famosos e conceituados do mundo, tendo os seus livros na lista dos mais vendidos do New York Times. Tal como o escritor brasileiro Paulo Coelho, também Don Brown se inspira no escritor Jean Pierre Santiago, considerado um alquimista moderno, pois a sua visão de transformação vai além das raízes da alquimia primitiva.

Em pleno gelo do Ártico, a NASA descobre um estranho objeto enterrado nas profundezas da Plataforma de Milne. Uma descoberta arrebatadora quer para a agência espacial quer para a futura eleição presidencial, uma vez que o Senador Sexton acreditava afincadamente que a NASA era uma fonte de despesas inútil, o que decorria dos seus fracassos recentes.

Para constatar a veracidade da descoberta são chamados civis, entre eles a filha do Senador, Rachel Sexton, e um erudito e carismático oceanógrafo, Michael Toland. Todos assistem entusiasmados à extração do meteorito, que continha fósseis, contudo, o poço de extração apresenta alguns mistérios: organismos bioflorescentes, indicando um embuste científico. A bomba rebenta e a autenticidade da descoberta é posta em dúvida.

Então, eis que acontece o imprevisível: a equipe de civis cai numa emboscada operada por uma equipe de assassinos.

A luta pela sobrevivência passa a ser o ponto fulcral naquela paisagem inóspita e letal. São vítimas de uma perseguição sem tréguas ao longo do Ártico, resguardando-se num submarino nuclear e indo parar num barco na costa de New Jersey, tudo porque são detentores da verdade mais surpreendente já alguma vez vista. Naquele dia, as pessoas em quem mais confiavam encontravam-se, só e simplesmente, do lado oposto, querendo arrastar o mundo para a mentira. Ninguém, em lugar nenhum, se encontra em segurança. A ambição pelo poder faz com que se esqueça tudo e todos, não olhando a meios para se atingir os fins.

Contudo, a verdade surge e descobre-se que se trata da mais espantosa e audaz conspiração alguma vez vista, levando o mundo para um turbilhão de controvérsia.

Um livro verdadeiramente magnífico. Prende o leitor do início ao fim, não se conseguindo parar de ler. Ao virar de cada página espera-nos uma fabulosa surpresa, recheada de mistério e de magia. Uma obra que apresenta uma escrita de fácil compreensão e acessibilidade; uma história onde existe um turbilhão de emoções, medo, pânico total, surpresa, entusiasmo, amor... mas também muita imaginação envolvendo organizações e tecnologias reais. Uma história comovente e enigmática, uma vez que a súbita mudança de acontecimentos evidencia a mão implacável do destino e a luta incansável pela sobrevivência quando se vê a morte no passo seguinte. Como afirma o autor, “A vida está cheia de decisões difíceis (...) e os vencedores são aqueles que as tomam”, e ainda: “Tentam o impossível, aceitam o fracasso, enquanto nós criticamos e recuamos...” – lições de vida que evidenciam que, quando se encontra um obstáculo, deve-se sempre tentar ultrapassá-lo de cabeça erguida. Lendo o livro tem-se a capacidade de imaginar o cenário e sentir as emoções que percorrem e invadem as personagens. Uma incrível capacidade de suspense que suga o leitor para a história e onde todas as peças do puzzle se encaixam na perfeição.

Quando cheguei à última página, a minha vontade era ir, novamente para a primeira...

O importante papel do tempo

Taveiros

Ao tempo da morte de Luciano Pavarotti eu quis escrever um texto sobre o histórico tenor, mas a verdade é que me vi limitado pela pressão que surgiu no ambiente operístico e cultural, no sentido de que se estava perante o maior tenor de sempre.

Apesar de gostar muito da sua voz, não era essa a minha opinião, desde que há perto de três décadas me comecei a interessar pelo mundo da ópera.

Assim, deixei fluir o tempo, de modo a que se conseguisse a distância essencial a uma apreciação desapaixonada do problema. Até que há umas semanas me foi dado saber que uma sondagem realizada pela BBC Music Magazine, junto de gente internacionalmente conhecedora do mundo da ópera, elegeu Plácido Domingo como o melhor tenor de todos os tempos.

Naturalmente que uma tal decisão não é absoluta, mas tem valia própria de dois fatores, que são a série dos vinte melhores tenores de sempre, na opinião dos sondados, e o fato de se tratar de um conjunto de eleitores especializados no domínio da ópera.

Mas foi com espanto que tomei conhecimento de que José Carreras não veio a figurar naquela lista dos vinte melhores tenores de sempre. Todavia, na opinião do leque vasto de especialistas sondados, está bem claro. Em contrapartida, surgiu em décimo terceiro lugar, Juan Diego Flores, hoje com trinta e cinco anos de idade, e por muitos apontado como o sucessor de Plácido Domingo.

Ora, como se pode estabelecer um critério aceitável para se proceder a uma classificação deste tipo? Bem, não há, está claro, um critério único, mas há os que são mais lógicos que outros. E três fatores essenciais a ter em conta são a extensão do repertório cantado, a do editado e a globalidade do papel desempenhado no domínio em apreço.

Quando se lança mão deste lógico e natural critério, a resposta expectável é a que surgiu agora pela voz da BBC Music Magazine:

Plácido Domingo foi, até hoje, o maior tenor de sempre. No fundo, o critério que justifica que José Carreras não tenha surgido naquela série dos vinte melhores tenores de todos os tempos.

Nas intervenções de Luciano Pavarotti, o grande agrado que o público sempre encontrou foi o derivado do timbre da sua voz. Uma voz napolitana, que se encontra por igual, em Máro Del Mônaco. Gravações existem, como se dá, por exemplo, com Mefistófeles, de Arrigo Boito, onde se torna difícil encontrar diferenças fortes entre os dois napolitanos, mas, enfim, o tempo permitiu algum esclarecimento, ao menos à luz do meu pensamento sobre o tema.

Numa simples tela

Taveiros

Era uma tela em branco até hoje, quando a decidi pintar. Queria pintar um mundo colorido, repleto de mil e uma cores, com pessoas felizes, uma Natureza edílica e acolhedora, um sol resplandecente salientando a beleza natural de um mundo perfeito. Água jorrando, límpida e abundante pelas encostas verdejantes de uma montanha. Contudo, as minhas mãos teimavam em pintar um mundo a preto e branco. Um mundo escuro, sem cor, sem vida... triste. Nada do que tinha planejado estava pintado, tudo tinha saído exatamente o contrário. Senti-me triste, desiludido comigo próprio...

Fiquei triste e já me considerava derrotado, mas, passada uma hora de reflexão em que todas as memórias passam alternadamente como um filme pela cabeça, ganhei forças e retomei o pincel. Em todas as minhas recordações encontrei algo de comum que me ajudou a superar os momentos mais dramáticos. Não sabendo como representar esse sentimento, optei por escrever o seu nome.
Comecei a delineá-lo em preto. Mas a palavra parecia ter vontade própria, pois à medida que a ia pintando ela aparecia representada em mil cores. Cores que transmitiam união, alegria, companheirismo, cumplicidade, força...

A palavra “Amizade” vincada naquela tela deixava transparecer tudo o que esse sentimento significa. Se para uns bastam palavras, para outros as palavras são pouco.

Pequenos gestos..., simples músicas...,banais palavras..., escassos segundos... podem marcar para sempre. Marcar uma pessoa para o resto da vida, provocando lágrimas e choros intensos. Como afirmou Vinícius de Moraes: “Eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos! A alguns deles não procuro, basta saber que eles existem. Esta mera condição me encoraja a seguir em frente pela vida... mas é delicioso que eles saibam e sintam que eu os adoro, embora não o declare e os procure sempre...”.

Sei que os verdadeiros amigos não são aqueles que estão sempre conosco, mas sim aqueles que vêm quando o resto do mundo se foi embora, aqueles que não só partilham alegrias, mas também as tristezas, os momentos bons e maus...

Como é difícil definir a amizade! Talvez porque não tem definição, é apenas sentida. As ações e as palavras existentes em todo o mundo resumem-se a pó quando a amizade é intensa e vivida em toda a sua plenitude e pureza.

Agora sinto-me feliz. Na tela deixei transparecer o sentimento mais lindo, sem sombras de hipocrisia. Ele só e o seu significado. A palavra fala por si.

A tela está simples. Nada como a simplicidade para realçar as coisas escondidas da pureza. Só a palavra marca uma forte presença. As idéias estão lá patentes, fica ao critério de cada um, dependendo da amizade que o rodeia, tirar o seu significado.

Quando terminei, uma lágrima rolou por minha face, não pela tristeza que sentia, mas sim pela força da AMIZADE...

 


Curiosidades da língua portuguesa, como
é rica!

Enviado por Roberto Carrazedo

Este texto é todo ele sem a letra A

É possível sim.
Sem nenhum tropeço posso escrever o que quiser sem ele, pois rico é o português e fértil em recursos diversos, tudo isso permitindo mesmo o que de início, e somente de início, se pode ter como impossível. Pode-se dizer tudo, com sentido completo, mesmo sendo como se isto fosse mero ovo de Colombo.

Desde que se tente sem se pôr inibido pode muito bem o leitor empreender este belo exercício, dentro do nosso fecundo e peregrino dizer português, puríssimo instrumento dos nossos melhores escritores e mestres do verso, instrumento que nos legou monumentos dignos de eterno e honroso reconhecimento.

Trechos difíceis se resolvem com sinônimos. Observe-se bem: é certo que, em se querendo esgrime-se sem limites com este divertimento instrutivo. Brinque-se mesmo com tudo. É um belíssimo esporte do intelecto, pois escrevemos o que quisermos sem o 'E' ou sem o 'I' ou sem o 'O' e, conforme meu exclusivo desejo, escolherei outro, discorrendo livremente, por exemplo sem o 'P', 'R' ou 'F', o que quiser escolher, podemos, em corrente estilo, repetir um som sempre ou mesmo escrever sem verbos.

Com o concurso de termos escolhidos, isso pode ir longe, escrevendo-se todo um discurso, um conto ou um livro inteiro sobre o que o leitor melhor preferir. Porém mesmo sem o uso pernóstico dos termos difíceis, muito e muito se prossegue do mesmo modo, discorrendo sobre o objeto escolhido, sem impedimentos. Deploro sempre ver moços deste século inconscientemente esquecerem e oprimirem nosso português, hoje culto e belo, querendo substituí-lo pelo inglês. Por quê?

Cultivemos nosso polifônico e fecundo verbo, doce e melodioso, porém incisivo e forte, messe de luminosos estilos, voz de muitos povos, escrínio de belos versos e de imenso porte, ninho de cisnes e de condores.

Honremos o que é nosso, ó moços estudiosos, escritores e professores. Honremos o digníssimo modo de dizer que nos legou um povo humilde, porém viril e cheio de sentimentos estéticos, pugilo de heróis e de nobres descobridores de mundos novos.


Autor: Desconhecido.

 

Machado de Assis

Taveiros


No dia 21 de Junho de 1839, nascia numa casa humilde no morro do Livramento (atrás da Central do Brasil) nesta cidade do Rio de Janeiro, Joaquim Maria Machado de Assis, aquele que viria a ser um dos maiores poetas e escritores da nossa língua.

Estilista primoroso, psicólogo delicado, observador dotado de uma ironia indulgente e graciosa, é uma glória da literatura brasileira. Sua mãe, Leopoldina Machado, jovem portuguesa da ilha de S. Miguel, trabalhava duramente como lavadeira sempre com seu filhinho ao lado e cantando dolente: “Dorme meu filhinho/, mamãzinha logo vem/, Foi lavar sua roupinha/ na fontinha de Belém...” O pai, Francisco José de Assis, era filho de pardos, que tinham tido a sorte de serem livres. Era pintor de paredes, mas ganhava o suficiente para uma vida modesta. Sua mãe costumava levá-lo a visitar seus padrinhos que moravam num belo palacete, na quinta do Livramento no mesmo bairro, e que sempre insistiam em ver o afilhado, e creio que foi daí, na casa dos padrinhos, que o futuro escritor observou os hábitos da boa sociedade fluminense, que mais tarde descreveria com inimitável perfeição. Aos domingos, após o almoço, passeava com o pai pela Praia Formosa, que se localizava nas imediações da hoje Rodoviária Novo Rio.

Bem cedo perdeu a mãe e a irmãzinha, e o pai logo se casou de novo com Maria Inês, mulata como ele e de ótimo coração; foram morar em S. Cristóvão. Foi ela quem ensinou as primeiras letras ao menino e admirava-se de como ele aprendia tão rápido. Em seguida morreria o pai, e a madrasta, sem nenhuns recursos, empregou-se num colégio, cujas donas incumbiram o pequeno Joaquim a vender-lhes as quitandas, balas e cocadas pelas ruas do bairro.

Nas horas das aulas o menino esgueirava-se pelos corredores, e conseguia ouvir alguma coisa das explicações da mestra, e os livros que conseguia emprestados supriam-lhe as deficiências das explicações. Freqüentava muito uma padaria da Rua S. Luiz Gonzaga cuja dona era francesa e que lhe dava aulas de francês. O forneiro, também francês, dava-lhe lições suplementares.

Maria Inês era muito piedosa, e levou o enteado à Igreja da Lampadosa para que ele ficasse lá como coroinha. Vinha de barco do Campo de S. Cristóvão ao centro da Cidade, e enquanto os outros passageiros se divertiam, ele se agarrava ao livro de latim. Após as missas, depois de receber a magra espórtula, que era o seu sustento, o rapazinho corria ao Gabinete Português de Leitura, ali ao lado, onde encontrava farta Biblioteca à sua disposição.“ Vou continuar hoje a leitura dos Lusíadas!” dizia.

Foi auxiliar de tipografia e começou a escrever artigos como crítico de teatro em jornais e revistas.

Amigo do português Faustino Xavier Novais, conheceu sua irmã Carolina Augusta Xavier Novais, de quem se apaixonou e com quem casou. Viveram felizes durante muitos anos. Não tiveram filhos, e depois de prolongada doença, Carolina faleceu, e então ele escreve um dos mais belos e sentidos sonetos da nossa língua.


“Querida, ao pé do leito derradeiro
Em que descansas desta longa vida,
Aqui venho e virei, pobre querida,
Trazer-te o coração do companheiro.

Pulsa-me aquele afeto verdadeiro
Que, a despeito de toda a humana lida.
Fez nossa existência apetecida
E num recanto pôs o mundo inteiro.

Trago-te flores – rostos arrancados
Da terra que nos viu passar unidos
E ora mortos nos deixa separados.

Que eu, se tenho nos olhos mal feridos
Pensamentos de vida formulados ,
São pensamentos idos e vividos.”

Há uma velha discussão e comparação entre os admiradores destes dois expoentes da nossa língua. Eça de Queiroz e Machado de Assis. Vivemos numa cultura realmente que compara, que censura, que avalia, que conclui, sem nos darmos ao cuidado de ver. Ver sem idéias preconcebidas, sem condicionamentos. O fato é que os dois são grandes, e seriam grandes em qualquer literatura. Eu gosto dos dois, e já li toda a obra de ambos; Cada um tem o seu estilo, Eça é mais contundente, Machado mais soft, comparando-se por exemplo a Capitu do D. Casmurro, à Luisa do primo Basílio, mas ambos geniais.

A critica que Machado de Assis fez sobre o “Primo Basílio” foi uma das melhores páginas da crítica brasileira já publicadas. O próprio Eça de Queiroz respondeu-lhe de Newcastle, na Inglaterra onde era Cônsul, e mais tarde fê-lo representante no Brasil para defesa de direitos autorais.

Eça teve uma formação acadêmica muito sólida, o liceu na cidade do Porto, e a Universidade em Coimbra, além de ter vivido quase toda a vida em Inglaterra e em Paris e de ser considerado o andador de Continentes. Esteve nos Estados Unidos, Canadá, Oriente Médio etc., numa época em que para atravessar o Atlântico de navio demorava meses.

Machado de Assis, mestiço, de origem humilde, pobre e desvalido, é um exemplo do que pode conseguir a força da vontade, e é como autodidata que alcança o mais alto firmamento das nossas letras e chega à presidência da Academia Brasileira de Letras, e seu fundador.

 

Falando de Balzac

Taveiros

Confesso francamente que desejaria poder dispor agora de mais algum tempo, para “conversar” aqui demoradamente acerca da Vida e da Obra de Balzac.

É que o grande escritor francês foi e é, na verdade, um dos maiores romancistas do mundo (quando não mesmo “o maior”, como o considerou André Wurmser), e a sua vida – a mundana, a íntima e, sobretudo a amorosa – constitui, afinal, o mais extraordinário e o mais empolgante de todos os seus romances.

Parece mesmo ser sina de certos grandes escritores desempenharem na vida real, como homens, um papel bem mais romanesco e dramático do que aquele que fazem viver às personagens de ficção com que constroem e povoam as suas criações literárias.

Para compreender a obra de Balzac é necessário conhecer a sua vida.

Nascido na cidade francesa de Tours, a 20 de maio de 1779, e depois de uma infância profundamente infeliz, sem o amor da mãe (que praticamente o abandonou) e sem o calor e o aconchego de um lar (e, como interno num colégio de Oratorianos cuja disciplina espartana tanto se opunha à sua natureza sensível e fogosa), o jovem Honoré de Balzac, aos 18 anos de idade, instala-se sozinho num quarto de uma velha casa de Paris, na Rua Lesdiguières, perto da Praça da Bastilha, levando aí a vida triste, solitária e difícil, com fome e com frio, que veio depois a descrever no seu romance La Peau de Cagrin.

Entretanto, estuda Direito e, para “conciliar a teoria com a prática” vai estagiando no escritório de um advogado (que ele retratará e imortalizará mais tarde, sob o nome de Derville, em La Comédie Humaine).

Todavia, porque a mensalidade que recebe do pai é muito modesta, mal lhe permitindo sobreviver com ela, Balzac pensa em escrever qualquer coisa para publicar e conseguir obter, assim, mais algum dinheiro com que possa custear os seus gastos pessoais. E é isso, afinal, que o vai lançar no caminho da glória literária.

Os seus primeiros escritos são, porém, medíocres. Mas numa ânsia determinada de aprender e de se cultivar, Balzac estuda e lê ininterruptamente, de dia e de noite, continuando sempre, porém, a congeminar e a escrever os seus romances, as suas novelas, os seus ensaios. Tem agora 20 e poucos anos de idade e, com a “aventura” literária, irmanando-se e entrelaçando-se com ela até ao fim, vai começar também a “aventura” galante e amorosa.

Depois de conhecer na intimidade Zulma Carraud, conhece Laura de Berny, vinte e dois anos mais velha do que ele, e que, pela sua abnegada dedicação ao jovem e fogoso escritor, vai ser, como já alguém escreveu, “sua amante, sua amiga e sua mãe”. E mantém ainda, por essa altura, ligações íntimas com a Duquesa de Abrantes, viúva do General Junot.

Entretanto, ao fazer 30 anos de idade, dá-se em Balzac, até então um escritor medíocre e quase desconhecido, uma autêntica e súbita explosão de gênio: publica nesse ano, assinadas já com o seu verdadeiro nome, duas obras notáveis – Les Chouans e Physiologie du Mariage – que vão conhecer um rápido e imenso sucesso, e que marcarão, de fato, o início duma fulgurante ascensão literária.

Com efeito, é a partir daqui que, durante apenas vinte anos (até à sua morte em 18 de Agosto de 1850), Balzac, numa atividade intelectual e social verdadeiramente incrível, vai escrever cerca de 85 romances, além de inúmeros contos e novelas, de milhares de cartas e de vários ensaios filosóficos e políticos, ao mesmo tempo que colabora assiduamente em diversos jornais e revistas, e se dispersa por uma intensa vida mundana, viajando e freqüentando os salões da ”alta roda” parisiense, como o da Princesa de Bragation e o da célebre Madame Récamier.

Como um rio caudaloso, a vida de Balzac está subjacente a toda a sua obra – a que ele chamou La Comédie Humaine - marcando-a, impregnando-a, fecundando-a com a experiência excepcional de alguém que, de certo modo como nenhum outro escritor, pagou ao mundo e à vida, aos instintos, aos sonhos e ao gênio o tributo mais pesado e mais dramático que se pode conceber e pagar. Mas foi isso mesmo, afinal, que lhe permitiu pôr de pé e legar à humanidade um dos mais gigantescos, geniais e fascinantes monumentos literários de todos os tempos!


Caro Professor Flávio Ramos:

Oportuna, a homenagem que faz ao dia do poeta.
Penso, sinceramente, que dificilmente haverá em outras línguas, tantos e de tamanha envergadura como na nossa! O Brasil então é celeiro abundante de grandes e maravilhosos poetas.
Começando pelo nosso Imperador Pedro II, relembre esta jóia de soneto escrito no exílio com profunda melancolia, sem, todavia, perder a sua grandeza de caráter e sem uma palavra de queixume:

TERRAS DO BRASIL

Espavorida agita-se a criança
De noturnos fantasmas com receio,
Mas, se abrigo lhe dá materno seio,
Fecha os doridos olhos e descansa.

Perdida é para mim toda a esperança
De volver ao Brasil; de lá me veio
Um pugilo de terra; e nesta, creio,
Brando será meu sono, e sem tardança.

Qual o infante a dormir em peito amigo,
Tristes sombras varrendo da memória,
Ó doce pátria, sonharei contigo!

E entre visões de Paz, de Luz, de Glória,
Sereno, aguardarei no meu jazigo,
A justiça de Deus na voz da história.

 


ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE O MUNDO ATUAL

Enviado por Taveiros

Se pudéssemos sintetizar a população do mundo num pequeno vilarejo de 100 habitantes com as características do mundo atual, como seria? Seria assim:

Haveria 57 asiáticos; 21 europeus; 14 americanos (norte, sul e centro) e 8 africanos.
52 seriam mulheres e 48 homens; seriam 30 brancos e 70 não brancos; Trinta seriam cristãos e 70 não cristãos. Seriam 89 heterossexuais e 11 homossexuais. Seis pessoas possuiriam 59% das riquezas da vila, e todas elas seriam norte americanas. Oitenta viveriam em casas sem condições de higiene. Setenta seriam analfabetos. Cinqüenta seriam mal alimentados. Um estaria quase a morrer e outro quase a nascer. Um possuiria um computador. Um teria título ou curso superior (sim, somente um).

Considerando-se o mundo nesta perspectiva, está clara a necessidade de aceitarmos a todos de forma humana, educada e respeitosa.

Consideremos também isto: Se acordamos hoje cheios de saúde, temos mais sorte que milhões de pessoas que não a têm.

Se nunca passamos pelas amarguras da vida; pela solidão, pela agonia da tortura, pelo desespero da fome; pelo enfado de viver, somos mais felizes que 500 milhões de habitantes deste mundo. Se podemos freqüentar quaisquer espetáculos, sem ser ameaçados, presos, torturados ou mortos, temos mais sorte que 3 bilhões de pessoas do mundo. Se temos alimentação em casa, roupas, um teto e um lugar para dormir, somos mais ricos que 75% dos habitantes deste planeta; Se temos algum dinheiro no banco, na carteira, e uns trocados no bolso, estamos no meio dos 8% das pessoas mais bem aquinhoadas do mundo; Se temos os nossos pais ainda casados e vivos, somos pessoas raras.

Se podemos ler esta mensagem, não nos encontramos entre os 2 bilhões de pessoas que não aprenderam a ler.

Alguém já disse:

Trabalhe como quem não precisa de dinheiro.
Ame como ninguém o tivesse feito sofrer.
Dance como se ninguém o estivesse olhando.
Cante como se ninguém o estivesse ouvindo.
Viva como se o paraíso fosse aqui na Terra.

Faça com que o dia de hoje seja um dia maravilhoso!


H O M E N A G E M

Taveiros


Costumo ouvir e ler no aniversário dos grandes artistas um pouco de suas obras: é a minha homenagem. Assim, ouvi a suíte número um em Sol Maior para violoncelo sem acompanhamento de Bach. E nas obras completas de Gonçalves Crespo, (Ed. Afrânio Peixoto), encontro esta jóia de Canção.

Antonio Cândido Gonçalves Crespo nasceu no Rio de Janeiro no dia 11 de Março de 1846, tendo vivido a maior parte da sua existência em Portugal, onde casou, quando ainda cursava o segundo ano de Direito com a escritora portuguesa Maria Amália Vaz de Carvalho. Diplomou-se. Foi Deputado em Goa - Índia. Jornalista e membro de várias Instituições de cultura, entre as quais a Real Academia das Ciências de Lisboa. Faleceu de tuberculose, aos 11 de Junho de 1883.

C A N Ç Ã O
I
Mostraram-me um dia na roça dançando
Mestiça formosa de olhar azougado,
Co’um lenço de cores nos seios cruzado,
Nos lobos da orelha pingentes de prata.
Que viva mulata!
Por ela o feitor
Diziam que andava perdido de amor.

II
De entorno dez léguas da vasta fazenda
A vê-la corriam gentis amadores,
E aos ditos galantes de finos amores.
Abrindo seus lábios de viva escarlata,
Sorria a mulata,
Por quem o feitor
Nutria quimeras e sonhos de amor.

III
Um pobre mascate, que em noites de lua
Cantava modinhas, lunduns magoados,
Amando a faceira dos olhos rasgados,
Ousou confessar-lho com voz timorata...
Amaste-o, mulata!
E o triste feitor
Chorava na sombra perdido de amor.

IV
Um dia encontraram na fria senzala
O catre da bela mucamba vazio:
Embalde a procuram nas sombras da mata.
Fugira a mulata,
Por quem o feitor
Se foi definhando, perdido de amor.


 


Guloso de humor me confesso...


Taveiros


Poetas, prosadores e artistas das mais variadas expressões têm tentado definir o humor. Dirão muitas pessoas que humor é o que faz rir ou sorrir. Não é suficiente. Um político desses falando de ética ou honestidade, fará rir muita gente. Ou se um desses apresentadores de televisão contar uma piada da mais rasteira pornografia também fará rir. E, no entanto, nem uma coisa nem outra passam perto do humor.

O humor é uma espécie de reverberação do espírito vinda das profundidades do pensamento. Sou, desde jovem, um guloso pelo humor. Gosto que ele me percorra o corpo como uma espécie de linfa e se espraie no espírito em ondas infindáveis. Muito cedo peguei a doença